Bruno Gagliasso fala da estreia de 'Marighella' na Globo, de posicionamento político e de caso de racismo contra os filhos

Bruno Gagliasso recorre às cenas de vandalismo em Brasília, ocorridas na semana passada, ao analisar o perfil de seu personagem em "Marighella", o policial torturador Lúcio, que alude a Sérgio Fleury, delegado do Dops durante a ditadura militar. O filme, com Seu Jorge no papel do protagonista, vai ser exibido na Globo em formato de minissérie, com cenas inéditas, a partir desta segunda (16):

— Lúcio é a escória da Humanidade. Tenho certeza de que, se estivesse vivo, faria parte do ex-governo ou estaria invadindo lá em Brasília. É um racista e fascista. Sem sombra de dúvida, o personagem mais forte, visceral e doloroso que já fiz.

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Após o episódio de terrorismo, logo surgiram nas redes bolsonaristas comparações entre as ações dos golpistas e as do guerrilheiro Carlos Marighella. Considerado "inimigo número 1" do regime militar, ele foi um dos principais líderes da luta armada contra a repressão. Acabou morto a tiros em 1969, por agentes comandados por Fleury. O ator comenta:

— É tão absurdo. Marighella viveu em outra época, era ditadura. É incomparável. São dois momentos históricos distintos, mas que por muito pouco poderiam ser próximos. A minissérie indo ao ar agora vai ser importante para essas pessoas terem um pouco de ideia do que elas estavam pedindo e do que até hoje reivindicam (referindo-se à intervenção militar). Ela vem numa hora muito boa. É um retrato da nossa História que durante muitos anos quiseram apagar. Mas a arte está aí para isso, ela sobrevive. É um filme histórico, político e necessário, principalmente depois do que vimos nos últimos dias. É importante que todos assistam. Mas ele só dialoga com todo mundo que quer dialogar. A partir do momento que você é cego ou não quer escutar, não adianta assistir.

Gagliasso frequentemente reafirma suas opiniões políticas na internet. Recebe apoio e ataques. Ele diz não se importar diante de repercussões negativas:

— Se isso me atingisse, eu não teria um posicionamento tão claro. Sempre tive, mesmo antes de esse antigo governo assumir. Eu me preocupo com coisa séria. Com gente invadindo (Brasília), com pessoas que defendem torturadores e que falam que vão invadir o set para dar tiro, como teve durante a filmagem.

E se engana quem pensa que o número de postagens vai diminuir com a mudança de presidente:

— Pelo contrário. Agora que não somos mais oposição, temos que ajudar, cobrar, estudar cada vez mais e fazer com que as pessoas que não entendem tanto passem a estudar. Não existe isso de "agora vou falar menos por não ser oposição". Eu tenho que ajudar, fazer arte. Porque fazer arte é fazer política. As pessoas acham que fazer política é ser político e trabalhar no governo, mas não. Você pegar um plástico do chão na rua é fazer política. Assistir a um filme como "Marighella" é política.

Durante as eleições, vieram à tona novamente as divergências entre Bruno e seu irmão, Thiago Gagliasso, deputado estadual eleito pelo PL, partido do ex-presidente. A mãe deles, Lucia, apoiou a candidatura do filho nas redes. Questionado sobre ter conflitos relacionados a política também com ela, o ator desconversa.

— Você tem que ligar pra ela. Tô fora (risos). Eu sei o meu (posicionamento) — afirma ele, garantindo que os dois convivem bem e evitando comentar sobre como a questão familiar o atinge. — Vamos falar de "Marighella", "Operação maré negra", "Santo"... Você não quer que eu tenha o próximo Natal (risos).

Gagliasso se refere a trabalhos recentes. "Operação maré negra", do Prime Video, ganhará uma nova temporada em fevereiro. Na produção, feita na Espanha e em Portugal, o ator interpreta um narcotraficante. Já "Santo", produção da Netflix gravada na Espanha e no Brasil, não ganhará uma continuação por ora ("É uma minissérie, não foi feita para ter segunda temporada, mas tudo é possível"). Ele também fez "Candelária", da Netflix, sobre a Chacina da Candelária, ainda inédita. E agora se prepara para sair novamente do país para gravar mais uma série para o streaming. Novamente, na língua espanhola.

— Não falo absolutamente nada em inglês. Sou péssimo, horrível. Minha parada é o espanhol. A não ser que tenha um personagem que realmente faça minha cabeça, não é uma meta (estudar para construir uma carreira nos EUA). Não tenho sonho de ir para Hollywood — afirma ele, que também não se vê fazendo novelas. — Novela fez parte da minha vida durante muito tempo, mas hoje não conseguiria me dedicar dez meses a um trabalho só. Acho muito difícil por agora. E também, quando se tem três filhos, fica difícil a coisa (risos).

Casado com a atriz e apresentadora Giovanna Ewbank, Gagliasso é pai de Zyan, de 2 anos, Bless, de 8, e Titi, de 9. No ano passado, os mais velhos foram vítimas de racismo em Portugal, onde a família passava férias. O caso foi parar na Justiça de lá. Um audiência já aconteceu. Uma segunda está marcada para fevereiro:

— Estaremos lá, firmes e fortes. A expectativa é, como para todo ser humano que tem empatia, de justiça, de que todo preconceituoso seja punido perante a lei. A gente está fazendo o que tem que ser feito.

Os acontecimentos em torno da família costumam atrair muito a atenção do público. Giovanna frequentemente faz várias revelações sobre sua vida no podcast "Quem pode, pod", que apresenta com Fernanda Paes Leme. Gagliasso afirma que não fica envergonhado com intimidades expostas. Recentemente, viralizou a declaração que ela deu dizendo ser demissexual, ou seja, alguém que só consegue ter relações sexuais com quem se envolve afetivamente:

— Não tenho vergonha nenhuma da família que tenho, de quem eu sou. Achei divertido (quando ela fez a declaração), achei engraçado pra cacete. Nem eu sabia. Soube pelo programa que ela era demissexual. Ri horrores. Liguei pra ela: "Quer dizer que você é demissexual?". Lá é um lugar de muitas revelações. Todo mundo faz. Elas se colocam nesse lugar, então, os convidados ficam à vontade para fazer também.