De 'Bridgerton' a 'A cor do poder', séries de TV renovam papeis de atores negros

Pedro Willmersdorf
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É apenas no quarto episódio de “Bridgerton”, série sensação deste começo de 2021, que o espectador se depara com a temática racial sendo debatida abertamente, sem subtexto. “Éramos duas sociedades separadas por cores até que um rei se apaixonou por um de nós”, diz a perspicaz Lady Danbury (Adjoa Andoh) a seu protegido, o duque de Hastings (Regé-Jean Page), referindo-se à rainha Charlotte (Golda Rosheuvel). “Veja tudo o que está fazendo por nós”, ela insiste.

Os três personagens, todos negros, ocupam postos de nobreza na produção, que adapta livremente a obra literária da americana Julia Quinn. “Bridgerton”, a série, é o primeiro projeto oriundo do contrato milionário assinado por Shonda Rhimes com a Netflix. Nesta nova empreitada, a showrunner mantém sua trajetória, marcada pela inserção de "black power" em hits como “Scandal” e “How to get away with murder”. Só que, desta vez, injetando negritude na veia da aristocracia britânica durante o período de Regência, no começo do século XIX.

Próximo 007?

Em meio a boatos de que poderia ser até o próximo James Bond, o bonitão Regé-Jean Page colhe os frutos do seu sucesso em “Bridgerton”. Em entrevista à “Esquire”, o ator britânico diz acreditar que o futuro das tramas de época passa pela presença de negros em papéis de destaque, “após muito tempo excluindo milhões de telespectadores por falhas racistas de imaginação”.

Após um 2020 marcado pelo fortalecimento da pauta antirracista, salta aos olhos um projeto de sucesso que foge da mesmice que posiciona atores negros em tramas épicas apenas em papéis de servos ou escravizados.

Esta oxigenação de narrativas refuta a homogeneidade racial de séries de época bem sucedidas como “Downton Abbey”. Em 2014, numa entrevista à “Vulture”, o produtor executivo do programa, Gareth Neame, insistiu que era necessário manter o traço caucasiano de seu elenco para uma precisão histórica. “Não é um recorte histórico multicultural. Não podemos de repente começar a povoar o seriado com pessoas de todos os tipos de etnias. Não seria correto”, declarou Neame.

'A cor do poder'

Quem pensa de forma diferente é Renata Andrade, roteirista da TV Globo. Para ela, é mais do que urgente a necessidade de maior representatividade negra em produções internacionais e brasileiras.

— Crescemos acostumados a nos ver em personagens à margem na dramaturgia, com pouca relevância e sem tramas próprias, ou representados apenas em papéis subservientes. — diz — Queremos dar mais espaço a essas vozes nas séries. Fico feliz de ver que isso começou a mudar.

Mas, além de “Bridgerton”, outras séries recentes também vêm propondo abordagens diferentes sobre a temática racial. “Lupin”, que estreou sexta-feira na Netflix, traz o ator Omar Sy (“Intocáveis”) na pele de Assane Diop, gatuno senegalês inspirado no personagem Arsène Lupin, o Ladrão de Casaca criado pelo escritor francês Maurice Leblanc, em 1905.

Criada e roteirizada por George Kay (“Killing Eve”), a nova série move a trama para os dias de hoje e, com seu protagonista completamente repaginado, ainda joga luz sobre o delicado debate em torno dos imigrantes africanos na Europa.

Já “A cor do poder” parte de uma revisão histórica para construir um cenário distópico na atualidade. A série da BBC, que estreia amanhã na Globo e no Globoplay, promove uma reflexão sobre as relações entre negros e brancos partindo do seguinte ponto: há 700 anos, nações da África Ocidental se uniram para colonizar a Europa. O pano de fundo é o romance impossível entre Sephy, filha de um político de destaque e integrante da ‘Elite’, classe dominante negra, e Callum, branco da classe baixa de escravos recém-libertados.

O leque de produções de época recentes que apostam na negritude para além de papéis secundários ainda conta com séries como “The spanish princess” (StarzPlay) e “The great” (StarzPlay). É preciso fazer também uma menção honrosa ao musical “Hamilton” (Disney+), de Lin-Manuel Miranda, cujo elenco narra, ou melhor, canta a vida de Alexander Hamilton, pai fundador dos Estados Unidos, subvertendo a História com intérpretes negros em papéis de escravocratas brancos.

— O negro é plural, cheio de peculiaridades, rico de histórias e elas, sem dúvida, geram identificação em um público que, muito legitimamente, quer se ver mais e melhor representado. — acredita Renata — Um público que quer se ver muito além das senzalas. São essas histórias que eu quero ver e contar na televisão.