Bruno Astuto escreve texto de despedida sobre Danuza: 'Insubmissa irremediável, chocou a conservadora sociedade carioca'

Quando tive a honra de ser convidado para editar a Revista Ela, cinco anos atrás, a primeira coisa que fiz foi pegar o telefone e ligar para Danuza Leão. Contei-lhe de minha absoluta obsessão em trazer de volta suas crônicas para os cariocas e, egoistamente, para mim mesmo. “Não, é claro que não”, respondeu-me ela, que, quatro anos antes, havia encerrado sua carreira na imprensa, depois de duas décadas no “Jornal do Brasil” e na “Folha de S. Paulo”, sem contar os oito best-sellers que publicou.

Insisti que retomássemos a conversa num café, que começou às quatro da tarde e terminou às duas da manhã no restaurante Esplanada Grill, onde pedimos, sem exageros, o cardápio inteiro. Lá pelas tantas, quando estávamos praticamente explodindo ao estraçalhar um prato de corações de galinha, olhei fixamente naqueles olhos lindos e lancei minha última cartada: “é insuportável não poder mais ler você”, o que ela achou um golpe baixíssimo. Acompanhei-a até sua casa, caminhando por Ipanema, e Danuza me apontou, admirada, uma mangueira carregada, por cujos galhos se via o céu pesado da madrugada. “Meu pai me dizia que a gente tinha que comer a vida como uma manga carnuda”. Pois não tive dúvida: trepei na árvore e trouxe a manga para ela, a qual me retribuiu com um “tô dentro!”.

Tomado pela felicidade, eu sequer poderia imaginar o rebuliço que causaria sua estreia. O primeiro texto começou com Danuza anunciando um número meio envolto em névoas, sua idade, 84 anos. E veio assim: “Quando eu tinha 20 anos, havia mais liberdade: podia-se pensar tudo, dizer tudo, escrever tudo, fazer tudo. Acabou. Sei de muito assuntos nos quais não posso tocar, e dar opinião (melhor não ter). Tenho o péssimo hábito de falar o que penso, por isso vou tentar ter o maior cuidado para não chocar os corações mais puros”.

Daí a cronista continuava: “Mas, como ignoro muitas coisas desta vida, vou me dar ao direito de perguntar o que não souber. Por exemplo, o que querem as mulheres, com tantas passeatas, tantas camisetas, reivindicando novas liberdades que eu não consigo entender quais são?”

Era o auge do movimento #MeToo, as atrizes apareceram de vestidos pretos no tapete vermelho do Globo de Ouro, e Danuza ainda publicou uma opinião no jornal de que “que toda mulher deveria ser assediada pelo menos três vezes por semana para ser feliz”, alinhando-se com os questionamentos da atriz francesa Catherine Deneuve, sobre as inúmeras denúncias de assédio sexual que emergiram na época. Por causa disso, foi parar até nas Páginas Amarelas da “Veja”.

As redes sociais caíram matando, e Danuza, claro, sequer tomou conhecimento, pois tinha horror a todas elas. Lembro que uma moça, baluarte-defensora de grandes causas, chamou-a de “gagá” (talvez ainda não tivesse sido apresentada ao etarismo) e escreveu que “só mesmo um editor gay poderia deixar essa mulher publicar isso” (também não parecia familiarizada com a homofobia). Foi então que chamei Danuza para discutir alguns posicionamentos que julgava pertinentes para a revista, por exemplo que o movimento não questionava a paquera, mas o abuso e o assédio criminoso. “Não acha que, assim como eu, outras mulheres, principalmente da minha geração, também têm dúvidas a respeito desses assuntos?”, rebateu ela. “Você pode nos responder com todas as outras páginas da revista”.

Ali eu entendi o poder do contraditório, mas combinei de fazermos almoços mensais para discutirmos as pautas do momento. Num deles, apareceu de peruca ruiva, para me perguntar: “será que essa mulher vai agradar agora?” Positivamente, Danuza não existia.

