Bruno Rocha, o Hugo Gloss, relembra passado difícil em família: 'Meu pai disse que ia deixar a gente sem nada'

Há 15 anos, quando tudo ainda “era mato” nos campos pouco explorados — e minados — das redes sociais, uma figura peculiar começava a se destacar no novo aplicativo da moda, o Twitter, com suas tiradas engraçadas e ácidas. Por trás do perfil Cristian Pior, personagem do ator Evandro Santo que se popularizou no programa “Pânico na TV”, estava o jornalista brasiliense Bruno Rocha, de 37 anos. Curioso e bastante observador, como costuma se definir, ele encontrou na internet um lugar seguro e livre, onde queria apenas brincar com os amigos das faculdades de Letras e Jornalismo. Só não imaginava que, tempos depois, sua vida viraria de cabeça para baixo. “Gostava de imitar o Evandro, conversamos e consegui autorização para usar o nome criado por ele na rede social. Mas a coisa cresceu muito, confundiam a gente e decidi mudar. Me tornei Hugo Gloss”, conta Bruno.

A brincadeira nada mais era do que um trocadilho com o nome do estilista Hugo Boss. “Não era algo artístico mas, sim, um perfil de Twitter”, explica, em entrevista de uma hora por chamada de vídeo. Além de conquistar muitos fãs, Bruno e seu alterego ganharam o reconhecimento e a amizade de um sem número de famosos. Entre os que adora e mantém um relacionamento mais íntimo estão os casais Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank e Luciano Huck e Angélica, além da cantora Anitta e da atriz Fernanda Paes Leme. “Achava que não, mas hoje sei que sou um pouco dos dois. Entendi isso na análise. Hugo é uma faceta, um lado meu. E nos encontramos no desejo de sempre fazer algo bom, criativo e empático”, afirma.

Apesar do começo um pouco atribulado na internet, que atualmente garante ao jornalista e influenciador mais de 30 milhões de seguidores entre Twitter, Instagram e Facebook, o jeito esperto, descolado para imitações e interessado por TV e literatura já dava indícios do caminho pelo qual Bruno seguiria profissionalmente. “Sabia que ele ia fazer alguma coisa grande, porque sempre foi muito diferente, observador. Com 9 anos, só queria ler o que não era próprio para a sua idade, como Nelson Rodrigues. Apesar de ser muito quieto, de repente vinha com alguma tirada engraçada, o que aliviava os momentos de tensão”, lembra a mãe do jornalista, a professora aposentada Nailda Rocha, de 65 anos.

Os momentos aos quais Nailda se refere, na verdade, eram episódios de violência doméstica. Bruno conta que o pai, o funcionário público José Santos, falecido em 2007, era um homem muito agressivo e ele e os irmãos, Fábio, de 45 anos, e Fernanda, de 39, viviam sob um clima de medo constante. “Aos 5 anos, lembro de ter visto meu pai apontar uma arma para a cabeça da minha mãe. Ele tinha problemas com álcool”, relata. Anos mais tarde, após a separação dos pais, ele e a família, que viviam em uma casa confortável, foram morar em uma quitinete. “Meu pai disse que ia deixar a gente sem nada, morando na rua. Éramos de uma realidade classe média e, de repente, todo mundo dormia no chão”, conta.

Outro agravante para a já complicada situação familiar era a sexualidade de Fábio, que, assim como Bruno, é gay. “Ele sofreu muitas represálias e foi colocado para fora de casa. Como eu sou mais novo, ele foi o alvo ao se assumir. Depois da morte do meu pai, quis ir embora de Brasília e viver um realidade diferente”, fala.

Bruno, então, tratou de construir uma nova vida. Com parte da herança recebida do pai e um pouco de dinheiro que havia guardado, mudou-se no final de 2007 para Barcelona, onde fez pós-graduação em Relações Públicas. “Morava com mais cinco pessoas, tinha uma vida simples de estudante”, explica. Em paralelo, seu conteúdo no Twitter bombava. Foi convidado, inclusive, pelo diretor Boninho para participar do “Big Brother Brasil”, mas não levou a ideia adiante. “Fiquei apavorado. Não queria esse tipo de exposição”, conta.

Dois anos depois, já de volta ao Brasil, não conseguiu fugir ao que o destino lhe preparava: conquistou seu primeiro emprego na TV. Só que por trás das câmeras, como redator do programa “Caldeirão do Huck”, onde trabalhou entre 2010 e 2015. “Bruno é dono de um texto apurado, sempre teve muita habilidade para aprender e bom senso para construir suas críticas. Essa sinergia vem desde a nossa primeira conversa”, diz Luciano Huck. Antes de instalar-se definitivamente no Rio, ele contou, mais uma vez, com a ajuda dos amigos famosos. “Nos conhecemos em um bar em São Paulo. Na época, ele dormiu alguns dias na minha casa. Sei que apesar de hoje estarmos fisicamente distantes, é alguém com quem posso contar”, diz Fernanda Paes Leme.

Já confiante e disposto a alçar voos maiores, Bruno criou o site que leva seu nome pouco antes de deixar o programa e, atualmente, acumula mais de um milhão de acessos por dia. Com foco em entretenimento e famosos, o jornalista produz também entrevistas com astros nacionais e internacionais, como Meryl Streep, Leonardo DiCaprio e Lady Gaga. Não há, porém, espaço para fofoca. “Não é meu segmento. Por ser amigo dos famosos, às vezes sei antes o que acontece. Mas não me interessa dar uma separação antes de a pessoa anunciar. São meus princípios éticos.”

Um dos exemplos dessa relação de confiança com os artistas foi o convite para o casamento de Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank, em 2010. “Uma amiga nossa disse que seria um sonho para ele estar lá. Tive medo de ele postar imagens do interior da festa, mas decidimos dar um voto de confiança, e deu tudo certo. Bruno nos conquistou e criamos uma relação de amizade. Ele é uma pessoa muito honesta”, atesta a atriz.

Mesmo sem perseguir o sucesso, ele veio, inevitavelmente. E com o tal bônus da fama, precisou aprender a lidar com o ônus. “Quando as pessoas descobriram quem estava por trás do Hugo Gloss, falavam que eu era feio e deveria emagrecer”, relembra. Com 1,89m, perdeu 40 quilos em dez anos, entre altos e baixos. “Nunca odiei o que via no espelho, mas o preconceito é forte com quem é gordo. Me reduziam a isso.” Pela primeira vez, Bruno posa para fotos sem o indefectível chapéu, uma das marcas de Gloss. “Mas também não quero ser refém do acessório. Já me ofereceram fazer implante capilar e nunca tive coragem. Não é um problema ser careca, tenho outros atributos”, alega.

Caseiro e discreto sobre a vida amorosa, Bruno revela ter sonhos tradicionais. Foi casado por cinco anos com um rapaz, que não é do meio artístico, e pretende, num futuro não tão distante, ter uma “casinha branca com grama verde” e filhos. A paternidade, garante, é o seu “chamado”. “Nasci com isso e acho que todos têm direito de constituir família. Quero ser um pai melhor do que o meu, e que meus filhos tenham consciência de que nascerão num lugar com privilégios e sem muitos mimos”, explica. Consequência de sempre ter mantido os pés fincados no chão e a vida pessoal longe dos olhos dos seguidores. “Tenho dificuldade em assumir essa coisa de celebridade. Beyoncé é uma artista, não eu. Então, sei da minha realidade, do que quero e posso ser.”