Bruna Karla não entende as próprias músicas

Cresci em uma zona afastada da cidade de São Paulo, no meio da Serra da Cantareira, na zona norte, - mas longe das chácaras e sítios. Na parte mais pobre, onde uma coisa é real: as igrejas evangélicas dominam. E para a minha família, a influência dessas instituições foi bastante real. Começamos a frequentar os cultos quando eu tinha 10 anos de idade, e nossas vidas passaram a girar em torno da religião.

Me lembro de ir para a igreja, que ficava na esquina de casa, todos os dias da semana - exceto um, que era ensaio do grupo de mulheres. Na segunda-feira, estava lá para o ensino bíblico. Terça tinha ensaio dos jovens, quarta era culto de oração. Sexta, culto da libertação. Sábado sempre tinha algum evento, santa ceia (que é algo semelhante ao que acontece com a hóstia na igreja católica) ou algo do tipo. E para fechar a semana, domingo era o dia do culto da família. Eram momentos de alegria, de comunhão com outros irmãos, e de ouvir louvores. Na minha época de igreja, um hino que não faltava era “Sou Humano”, da Bruna Karla.

A música era cantada pelo grupo de jovens, pelo grupo das irmãs e pelos pastores convidados no culto de libertação. Era um verdadeiro hino gospel que emocionava os corações dos fiéis de todas as idades, inclusive o meu. Lembro de ter ouvido essa música pela primeira vez antes de me converter e “aceitar Jesus”, e ela me emocionou bastante por ser um desabafo sincero.

Lançado em 2009, a música faz parte do álbum “Advogado Fiel”, um dos mais famosos da minha xará. Nele, ela canta sobre ser uma pessoa imperfeita, que precisa de ajuda de Deus para seguir com sua vida. “Sou pequeno, não sei ficar de pé”. Com essas palavras, Bruna me acompanhou até mesmo quando a igreja não fazia mais parte da minha rotina. Ela chegou a ficar em primeiro lugar na minha retrospectiva do Spotify em 2020 - ano de início da pandemia e que o medo de morrer me assolou profundamente.

Eu sempre fui lésbica, mas só comecei a entender minha sexualidade aos 16 anos. A igreja que eu frequentava, que seguia uma doutrina neopentecostal, demonizava toda e qualquer relação LGBTQIA+. Isso foi um fator decisivo para eu abandonar aquela comunidade cristã sem nunca olhar para trás.

Enquanto eu lutava para ter espaço na minha família, faculdade e trabalho sendo uma mulher lésbica, eu também lutava para entender que não tinha nada de errado comigo. Que eu era apenas um ser humano. E que o fato de eu ser LGBT não me torna uma pessoa imperfeita

Foi uma decisão difícil, dura de ser feita. Afinal, eu ia para a igreja todos os dias. Meus laços mais fortes foram construídos naquele lugar, e de repente, eu estava sozinha, lutando contra mim mesma e o sentimento de que eu era pecadora me assombrava.

Por incrível que pareça, as músicas da Bruna Karla me ajudaram em alguns momentos de aflição, principalmente “Sou Humano”. Enquanto eu lutava para ter espaço na minha família, faculdade e trabalho sendo uma mulher lésbica, eu também lutava para entender que não tinha nada de errado comigo. Que eu era apenas um ser humano. E que o fato de eu ser LGBT não me torna uma pessoa imperfeita.

Members of the LGBTI community take part in a march on the International Day against Homophobia, Transphobia and Biphobia in Sao Paulo, Brazil, on May 17, 2022. (Photo by Caio GUATELLI / AFP) (Photo by CAIO GUATELLI/AFP via Getty Images)
Comunidade LGBT de São Paulo faz ato em 17 de março de 2022, Dia Nacional Contra a Homofobia (Photo by CAIO GUATELLI/AFP via Getty Images)

Anos se passaram e hoje eu tenho orgulho de ser quem eu sou, e por toda a trajetória que me trouxe até aqui. E durante todo esse tempo entre eu me assumir e estar bem com a minha sexualidade, conheci diversas pessoas que possuem uma trajetória semelhante à minha: foram criados na religião, e tiveram dificuldade para entender que eram “diferentes” por conta dos discursos feito por pastores.

O sentimento que me une a outros LGBTs é justamente aquele que inspirou Bruna em seus versos para a música “Sou Humano”. A sensação de estar tentando de tudo para ser uma pessoa boa, mesmo recebendo ataques de pessoas que foram ensinadas a amar ao próximo. O sentimento de solidão, que talvez só um ser divino possa confortar. A dor de perder amigos, família, oportunidades só por ser quem é. Só por ser humano.

Bruna Karla provou ser uma dessas pessoas que usam a religião como escudo para comentários homofóbicos e discursos de ódio. Em uma entrevista para o podcast da atriz Karina Bacchi, que viralizou nas redes sociais na última semana, a cantora gospel foi impiedosa. "Teve um amigo que me perguntou: 'Bruna, quando eu me casar, você vai no meu casamento?' e eu olhei para ele, fui bem sincera e disse: 'Ah, quando você se casar com uma mulher linda e cheia do poder de Deus, eu vou, sim'"

"E ele falou assim: 'Você sabe que não é isso que eu tô perguntando'. Estou falando de um amigo, homossexual, que a gente tem essa liberdade. E eu falei que o dia que eu aceitar cantar no seu casamento com outro homem, eu posso parar de cantar sobre a Bíblia e sobre Jesus."

Meu conselho então é que você pare de cantar, pois você não entendeu as letras das suas próprias músicas. Pois o acolhimento e o amor que é pregado em púlpitos espalhados pelo Brasil não é praticado quando falamos sobre a comunidade LGBT - algo que vai contra o que a própria figura de Cristo representa. Segundo a Bíblia, todo aquele que crer no sacrifício de Jesus pela humanidade será salvo. Se eu sou uma mulher lésbica de fé, por que Deus não me amaria, Bruna Karla?

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