Bruce Dickinson: ‘Esse negócio de metaverso é uma bobagem’

"Faça coisas legais para pessoas boas". Para um sujeito que ganha a vida cantando sobre guerras em diferentes períodos da História, duelos, espadas, demônios e a morte sob os mais diversos ângulos, até que Bruce Dickinson tem seu momento "nasmastê" quando está no modo palestra. O cantor inglês de 64 anos, que veste a camisa do Iron Maiden desde 1981 – com uma breve interrupção nos anos 1990 –, meteu um blazer, prendeu o cabelo e foi uma das atrações da Rio Innovation Week na tarde de terça-feira, no Píer Mauá. Conhecido por equilibrar pratinhos diversos, como os de empresário, esgrimista, piloto e fabricante de cerveja, além do job principal à frente do sexteto londrino, ele voltou à cidade dois meses depois de cantar no Rock in Rio para a palestra "De estrela do rock a empresário de sucesso" – que não foi exatamente isso.

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À frente de uma plateia lotada por cerca de duas mil pessoas, Bruce brigou com a tecnologia (chegou a jogar longe um controle remoto que não funcionava, num momento típico de cantor de rock) e discursou por cerca de 45 minutos sobre suas diversas atividades, mas principalmente abordando o mundo atual e como enfrentá-lo.

– Somos todos macacos com iPads e bombas nucleares – definiu. – A Humanidade não mudou, e nós precisamos mudar, evoluir, acompanhar os tempos. Daqui a pouco a inteligência artificial será mais inteligente do que nós, e então qual será o nosso propósito? Parece uma pergunta religiosa, mas é prática. De que vamos servir?

Bruce – que foi a favor do Brexit, movimento que tirou a Inglaterra da União Europeia, e cujos efeitos negativos são sentidos até hoje (ele mesmo já reclamou da burocracia para viajar com a banda pelo continente) – destacou o lado humano, dos negócios e da vida, ao longo da conversa.

– Fui piloto comercial por dez anos – lembrou ele, que já trouxe a banda ao Brasil com as próprias mãos, na turnê imortalizada no documentário "Flight 666", pelo lado pitoresco de ter o cantor no manche e pela opção empresarial de fretar um avião e carregar banda e equipamento nele, sem depender de voos comerciais. – Um avião é uma obra de arte, sólida e segura. Sabe por que aviões caem? Por causa dos seres humanos. Os erros são sempre nossos.

Embora reconheça a importância da tecnologia – que, lembrou, ajudou a curá-lo de um câncer na garganta, em 2015 –, ele jura preferir as pessoas.

– Esse negócio de metaverso é uma bobagem – definiu, usando uma palavra bem mais pesada do que "bobagem" ("bullshit"). – Olhe pela janela! Já não temos coisas demais acontecendo aqui na Terra, pessoas passando fome, pobreza, guerras? Não precisamos de outro universo, vamos cuidar deste aqui. A internet foi criada e entregue às pessoas de graça, uma revolução. E o que fizemos com ela? Hoje em dia há mais informações falsas do que verdadeiras na rede.

Ele passou rapidamente por algumas de suas atividades, como dono de companhia aérea (a Cardeav, baseada em Cardiff, no País de Gales), esgrimista e cervejeiro.

– Quando o médico me disse que eu tinha câncer, fiquei muito chateado por duas ou três semanas – lembra ele. – Perguntei a ele se era porque eu bebia muito, mas descobri que ele bebe muito mais do que eu. Uma boa maneira de descobrir que você não é um alcoólatra, né? Mas ele me disse que era apenas má sorte, que qualquer pessoa pode ter câncer, e que os túmulos de ricos e de pobres são igualmente frios.

Ainda nas cervejas, ele lembrou que uma das mais conhecidas de seu portfólio, a The Trooper (nome de um clássico do Iron Maiden), é fabricada em sociedade com empresários brasileiros.

– Eu estava gravando o disco "The Book of Souls" (2015) com a banda em Paris, e esses meus amigos brasileiros foram lá para fazermos uma degustação de cerveja – contou ele. – Eu tinha rompido o tendão de Aquiles, seria operado no dia seguinte, e fui de muletas mesmo. Começamos a sociedade, e agora a Trooper ganhou a medalha de ouro em um concurso de cervejas. Corremos o risco, e agora estamos sendo recompensados. Risco, responsabilidade e recompensa, são os três RR que uso para fazer negócios.

Após substituir o "666" de outro de seus clássicos, "The number of the beast", pelo empreendedorismo coach do "RRR", ele aproveitou para falar da agenda: em abril estará novamente no Brasil, desta vez para cantar clássicos do Deep Purple à frente de uma orquestra, em homenagem ao tecladista Jon Lord, morto de câncer em 2012.

– Muita gente pode pilotar um avião, e certamente tem um monte que sabe fazer cerveja – disse ele, num arroubo de modéstia. – Se tem algo que eu faço que pode ser chamado de especial é cantar, já que a forma como canto parece fazer as pessoas felizes. Na última turnê do Iron Maiden, que acabou há poucos dias, vendemos três milhões de ingressos, recorde na carreira da banda. Façam coisas legais para pessoas boas, e, quando caírem do cavalo, subam nele de volta.