O que mais nos chocou em "Bridgertons" não são os caras gatos (ou as cenas de sexo)

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O relacionamento de Daphne e Simon em Bridgertons trouxe à tona a importância da educação sexual. (Foto: Divulgação)
O relacionamento de Daphne e Simon em Bridgertons trouxe à tona a importância da educação sexual. (Foto: Divulgação)

A série do momento, 'Bridgertons’ é um combo certeiro para conquistar um público fiel: um misto de ‘Orgulho e Preconceito’ com ‘Gossip Girl’, criado por ninguém mais, ninguém menos, que Shonda Rhimes, nome por trás de 'Scandal', 'Grey's Anatomy' e 'How To Get Away With Murder'.

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Sua nova série em parceria com a Netflix deu o que falar desde o começo pelo elenco incrível, diverso e repleto de colírios, com o perdão do termo antiquado. No entanto, por mais que a história seja envolvente, o que chamou a atenção não necessariamente foi o mistério por trás de Lady Whistledown, o que acontecia, de fato, com o Rei ou porquê o Duque fazia tanta questão de viver solteiro e sem filhos.

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Não, pelo contrário, o que levantou um alerta por aqui foi a falta de conhecimento de Daphne sobre como funciona a reprodução humana. Na época em que a série se passa, o que vemos refletido é uma sociedade elitista, claro, que ensina as "boas maneiras" às suas filhas - enquanto os homens, obviamente, podem se divertir como quiserem. Nisso, no entanto, são muitos os mistérios que acabam permeando a vida dessas meninas, que tão novas são apresentadas a sociedade precisam encontrar um marido para casar. E, como você pode imaginar, o mistério não tem nada a ver com quem é a grande fofoqueira de Londres e sim com a falta de conhecimento dessas meninas sobre reprodução, sexo e o próprio prazer sexual.

Em uma das cenas icônicas (e cuidado com o spoiler, se você ainda não maratonou a série!), o Duque, Simon, sugere que Daphne explore o próprio corpo (ou seja, que ela se masturbe), para lidar com o desejo. Para ela, claro, essa sugestão parece altamente escandalosa, o que não significa que a curiosidade não tenha falado mais alto. Depois de casada, o momento é de entender como, de verdade, são concebidos e nascem os bebês, seguida de uma cena em que a jovem fala para a mãe que se ela conhecesse melhor sobre as relações homem-mulher, muito sofrimento poderia ser evitado.

De fato, estamos falando de uma série fictícia, uma história que saiu dos livros e foi adaptada para as telas. E ainda assim… quando se fala em educação sexual, não estamos tão distantes assim do que Daphne passou. É claro que o mundo mudou muito, que a internet veio como uma maneira rápida e simples de disseminar conhecimento e conteúdo, mas, ainda assim, vemos em países como o Brasil uma aversão a um conhecimento que deveria ser básico.

Quando se fala em educação sexual, o que passa na cabeça de muitas pessoas é que as crianças vão aprender sobre sexo, sobre como transar com alguém, por exemplo, como “seres homossexuais” (se é que isso é possível). E por mais que entender sobre a reprodução humana faça parte dos estudos biológicos (e deve ser visto como tal), a educação sexual pretende fazer com que as crianças entendam o funcionamento do próprio corpo, como ter um início de vida sexual seguro, e o que é ou não permitido em termos de interação sexual.

No ano passado, por exemplo, o Governo Federal anunciou que em 2019 foram registradas mais de 17 mil ocorrências de abuso sexual contra crianças e adolescentes no país. O mais assustador? Em 73% dos casos, a violência acontece dentro da própria casa da criança, sendo que em 40% deles o abusador é um pai ou padrasto. Como, em muitos casos, essa violência vem acompanhada de muito medo e ameaças, não é simples de reconhecê-la de primeira - a educação sexual vem, então, como uma forma efetiva de combate, ajudando a criança a identificar comportamentos inadequados e a buscar ajuda, se necessário.

Outro ponto que mostra a importância da educação sexual é a gravidez na adolescência. Predominante em países em desenvolvimento, ela acontece entre meninas com idade entre 10 e 20 anos e, segundo dados da Organização Mundial de Saúde, geram uma série de decorrências socioeconômicas para a vida das mães, sendo a principal delas a evasão do estudo. Por aqui, o número de gravidezes na adolescência é alto: a cada mil meninas, 68,4 viram mães, quase 50% acima do valor mundial de, aproximadamente, 46% para cada mil.

Não à toa que a campanha do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos gerou polêmica no ano passado, ao sugerir a abstinência como um método contraceptivo e uma solução para diminuir esses índices por aqui. Aliás, qualquer semelhança dessa campanha com os valores e morais defendidos pela alta sociedade da série 'Bridgertons' talvez não seja mera coincidência, mas um reflexo de como a mentalidade brasileira em relação à educação sexual é retrógrada e de cunho religioso. Na série, inclusive, uma das personagens faz o que pode para casar antes que descubram que ela está grávida, já que assumir a gravidez é um sinal claro de que ela fez o impensável e, portanto, "perde o seu valor" perante a sociedade.

Os dados são antigos, mas de acordo com a Agência Brasil, em 2015 o Brasil contava com 67 milhões de mães, das quais 31% são solos, o que significa que cuidam sozinhas dos filhos, sem a presença de um parceiro. É claro que não é possível dizer que esse número é resultado da falta de educação sexual, mas é importante também levar em conta o índice de gravidezes na adolescência citado acima, e o quanto ele colabora para o número de mães solo no país, além do fato de que mais de 5 milhões de crianças não têm o nome do pai registrado na certidão de nascimento, um claro indicativo de abandono parental.

No mais, se a série pode nos ensinar qualquer coisa é a importância de uma educação sexual efetiva, o que também já vimos, de forma brilhante, em outra série da Netflix, ‘‘Sex Education. E fica o aviso: remover o tabu sobre o assunto, ensinar crianças sobre o que é ou não aceitável e oferecer informações de qualidade sobre prevenção de gravidez e doenças não só é necessário como urgente.

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