Bruno Astuto: Turistando

·3 min de leitura

Outro dia, fui estrear como turistanuma nova cidade, e a primeira coisaque meus anfitriões fizeram foi melevar para a cobertura de um prédiobem alto, o famoso rooftop, paracontemplar a paisagem. Fiz caraalegre, noblesse oblige, mas a minhavontade era simular um mal súbitoou atear fogo às vestes; não por medo de altura (que eu nãotenho), mas por uma vontade louca de ir para o asfalto e vergente, sentir o cheiro das ruas e das comidas, ouvir os barulhose os sotaques da língua desconhecida. Será que enlouquecidepois de um ano e meio de distanciamento social?

Pensando bem, nunca fui muito chegado a paisagens,embora saiba apreciar seu valor, a natureza etc. Numa rodarecente de amigas, uma perguntou à outra se ela não morriade saudades dos tempos em que morava de frente para omar, e a resposta deixou a sala muda. “Eu detestava obarulho das ondas, não tinha como desligar aquele silêncio”.Quebrei o gelo com mais espanto ainda, dizendo queeu a entendia completamente — embora nunca tivessemorado de frente para a praia.

Quando me mudei do Rio, toda vez que voltava, pediaao motorista que passasse pela orla, para apreciar a praia.Mas a verdade é que ela nunca me completava, nunca supriaminhas saudades. Daí tive a grande sacada de pedir que elefosse “por dentro”: tipo Barata Ribeiro, São Clemente,Humaitá, Nossa Senhora de Copacabana, manja? E foramesses caminhos que me fizeram feliz, com vista para a minhagente, pelos pequenos comércios, botecos e pelas fachadasdos prédios dos meus amigos e entes queridos. Lembro umavez, visitando um palácio de mármore com Regina Casé noMarrocos, em que ela se virou para mim e disse: “Lindo, masagora vamos para o furdunço, porque é disso que a gentegosta”, no que estava certíssima. Descobrique, por mais que viaje o mundo todo,detesto ser turista. E a infelicidadesuprema talvez seja sentir-se turistano lugar em que você nasceu e cresceu.

Essa lógica meio que se aplica à vida. Hesito entre invejare lamentar aquelas pessoas que viram completamentea página; sou, ao contrário, um camelo dos meus afetos.É normal, e até saudável, mudar de grupos, de assuntos,de interesses.

Mas existe colo mais certeiro do que o daquela amigaque conhece você desde o tempo do onça, que soprou seusmachucados nas horas mais tenebrosas, e que, mesmo quevocê faça 300 plásticas, vai reconhecer você na rua só pelamaneira de andar? Só ela terá o lugar de fala perfeito, paradizer: “Depois de tudo que você passou, isso é fichinha”.E a glória é, depois de tantos anos longe, ela não lhe fazernenhuma pergunta, nenhuma cobrança, só abrir os braços.Medo de que ela não entenda seus problemas depois detantos momentos e experiências em caminhos tãodiferentes? Bem, amizade verdadeira é igual a andar debicicleta, mas é preciso dar uma calibrada nos pneus de vezem quando, para um dia não se ver a pé. É um perigo, e deuma solidão extrema, viver só de paisagem.

A vida está corrida, o trabalho, insano, mas um alô nãomata ninguém. Nem que seja para escrever um zap com umabobagem do tipo “passei nessa loja e achei essa blusa a suacara” ou um simples e acolhedor “saudades”. Neste domingo,eu e você vamos combinar o seguinte: dar uma pausa namaratona da série, deixar que todo mundo se vire para oalmoço e dedicar uma meia horinha para telefonar para umapessoa muito, muito querida do passado — raiz mesmo —,para quem, até por vergonha de andar tão sumida, você nãotem ligado. Me conta depois.

Se ela estiver na mesma vibração, pode apostar que vãose divertir muito; se parecer que está falando um idiomacompletamente diferente, aprenda as belezas de percorreroutra realidade.Que, talvez, poderia ter sido a sua.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos