Bruno e Dom, duas forças que se uniram para defender indígenas

Bruno e Dom se encontraram na paixão pela Amazônia. Há mais de 15 anos correspondente no Brasil, o inglês Dom Phillips foi cada vez mais enveredando pelo tema meio ambiente e se encantou pela floresta, que sonhava salvar e transcrever as maravilhas em livro. Bruno Araújo Pereira, servidor concursado da Funai, que se embrenhou de corpo e alma pelo Vale do Javari, onde coordenou o combate a invasores da terra indígena, era seu duplo. No fervilhante caldeirão ambiental do Brasil, eles combinavam em tudo e logo se tornaram parceiros de toda hora.

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Os dois trabalharam juntos em reportagens publicadas nos principais jornais do mundo. Ambos de certa forma eram contadores de história. Embora evitasse aparecer, Bruno era extremamente acessível a quem queria se juntar à causa indígena e compartilhava informações. Foi assim com Phillips, que chegou ao Javari graças a uma bolsa da Alicia Patterson Foundation, selecionado entre nove jornalistas. Ele escreveria o “Como salvar a Amazônia?”, e não havia ninguém melhor do que Bruno para lhe abrir as franjas da floresta. Ao lado do indigenista, ele pôde adentrar o verde fechado da mata com a bênção dos indígenas. Para os povos da floresta, Bruno era como a mãe arara da canção do ritual da ayahuasca dos Kanamari, que ele aparece cantando num vídeo que viralizou nas redes sociais. Um protetor que, na percepção dele, ganhava ares de um santo branco, alto e barbudo.

— Ele era nosso protetor, a mãe arara que dá comida no bico para os filhotes. Estamos sem rumo — diz Aldair Kanamary, presidente do Conselho Distrital de Saúde dos Kanamari, que ensinou Bruno a entoar a música sagrada que ele levava para outras aldeias e cantava em longas e cansativas expedições como forma de acalmar a si mesmo e aos indígenas.

Almas combativas e livres

Phillips viu que Bruno tinha um elo com os indígenas diferente do olhar convencional do homem branco para a aldeia. Era isso que ele buscava. Bruno, por sua vez, queria caixa de ressonância para as denúncias sobre ataque de garimpeiros, de pescadores, madeireiros e narcotraficantes em seu paraíso.

Ambos, Bruno, de 41 anos, e Phillips, de 57, dividiam a atenção da família com o projeto de defender o território do Vale do Javari, com suas 26 etnias, mais de seis mil indígenas e de oito milhões de hectares. Phillips, que chegou ao país em 2007, fazia viagens eventuais em que deixava a mulher, Alessandra Sampaio, em Salvador, onde moravam. Bruno fazia o mesmo para, de tempos em tempos, passar dias com tribos da região, distante da casa em Brasília, da mulher Beatriz e dos dois filhos, de 2 e 3 anos. Antes de se estabelecer na Bahia, Phillips tinha morado no Rio e em São Paulo. Enquanto devorava tudo que podia sobre a floresta, o jornalista colaborava para os jornais“The Washington Post”, “The New York Times” e “Financial Times”. Já Bruno, a partir dos anos 2000, aprendeu a se comunicar em quatro línguas de etnias do Javari e realizou ao menos dez expedições com os indígenas.

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Os dois se conheceram em 2018, quando estiveram juntos numa expedição. A convite da Associação União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), Dom Phillips embarcou na viagem de 17 dias para fazer contato com os Korubo. Desde então, ele e Bruno selaram uma parceria profícua. O desaparecimento do jornalista, considerado doce e socialmente engajado — ele se dedicava a projetos junto a crianças carentes em Salvador —, desencadeou grande comoção. Assim que a notícia veio à tona, o amigo Tom Phillips, correspondente no Brasil do “The Guardian”, pediu que os brasileiros se mobilizassem pela localização do colega. “Ele ama o Brasil e a Amazônia e tenho certeza que está grato pelo apoio”, postou em seu perfil no Twitter.

Bruno Pereira era considerado pela União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) como a maior autoridade do país no trabalho em campo especializado em povos isolados. “Não visualizamos a realização da mesma atividade por qualquer outro indigenista na atualidade", disse a ONG, em nota, ao responder às declarações do presidente da Funai, Marcelo Xavier, de que o servidor da Funai, que estava licenciado, tinha feito uma visita não autorizada e planejada ao Javari. Bruno esteve anos à frente da Coordenação-Geral de Indígenas Isolados e de Recente Contato (CGIIRC), função que exigia extremo cuidado e capacidade técnica. Ele foi um dos poucos servidores do órgão a ter contato com esses indígenas.

Combate ao garimpo

Após uma operação de combate ao garimpo na terra Ianomâmi, em Roraima, ele foi exonerado pelo então secretário-executivo do Ministério da Justiça e Segurança Pública, Luiz Pontel. A Operação Korubo, liderada por ele, foi a maior realizada no país em 2019 no combate à extração ilegal de minério. Na ocasião, 60 balsas de garimpo foram destruídas. Xavier, atual presidente do órgão, tinha chegado há pouco tempo na Funai. Para colegas de trabalho, ele foi derrubado por interesses políticos e econômicos na região.

— O Bruno ainda conseguiu passar um certo tempo (no cargo), mas saiu quando coordenou uma operação de desintrusão na TI Yanomami. No retorno, foi quase que imediatamente exonerado, perdeu a função. Poucos meses depois, ele se viu completamente escanteado, não tendo mais nenhuma participação nos trabalhos. Ele foi isolado — diz o indigenista Antenor Vaz, que atuou por 23 anos na Funai com povos isolados.

Desde então, ao lado da Univaja, Bruno treinou os indígenas para que eles próprios tivessem condições de fiscalizar suas terra, ensinando técnicas de geolocalização e de documentação de irregularidades inclusive com drones.

Indigenista e professor da Universidade Federal do Amazonas, Sanderson Oliveira acredita que Bruno deu uma contribuição inigualável para a atividade no país ao mudar a forma de atuação, buscando uma proximidade real com os indígenas, com sua cultura, mitologias e práticas religiosas:

— Penso que o Bruno faz parte de um grupo (indigenistas) que chega em Atalaia (do Norte, no Amazonas) com uma outra perspectiva. Havia muito indigenismo marcado pelos conflitos de demarcação de terras, mas o Bruno e outros colegas passaram a ter a percepção de que indigenismo é também estar na aldeia. O Bruno faz parte desse novo movimento, ele vai para lá, aprende as músicas, vira ayahuasqueiro.

Sua última cena em defesa dos indígenas aconteceu este ano, quando fez novas denúncias de invasões e deu nomes de quem estaria por trás dos crimes.

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