Bruno e Dom não foram as primeiras nem serão as últimas vítimas da nossa barbárie

Demonstrators hold placards and roses as they protest following the disappearance, in the Amazon, of journalist Dom Phillips and campaigner Bruno Araujo Pereira, outside the Brazilian Embassy in London, Britain, June 9, 2022. REUTERS/Toby Melville
Manifestantes levantam placa em homenagem a Dom Phillips e Bruno Pereira em frente à embaixada brasileira em Londres. Foto: Toby Melville/Reuters

Em um relatório da ONG Global Witness, publicado em setembro de 2021, o Brasil aparecia como o quarto país mais perigoso para a atuação de ambientalistas no mundo. Um ano antes, a organização havia computado 20 ativistas assassinatos. Nesse vergonhoso ranking o país que concentra a maior porção territorial da Amazônia ficava atrás apenas de Colômbia, México e Filipinas.

Outro documento, este elaborado pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI), apontava 182 assassinatos em terras indígenas no mesmo ano –crescimento de 61% em relação a 2019. Conflitos territoriais levaram à morte de 96 pessoas no período.

Os dados, segundo o Greenpeace, levam a uma mesma conclusão: nunca os povos indígenas no Brasil foram tão atacados como agora.

Esses ataques frequentes eram denunciados por Bruno Pereira, indigenista afastado da Funai (Fundação Nacional do Índio) que acompanhava o correspondente britânico Dom Phillips em uma apuração sobre o avanço de atividades ilegais na Amazônia.

Por conta disso, foram mortos, esquartejados e incinerados. Os executores confessaram o crime após mais de uma semana de buscas pelo Vale do Javari. Naquela região a pesca ilegal, a extração de madeira, o garimpo e o narcotráfico se alastraram de tal maneira que se tornaram, segundo o Greenpeace, na “força-motriz da economia local”.

Para a entidade, o contexto de insegurança e violência extrema observada naquela região é um reflexo da ausência de atuação competente e efetiva do governo brasileiro em toda a Amazônia.

Bruno Pereira era responsável pelo departamento de índios isolados da Funai até ser "punido" por coordenar uma ação que em 2019 destruiu 60 balsas utilizadas por garimpeiros ilegais no Amazonas. Ele foi exonerado 15 dias depois.

A morte da dupla escancara uma situação descrita por Danicley de Aguiar, porta-voz de Amazônia do Greenpeace Brasil, como um entrelaçamento das redes de narcotráfico na Amazônia com o crime ambiental. O desafio agora é superar essa economia que, como ele mesmo diz, “consome a floresta e viola direitos humanos”.

Essa economia baseada na predação está no centro dos dados divulgados na semana passada pelo Inpe (Instituto de Pesquisas Espaciais), por meio do sistema Deter, do (Inpe), que apontam acréscimo de 13% dos alertas de desmatamento na Amazônia entre janeiro e maio deste ano. O número representa 900 km² –área de desmatamento 13% maior do que a registrada no mesmo período do ano passado.

Para o Greenpeace, essa situação decorre do afrouxamento de normas, da retaliação a servidores de agências ambientais, da paralisação dos processos de multas e do estrangulamento orçamentário –que, por sua vez, culminam na invasão e grilagem de terras indígenas, na proliferação dos garimpos e da extração ilegal de madeira.

É o caldo perfeito para a explosão da violência na região. Onde há fumaça tem fogo. Onde tem fogo tem sangue.

Bruno e Dom não são vítimas do descuido, como quer afirmar Jair Bolsonaro. São vítimas de um projeto bem executado de silenciamento de ativistas, lideranças sociais e jornalistas.

Esse silenciamento é parte fundamental do retrocesso institucional representado pelo governo que empoderou, quando não nomeou, alguns dos principais inimigos do meio ambiente para tomar conta de uma das áreas mais complexas e sensíveis do Planeta.

Do episódio nada deveria chocar mais do que saber que Bruno e Dom não são as primeiras vítimas dessa engrenagem. Nem serão as últimas.

Desaparecimento de Dom e Bruno: tudo o que você precisa saber

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