Brics falam em crise no Sudão, Iêmen, Coreia do Norte e Líbia, mas ignoram Venezuela e Bolívia

PATRÍCIA CAMPOS MELLO E RICARDO DELLA COLETTA
BRASÍLIA, DF, 14.11.2019: BRICS-ENCONTRO-DF - Os presidentes Xi Jinping (China), Vladimir Putin (Rússia), Jair Bolsonaro (Brasil), Narendra Modi (Índia) e Cyril Ramaphosa (África do Sul) na cúpula dos Brics (bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) em Brasília, nesta quinta. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A declaração final da cúpula dos Brics aborda a crise humanitária no Sudão, a guerra no Iêmen, a ameaça nuclear na Coreia do Norte e o conflito na Síria -mas não tem nem uma única menção à Venezuela e à Bolívia, países vizinhos ao Brasil que vivem turbulências políticas e econômicas.

O Itamaraty argumenta que apenas assuntos "de envergadura global" são incluídos em declarações dos Brics. A crise venezuelana já gerou um êxodo de 4 milhões de refugiados.

Segundo a reportagem apurou, o Brasil nem sequer tentou incluir no documento menções às crises na Venezuela e na Bolívia, sabendo que não conseguiria um consenso mínimo.

O Brasil está isolado ao reconhecer Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela, enquanto todos os outros países reconhecem como legítimo o regime do ditador Nicolás Maduro.

Em relação à Bolívia, o Brasil não considera que a renúncia de Evo Morales tenha sido provocada por um golpe de Estado, ao contrário do governo russo. A China também era aliada próxima do governo Evo.

Venezuela não entrou no texto, mas o Brasil insistiu e conseguiu emplacar uma menção à perseguição às minorias religiosas na Síria. "Também expressamos preocupação com o sofrimento de comunidades e minorias vulneráveis étnicas e religiosas [na Síria]", diz o comunicado.

Cristãos e yazidis sofrem perseguição no território sírio. O tema é caro à bancada evangélica e se tornou prioridade da política externa do Brasil.

O país se uniu aos EUA na Aliança Internacional para Liberdade Religiosa. A cooperação na ofensiva contra a discriminação religiosa no mundo é considerada ponto-chave da parceria estratégica entre os dois países. A iniciativa visa a defender todas as religiões, mas o tema foi abraçado especialmente por evangélicos e católicos mais atuantes.