Agradou, e muito, batendo semanalmente todos os recordes de e-mails de leitoras e leitoras apaixonados. O currículo da minha nova colunista falava por si só. Nascida em Itaguaçu (ES), mudou-se para o Rio aos 10 anos com a família. Na adolescência, deixou o ensino formal e foi fazer a escola da vida, ficando amiga de Di Cavalcanti, Rubem Braga e Vinicius de Moraes – poderia haver melhores professores? Em sua casa, testemunhou os saraus do grupo de jovens amigos da irmã nove anos mais nova, Nara (Leão), que dedilhavam, cantarolavam e pariam o ritmo que inscreveria o Brasil no panteão da música internacional – simplesmente a bossa nova.

Debutante da revista “Sombra”, foi convidada aos 18 anos por Assis Chateaubriand para fazer parte da comitiva da festa de arromba que ele deu no castelo de Coberville, na França, com o objetivo de promover o algodão brasileiro no exterior, à qual chegou montada num burro, vestida de Maria Bonita. Deslumbrada com o que viu, comunicou à família que não voltaria, e bateu à porta do grande estilista Jacques Fath, para pedir um emprego como manequim-cabine, tornando-se, assim, a primeira modelo brasileira a fazer sucesso em Paris. Entre uma prova de roupa e outra, conheceu seu primeiro amor, o ator francês Daniel Gélin, astro do filme “La ronde”. Ele era casado, sumia e voltava, e ainda tinha problemas com heroína. Questão de sobrevivência, Danuza resolveu voltar ao Brasil, mas como se adaptar, depois de tudo que tinha vivido?

Um dia, o jornalista Sérgio Figueiredo a convidou a visitar um amigo dele na cadeia, programa inusitado que ela topou no ato e em que foi apresentada àquele que seria seu primeiro marido, o grande jornalista Samuel Wainer, dono do jornal “Última Hora” e 21 anos mais velho. Com ele teve três filhos, a artista plástica Pinky, o jornalista Samuca, e o produtor de cinema Bruno. “O único homem que me deixou ser eu, sem me tolher um só segundo, numa única palavra. Ele queria é que eu brilhasse, ajudava e acendia o holofote”, disse numa entrevista. Ao lado de Samuel, participou dos momentos cruciais e polêmicos da segunda Era Vargas, sobretudo a guerra com o arquirrival Carlos Lacerda. Viajou para a China comunista, onde se sentou à direita de Mao Tsé-Tung num jantar, brilhou na festa de inauguração de Brasília (vestindo um inusitado sári) e foi anfitriã de bambas da política, das artes e de Hollywood de passagem pelo Brasil. Em 1960, a convite da então todo-poderosa editora de moda Diana Vreeland, estrelou um editorial na revista Harper’s Bazaar americana, fotografada por ninguém menos que Richard Avedon. O título da matéria? Non-conforming people (pessoas fora dos padrões).

Era de se esperar que o glamour e o poder subissem à cabeça da jovem. Mas Danuza, uma insubmissa irremediável, chocou a conservadora sociedade carioca, quando deixou o influente marido para viver um romance com um funcionário dele, o jornalista, compositor, locutor esportivo, e tudo mais a que as letras servissem, Antonio Maria. O relacionamento com o autor, entre tantos clássicos, do hino da fossa “Ninguém me ama” terminou três anos depois, por causa dos ciúmes doentios dele, segundo ela contou em sua autobiografia “Quase tudo”, que ganhou o Prêmio Jabuti. “Tive que escolher entre a paixão e a vida”, explicou. A essa altura, Samuel estava exilado em Paris, perseguido pela ditadura militar. A ex-mulher voou ao seu encontro e ao da cidade pela qual nutriu sempre um amor desmedido. Pouco tempo depois de chegar à capital francesa, foi solapada pela fatídica notícia da morte de Maria, aos 43 anos, de um ataque do coração.

