Brasileiros gastam quase o dobro em gasolina para percorrer trajetos

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A view of streets of Sao Paulo, Brazil, on April 8, 2020 during the Coronavirus emergency. (Photo by Fabio Vieira/FotoRua/NurPhoto via Getty Images)
A view of streets of Sao Paulo, Brazil, on April 8, 2020 during the Coronavirus emergency. (Photo by Fabio Vieira/FotoRua/NurPhoto via Getty Images)
  • Brasileiros gastam quase o dobro para percorrer mesmos trajetos de antes;

  • Levantamento do Estadão revela que se gasta 27% do salário mínimo para encher o tanque;

  • Explicação do fenômeno se deve a forte alta dos combustíveis;

Nesta sexta-feira, um levantamento feito pelo Estadão concluiu que o motorista atualmente gasta mais para fazer os mesmos trajetos. Segundo o jornal, isso se deve ao fato de que preço da gasolina vendida ao consumidor subiu 84,1% nos últimos cinco anos. Na cidade de São Paulo, a mais populosa do País, o valor médio do litro passou de R$ 3,40 em outubro de 2016 para R$ 6,26 em outubro de 2021. No mesmo período, o salário mínimo foi reajustado em 25% e a inflação acumulada (IPCA) é de 27%. 

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O jornal citou o exemplo de que em 2016, era possível viajar da Praça da Sé, em São Paulo, até a Praia do Boqueirão, em Santos, gastando pouco menos de R$ 20 em gasolina para um trajeto de 80 quilômetros. Hoje, se o consumidor abastecer o carro com o mesmo valor, irá chegar a Capivari, bairro da zona rural de São Bernardo do Campo, rodando pouco mais de 43 quilômetros. Para fazer a mesma viagem até Santos, o motorista gasta hoje cerca de R$ 36. Os preços são para um carro que roda 14 quilômetros com um litro de gasolina, referência média do INMETRO para veículos compactos e médios.

Aumento da gasolina nos últimos 12 meses prejudicou motoristas

O principal aumento aconteceu nos últimos 12 meses. O valor médio do litro da gasolina na cidade de São Paulo passou de R$ 4,23 em outubro de 2020 para R$ 6,26 no mesmo mês de 2021, um aumento de 48%. Nesse período, a inflação acumulada é de 11,62%. Em outros municípios, o valor da gasolina é ainda mais alto, como em Bagé, no Rio Grande do Sul, local da gasolina mais cara do País, em que o litro custa em média R$ 7,99 na cidade, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

As razões para o forte aumento, segundo especialistas ouvidos pelo Estadão, são a valorização do barril de petróleo e a depreciação do real frente ao dólar. O preço do barril do petróleo tipo Brent passou de US$ 37 em outubro do ano passado para US$ 84 no mesmo mês deste ano. Já o valor do dólar disparou no início da pandemia e se manteve em alta, ficando na casa dos R$ 5,60 no mês de outubro, enquanto em 2019, a moeda americana valia cerca de R$ 4.

No trajeto de São Paulo a Santos, o aumento no preço do combustível entre 2020 e 2021 encurta a viagem em 20 quilômetros. Essa é a distância entre o bairro da Lapa e a Vila da Saúde, na capital paulista. O tanque de um carro popular comporta aproximadamente 50 litros de gasolina, o suficiente para rodar cerca de 700 quilômetros na estrada. Em 2016, os paulistanos gastavam cerca de 19% do salário mínimo para abastecer por completo o veículo, enquanto em 2021, é preciso 27% do salário mínimo para conseguir encher o tanque do carro.

O diesel, combustível usado principalmente por caminhões, também aumentou bem acima da inflação no período. Em outubro de 2016, o litro do combustível era vendido a R$ 2,90 na capital paulista. No mesmo mês de 2021, o preço subiu para R$ 5,20, um aumento de 79,3%. Vale lembrar que o valor do combustível vendido pela Petrobras nas refinarias é a base para o cálculo do preço final, aquele que o consumidor paga no posto. É a partir dele que são calculados os impostos que incidem sobre o produto, como o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), cobrado pelos Estados. De 2016 para cá, o preço da Petrobras mais que dobrou.

Até 2016, a Petrobras não tinha uma regra específica para reajustar o preço dos combustíveis. Em outubro daquele ano, o então presidente da Petrobras, Pedro Parente, anunciou uma nova política de preços que passou a ser pautada pela variação do valor do barril de petróleo no mercado internacional e dos custos logísticos da operação.

"A lógica é criar uma paridade com o preço importado. Toda vez que o preço de importação cresce, a Petrobras acompanha o crescimento", explicou em entrevista ao Estadão, Rodrigo Leão, coordenador técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep). Até o fim de 2017, essa política não provocou grandes alterações no preço dos combustíveis. O primeiro salto aconteceu no início de 2018 e culminou na greve dos caminhoneiros em maio daquele ano.

Em 2021, dois fatores são as grandes razões da alta: com a redução do número de casos de covid-19 pelo mundo e a retomada do consumo, o valor do barril de petróleo chegou a US$ 84, o mais alto dos últimos sete anos. O câmbio é outra explicação, uma vez que o dólar está acima dos R$ 5 desde o início da pandemia. "Passamos a viver uma volatilidade gigantesca. Os preços variam muito", disse Leão ao jornal.

Em nota para o Estadão, a Petrobras disse que a comparação entre 2016 e 2021 "revela cenários bem distintos". A companhia alegou que "em outubro de 2016 o barril de petróleo era cotado em torno de US$ 50, enquanto hoje está sendo cotado acima de US$ 80". Ressaltou ainda que o dólar passou de R$ 3,20 para R$ 5,40. "Dessa forma, no cálculo em reais, o barril de petróleo custava cerca de R$ 1 por litro em outubro de 2016 e hoje custa acima de R$ 2,70 por litro", disse em comunicado.

Por fim, a empresa falou que os impostos sobre os combustíveis "crescem de forma passiva, apenas pelo ajuste no preço". Enquanto isso, a parcela da Petrobras é impactada pela variação do dólar e da cotação internacional do barril de petróleo, completou a petrolífera ao jornal.

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