Brasileiros em Xangai relatam dificuldades após um mês de lockdown

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - No começo de 2020, quando ficou claro que a Covid-19 seria uma crise séria que traria problemas aos sistemas de saúde de todo o mundo, a dançarina Fabiane Fonseca, hoje com 35 anos, diz que não se sentiu com medo por estar no epicentro da epidemia, a China, onde mora há seis anos. "O protocolo de segurança era rígido, mas sempre foi muito funcional, e no fim eu me sentia segura", afirma.

Pouco mais de dois anos depois, proibida há mais de um mês de sair de casa em Xangai, polo financeiro do país, a impressão mudou.

"Esse ano foi um choque. A gente já sabia como era a política de 'Covid zero', já via lockdowns acontecendo desde o ano passado em outras cidades, mas até então era uma quarentena de 14 dias. Quando começaram a fazer os testes aqui, jamais imaginamos que chegaria a esse ponto", conta, referindo-se à extensão da medida e ao envio de contaminados a centros de confinamento longe de casa.

Primeiro, anunciaram que a região em que Fabiane morava seria fechada por 48 horas, que se estenderam por mais 48 horas, e depois 5 dias, "agora estamos em uma espécie de prisão domiciliar há mais de um mês, em que eu não desço nem na área externa do meu condomínio a não ser para fazer teste de Covid."

A variante ômicron do coronavírus, muito mais contagiosa, furou as rígidas barreiras que a China construiu contra a doença, que, com a 'Covid zero', dificultou a entrada no país, impôs testes em massa e conseguiu zerar as contaminações. Agora, o regime dobra a aposta na medida, sob protestos da população, em um momento em que Xangai tornou-se o centro da crise no país. Em 18 de abril, a cidade registrou as primeiras mortes por Covid-19 em dois anos. Hoje já são 490, 16 delas nesta terça-feira (3).

Desde 10 de março sem trabalho, já que os espetáculos de dança estão suspensos, Fabiane relata que precisou contar com a compreensão do dono do apartamento onde vive para adiar o pagamento do aluguel, que custa cerca de R$ 4.000. "Eu tinha alguma reserva, mas a situação é muito difícil, muito instável, muito incerta."

Ela diz que não recebeu qualquer auxílio do governo e que mesmo as cestas de alimentos distribuídas na cidade chegaram pouquíssimas vezes nos bairros mais afastados, como o dela, e a maior parte se concentrou no começo da quarentena. "O preço das coisas dobrou, e a gente só consegue fazer compras em quantidades enormes, em grupos grandes."

Hoje, ela tenta juntar dinheiro para deixar o país, o que espera que aconteça até o final do ano. Uma pena, diz, porque ela conta ter encontrado na China um lugar onde seu trabalho como dançarina é mais valorizado do que no Brasil --situação que mudou ao longo da pandemia, em sua visão, depois que a China controlou a doença enquanto outros países do mundo enfrentavam surtos mortais.

"Cresceu muito o preconceito contra estrangeiros aqui também. Perguntavam sempre minha nacionalidade, ficou mais difícil de conseguir trabalho. O preconceito que outros países registraram com chineses no começo da pandemia também aconteceu na China com estrangeiros", afirma.

A vontade de deixar o país após a quarentena rígida é compartilhada por outros estrangeiros, em um movimento que se acelerou agora, mas que já vinha em curso ao longo da pandemia --em 2021, a cidade foi residência legal para 164 mil estrangeiros, contra 215 mil em 2018.

A frustração atinge até quem acabou de chegar. Um brasileiro que pediu para não ser identificado por medo de enfrentar dificuldades com as autoridades locais contou ao jornal Folha de S.Paulo que está há mais de dois meses preso em casa, junto da mulher e dos dois filhos pequenos, porque acumulou duas quarentenas, com um pequeno intervalo entre elas.

Primeiro, a da chegada no país, aonde foi trabalhar como engenheiro para uma empresa europeia, no fim de fevereiro. Na ocasião, teve que cumprir uma quarentena de 21 dias, obrigatória para quem chega do exterior.

Depois, teve menos de uma semana de liberdade, quando pôde circular pela cidade sem restrições, até que Xangai entrou em lockdown no começo de abril. Nesse período, ele diz que já gastou mais de 12 mil iuanes (cerca de R$ 9 mil) apenas para conseguir comprar comida, e agora luta para distrair os filhos, de 4 e 7 anos, presos em casa.

No domingo, a administração da cidade começou a permitir que residentes de cinco dos 16 distritos, onde vive cerca de um quinto da população, saia brevemente, o que fez lotar os poucos mercados abertos ao público.

Outras cidades também apertam as restrições. Nesta terça, Zhengzhou, na região central do país, onde vivem 12,6 milhões de habitantes, anunciou restrições de 4 a 10 de maio. A capital, Pequim, também tem aumentado restrições, e anunciou que as escolas ficarão fechadas por mais uma semana. Além disso, quem quiser quiser entrar ou sair da cidade precisará apresentar um teste de Covid com resultado negativo realizado há menos de 48 horas..

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