Brumadinho: estudo catalão conclui que perfuração na barragem provocou 'liquefação' e causou tragédia com pelo menos 261 mortos

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RIO — O Ministério Público Federal (MPF) recebeu, nesta segunda-feira (4), o relatório final sobre as causas do rompimento da Barragem I, da Vale, na Mina do Córrego do Feijão, que causou a tragédia de Brumadinho (MG), no início de 2019, com pelo menos 261 mortos e 9 desaparecidos até hoje. O estudo foi feito pela Universitat Politécnica de Catalunya (UPC), da Espanha, por meio do Centro Internacional de Métodos Numéricos en Ingenieria (Cimne), e concluiu que a ruptura se deu pelo fenômeno de liquefação, ligado diretamente ao comportamento frágil não drenado do solo, causado por um "evento adicional": uma perfuração que estava sendo feita quando tudo aconteceu.

Para chegar a tais conclusões, A UPC e o Cimne realizaram uma série de simulações computadorizadas, que foram detalhadas no relatório. Os pesquisadores desenvolveram um modelo utilizando dados verossímeis colhidos sobre os elementos contidos na barragem e levaram em consideração a história desde a construção, registros pluviométricos em mais de 40 anos, e as movimentações de superfície da barragem nos anos imediatamente anteriores ao rompimento. Vários cenários foram testados. O relatório, destaca também o MP, aponta que, quando o acidente aconteceu, “a maioria dos rejeitos da barragem eram fofos, contráteis, saturados e mal drenados e, portanto, altamente suscetíveis à liquefação”.

Na análise sobre os "gatilhos" para a liquefação, o que culminou na tragédia, os pesquisadores deram atenção especial a operações de perfuração na barragem realizadas em 2018 pela Vale, onde, numa delas, chegou a haver um "grave incidente" durante a instalação de um dreno, em junho daquele ano, o que resultou em vazamentos visíveis de lama em vários pontos da barragem, mas que acabaram sendo contidos. Naquele momento, aponta o ofício, o incidente provocou um aumento local e temporário nas pressões piezométricas da água e abatimento na barragem, e que uma liquefação contida pode ter ocorrido já naquele momento. Mas que em nada teve relação com o que aconteceria meses depois. Foi numa perfuração que estava sendo feita em janeiro de 2019 que os estudiosos acreditam que tenha sido "engatilhado" o fenômeno que causou a tragédia.

“As simulações da história da barragem não mostram sinais de colapso iminente da barragem no momento da ruptura, mesmo quando fenômenos de creep (deformações internas contínuas, que se desenvolvem com o tempo, sob determinada carga) e de aumento de precipitação são incorporados na análise. Na verdade, a estabilidade também é obtida mesmo que a análise seja continuada por um período de mais 100 anos. Este resultado sugere que algum fator ou evento adicional foi necessário para que a barragem rompesse.”, diz o relatório, reconhecendo que algum fator fora do previsto causou o incidente.

Assim, outros mecanismos potenciais de gatilho foram examinados, incluindo, em especial, a simulação da sobrepressão de água associada à perfuração do furo chamado de B1-SM-13, que estava ocorrendo no momento da ruptura. “Sob condições de tensão e hidráulicas semelhantes às do fundo do furo B1-SM-13 durante a perfuração, as análises numéricas mostram que, usando o modelo constitutivo e os parâmetros adotados para os rejeitos, pode ocorrer a liquefação local devido à sobrepressão de água e sua propagação pela barragem.”

Nas simulações numéricas (em 2D e 3D) da perfuração do furo B1-SM-13, constata o relatório que: “As características geométricas da ruptura e o padrão de deslocamentos resultantes são consistentes com as observações visuais. Em particular, o mecanismo de colapso obtido mostra uma ruptura dentro da barragem começando na crista e se estendendo até um local logo acima do dique de partida. O padrão de deslocamentos apresenta abatimentos na crista da barragem e protuberâncias para fora na base, conforme observado no início do rompimento.”

“O conjunto de análises numéricas realizadas permite concluir que a perfuração do furo B1-SM-13 é um potencial gatilho da liquefação que ocasionou o rompimento da barragem. As análises realizadas não foram capazes de identificar outros gatilhos de liquefação. Em particular, os cálculos realizados incorporando apenas os efeitos de aumento da precipitação e do creep, isoladamente ou em combinação, não resultaram em um rompimento geral da barragem.”

A contratação do CIMNE/UPC é fruto do acordo celebrado entre o MPF e a Vale S/A, que assumiu os custos para a realização das atividades da instituição espanhola, consideradas fundamentais para a conclusão das investigações sobre as causas do rompimento da barragem. A escolha da UPC para a realização do estudo ficou a cargo exclusivo do MPF, com o auxílio da Polícia Federal.

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