Impossível dizer, a respeito de Danuza, “que vida!”, assim no singular. Foram inúmeras as suas encarnações, embaladas pela mesma sem-cerimônia com que trocava freneticamente de casa (adorava uma obra) e penteados. Só para citar algumas, trabalhou como atriz nos filmes “Terra em transe” (1967) e “A idade da terra” (1980), de Glauber Rocha; foi promoter das boates Régine’s e Hippopotamus, símbolos máximos do glamour carioca dos anos 1980, dona de restaurante (o Primavera, que durou três meses), entrevistadora de TV, produtora de novela, jurada do programa de auditório de Flávio Cavalcanti e até vice-presidente da Riotur, para a qual organizou de Carnaval a corrida de Fórmula 1. Algumas dessas fases foram levadas com grande alegria, outras, sob os dramas pesadíssimos que enfrentou: o suicídio do pai, o tumor fatal de Nara e o mais estúpido e dilacerante que alguém pode sofrer, a morte do filho Samuca em 1984, aos 29 anos, num desastre de automóvel. Dizia que a felicidade “são momentos que a gente costuma só saber que eles aconteceram, quando eles já passaram”.

Começou a emergir do que batizou seu “período de trevas” em 1992, quando publicou seu primeiro livro, “Na sala com Danuza”, um guia de etiqueta escrito por uma mulher “totalmente sem modos,” como costumava brincar. Recheadas de ironias, suas dicas se tornaram imediatamente best-seller e renderam convites para palestras em todo o Brasil e a escrever crônicas para a revista “Contigo!” e para o “Jornal do Brasil”. O sucesso no jornal foi tamanho, que, quando Zózimo Barrozo do Amaral deixou a publicação para trasladar sua badalada coluna para O GLOBO, Danuza ocupou seu lugar. E lá estava ela, de volta às festas, aos eventos, aos bastidores da política, e pisando pela primeira vez numa redação não como primeira-dama, mas como protagonista. “Fui casada com três jornalistas (o outro foi Renato Machado); finalmente entendi a pressão de um deadline e o absurdo de esperar um marido repórter para jantar em casa”. Graças a uma campanha empunhada por sua coluna, conseguiu mudar o nome do Aeroporto Galeão para Antônio Carlos Jobim.

Uma personalidade complexa, Danuza. Sua pluma era cortante, ácida, da época em que ainda se sabiam ler ironias nas entrelinhas. Ao mesmo tempo que debochava dos casais apaixonados, exaltava-os; desmanchava-se pelo Rio, mas não perdoava suas vicissitudes; destrinchava a sangue frio as relações familiares e questionava as placitudes da maternidade antes que isso virasse moda (ela exigia que os filhos, netos e bisnetos a chamassem sempre pelo primeiro nome).

As crônicas dançavam entre uma lucidez crua e alucinações mirabolantes, entre o elitismo das altas rodas que frequentou desde mocinha, as críticas à peruice e a valorização das coisas simples da vida, tema, aliás, de seu último livro, “É tudo tão simples”. Nele, defendeu o desapego como ferramenta de liberdade e contou como reduziu seu impressionante closet a alguns jeans, camisetas e suéteres. “Eu estava gastando o que eu não tinha, para comprar coisas que eu não precisava, para mostrar a pessoas que eu não conheço”, justificou. Aplicou a máxima ao círculo social; só tolerava mesas de, no máximo, quatro pessoas, manteve-se firme no propósito de evitar efemérides oficiais como aniversários e Natais, e, até bem recentemente, viajava sozinha, octogenária, para sua Paris adorada, sempre se hospedando em seu pequeno hotel, o Welcome, na Rive Gauche.

Corri para lá, na manhã da última quinta-feira, dia seguinte em que ela nos deixou, e depois ergui um copo em sua homenagem, na sua mesa favorita do seu restaurante preferido, o Café de Flore. Foi quase como na última e inesquecível vez em que nos vimos – só que sem a musa para quem fui buscar aquela manga, a qual imagino que tenha devorado, como fez com a vida. Com todas as vidas, aliás.

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