Bretas autoriza prisão domiciliar a Dario Messer, 'doleiro dos doleiros', devido ao coronavírus

ITALO NOGUEIRA
***FOTO DE ARQUIVO*** RIO DE JANEIRO, RJ, BRASIL 23.11.2018 O juiz Marcelo Bretas participa do Simpósio Nacional de Combate à Corrupção, na FGV-RJ (Foto: Ricardo Borges/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O juiz Marcelo Bretas autorizou nesta quinta-feira (26) que o doleiro Dario Messer cumpra sua prisão preventiva em domicílio por estar no grupo de risco do novo coronavírus.

Messer, 61, é hipertenso e esteve internado entre 18 e 20 de março -quando a epidemia já havia chegado ao país- para a retirada de lesões cutâneas compatíveis com melanoma maligno.

O doleiro foi preso em julho do ano passado após ficar mais de um ano foragido da polícia. Acusado de ser o mentor de um esquema de evasão de divisas e lavagem de dinheiro que movimentou mais de R$ 5 bilhões entre 2011 e 2017, ele foi detido nos Jardins (zona oeste de São Paulo), de acordo com a Polícia Federal.

Bretas escreveu em sua decisão que a prisão domiciliar pode ser revogada ao fim da pandemia.

"Destaco, porém, que não há mudança de entendimento desse juízo quanto à necessidade da segregação cautelar do investigado, mas tão somente adequação às peculiaridades do presente momento em que o país se encontra. Trata-se, portanto, de medida de caráter extraprocessual, de natureza humanitária, que pode ser revista tão logo cessem os motivos excepcionais e emergenciais", escreveu o magistrado.

Alvo de investigações desde a década passada, ainda no caso Banestado, Messer ganhou o apelido de "doleiro dos doleiros". Foi delatado na Lava Jato do Rio pela dupla Vinicius Claret e Cláudio Barboza, que tinha sido detida no Uruguai em 2017 e mais tarde se tornou colaboradora da Justiça.

Os dois eram funcionários de Messer e operaram um sistema de dólar-cabo que movimentou cerca de US$ 1,6 bilhão (o equivalente a cerca de R$ 5,3 bilhões) envolvendo mais de 3.000 offshores em 52 países.

Mais de 50 doleiros usavam o esquema montado por Messer para atender seus clientes no Brasil e no exterior. A estrutura dele era uma das poucas que conseguia operar as duas pontas do dólar-cabo: ao mesmo tempo, oferecer dinheiro vivo no país e ter caixa disponível em contas no exterior, em paraísos fiscais.

Segundo as investigações, Messer era o lastro financeiro da dupla, bem como o responsável por avalizar a confiança dos dois em sua rede de contatos no país e no exterior. Claret e Barboza operavam o sistema --os dois atualmente ensinam suas técnicas a procuradores federais, como parte do acordo de delação.

Dario Messer também é apontado como o controlador do banco Evergreen (EVG) em Antígua e Barbuda, no Caribe. Uma lista de mais de 400 clientes está nas mãos do Ministério Público Federal para apurar quais casos envolvem crime -o banco misturava negócios legais e ilegais.

A atuação da família Messer no câmbio ilegal remonta à década de 1980, pelas mãos do patriarca Mordko Messer, espécie de mentor do esquema mantido por Dario, Claret e Barboza.

As amizades do "doleiro dos doleiros" vão desde o ex-atacante de futebol Ronaldo Fenômeno até o ex-presidente do Paraguai Horacio Cartes, que o chamou de "irmão de alma". O paraguaio foi socorrido pelo patriarca Mordko numa fase de dificuldades financeiras.

Dario Messer chegou a ensaiar uma delação premiada com procuradores federais entre 2017 e 2018. As negociações foram interrompidas quando uma escuta telefônica flagrou um operador financeiro comentando, 20 dias antes da Operação Câmbio, Desligo, a iminência da prisão do doleiro.