Brasileiros enfrentam perrengues na Irlanda para conseguir moradia após 'boom' imigratório

A Irlanda vive uma crise de falta de acomodação para atender a toda a demanda de estrangeiros que escolhem o país para morar ou passar uma temporada. Os brasileiros relatam dificuldades para conseguir moradia e têm que dividir cama com estranhos ou comprometer praticamente todo o salário com aluguel.

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As acomodações se tornaram escassas e caras após o aumento do fluxo imigratório dos últimos anos e a retomada pós-pandemia. No primeiro trimestre deste ano, os aluguéis tiveram o maior aumento em cinco anos, e a imprensa local reportou em maio que só havia 852 imóveis para alugar em todo o país, o menor número desde 2006.

O número de brasileiros morando na Irlanda, por outro lado, quintuplicou de 2016 para cá, segundo estimativa divulgada recentemente pela Embaixada do Brasil em Dublin: cerca de 70 mil pessoas deixaram o Brasil em busca de emprego, estudo e melhores condições de vida no país europeu.

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E não são só brasileiros: desde 2015, mais pessoas chegam para morar na Irlanda do que saem, incluindo irlandeses que voltam e estrangeiros, segundo dados oficiais. Em 2021, último ano para o qual há informações, havia 645.500 estrangeiros no país, ou 12,9% da população.

Agora, a população estrangeira aumentou ainda mais após a invasão russa na Ucrânia, em fevereiro deste ano. A Irlanda acolheu mais de 20 mil ucranianos. Em junho, o governo aprovou a construção de 500 casas modulares para abrigar os refugiados.

Pela necessidade de um teto, a personal organizer ou organizadora de ambientes brasileira Letícia Lerner, de 28 anos, teve que dividir a cama com desconhecidos em espaços minúsculos. Ela já está na quinta acomodação desde que chegou a Dublin, há seis meses.

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Logo que desembarcou, a jovem foi diagnosticada com Covid-19, o que dificultou a busca por moradia no início, porque ela teve que ficar isolada por 10 dias num hostel. A primeira acomodação depois disso foi um estúdio bem antigo, que Lerner dividia com outra jovem brasileira. Mas as duas não se entrosaram, e a personal saiu depois de 15 dias para morar com outros brasileiros, mas de novo teve problemas.

Segundo conta, era um cubículo sujo e antigo, sem camas:

— Eram dois colchões infláveis no chão e, novamente, tive que dividir a cama com um estranho. Pensei: “Não acredito que caí numa roubada de novo”. Mas procurei outro lugar e me mudei 20 dias depois.

Na nova acomodação, havia muitas regras que não se encaixavam no ritmo de vida dela, em três empregos, como bartender, faxineira e babá, além de um extra como personal organizer.

— Eu tinha horários diferentes dos colegas de casa. Se eu tivesse que tomar banho fora do horário estabelecido, teria que ser gelado. Depois de três meses procurando, consegui um imóvel melhor e agora até me sinto privilegiada — disse Lerner, dizendo que o acúmulo de trabalhos possibilita que ela pague o aluguel de 900 euros (cerca de R$ 5 mil) por um quarto onde mora sozinha.

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O aluguel compromete cerca de 90% do salário da mineira Camila Ribeiro, que mora em Dublin há dois meses. Ela paga 600 euros (R$ 3.300) por mês para morar em um apartamento compartilhado com outras cinco jovens. O aluguel total do imóvel é de 3.200 euros (R$ 18 mil)

— Estou arrumando outro emprego e, com os dois trabalhos, devo gastar 50% do salário com aluguel, o que vai melhorar, mas ainda é muito — disse.

Camila tem 29 anos, é formada em administração e se mudou para a Irlanda com visto de estudante e direito a trabalhar, seguindo um sonho que tinha desde a adolescência de fazer intercâmbio.

A situação piora com a atuação de sublocadores, que alugam os imóveis e oferecem aos estrangeiros por um valor maior do que pagam, lucrando com os que não conseguem alugar diretamente por causa das exigências dos proprietários.

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A busca por acomodação também foi um momento de peregrinação para a psicóloga Lorena Marcelino Machado, de 34 anos, que demorou cinco meses para conseguir um lugar disponível. Ela faz um intercâmbio em Dublin e, desde que chegou, em janeiro deste ano, já passou por cinco acomodações.

— Só em junho consegui uma acomodação definitiva, que nem é tão definitiva assim, porque estou ocupando a vaga de uma pessoa que está no Brasil — disse.

Machado é de Vitória (ES) e foi para a Irlanda para estudar inglês. A chegada coincidiu com um período crítico de falta de acomodação, agravada pela retomada pós-pandemia. Ela conseguiu um trabalho de babá e isso está ajudando com as despesas, mas conta que, com o aumento recente do aluguel, muitos proprietários têm pedido os imóveis de volta.

— Por lei, o locador não pode aumentar o valor do aluguel mais do que um limite previsto, então pedem de volta com a desculpa de que a casa precisaria passar por reforma e oferecem a novos inquilinos por um aluguel muito mais caro.

Para tentar diminuir essa insegurança, o governo irlandês anunciou neste mês a extensão dos períodos de aviso de rescisão de contrato pelos proprietários quando não houver violação das regras pelo locatário. O novo período de aviso prévio para quem fez contrato há menos de seis meses passou a ser de três meses e não mais de 28 dias, por exemplo.

Nos grupos de brasileiros na Irlanda, no Facebook, pessoas postam mensagens implorando por acomodação. Apesar disso, o país é atrativo para estrangeiros. Há vagas sem a exigência de falar inglês, pelo menos inicialmente, contudo, em empregos sem atendimento ao público, como prestação de serviços de limpeza. Também é permitido trabalho temporário com visto de estudante.

Numa pesquisa feita pelo E-Dublin, um site para brasileiros na Irlanda, a maioria dos intercambistas cita a hospitalidade, a alimentação, a qualidade de vida e a oportunidade de trabalho como principais vantagens do país.

Guilherme Marques foi para a Irlanda há cinco anos, com o plano de estudar e voltar para o Brasil, mas mudou de ideia logo no primeiro ano. Ao voltar para o Brasil, deu andamento ao processo de cidadania portuguesa, e por conseguinte obteve o passaporte europeu. Quando conseguiu, voltou para morar.

— Optei pela dupla nacionalidade, assim trabalhar e morar por aqui sem as limitações de quem vem só para o intercâmbio — contou Marques, que trabalha na área de tecnologia da informação. — Dublin, onde moro, é bem acolhedora com estrangeiros. A cidade é bem agitada e os bairros têm tudo o que você precisa sem precisar ir muito longe.

No dia 14 de junho, o presidente da Irlanda, Michael Higgins, se manifestou sobre a crise imobiliária no país. Em discurso, ele apontou um aumento de 90% na falta de moradia para os jovens e destacou que “as perspectivas estão ficando mais sombrias”.

— Vamos abrigar nosso povo, vamos educar nosso povo, vamos mostrar que ninguém está passando fome, vamos mostrar que ninguém é excluído de nenhuma parte da nossa sociedade — disse.

Além da construção de casas às pressas para os imigrantes ucranianos, o governo lançou neste ano medidas para a criação de novas habitações. Uma delas é um plano para acelerar a construção de imóveis que já têm permissão do poder público. Só em Dublin, segundo o governo irlandês, são cerca de 40 mil pedidos autorizados e ainda sem execução.

O plano deve acelerar a construção de apartamentos nas cidades de Dublin, Cork, Limerick, Galway e Waterford. Para o programa, o governo diz que vai destinar 450 milhões de euros (R$ 2,5 bilhões) até 2026.

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