Bruxelas acusa a Rússia de usar os cereais como arma de guerra

Bruxelas acusa a Rússia de usar os cereais como arma de guerra

A guerra na Ucrânia atingiu os três meses esta semana.

Três meses de indizível sofrimento, tragédia e tristeza para a população civil.

Em termos militares, a ofensiva russa parou rapidamente, e muitos peritos ocidentais interrogaram-se sobre os muitos erros de cálculo - estratégicos, táticos, e logísticos - do alto comando russo.

No entanto, Moscovo está preparada para que a guerra se arraste, como refere o ministro da Defesa da Rússia, Sergey Shoigu: "Apesar da pesada assistência do Ocidente ao regime de Kiev e da pressão das sanções, iremos prosseguir com a operação militar especial até que todos os objetivos sejam alcançados".

Uma das consequências involuntárias da invasão russa pode, de facto, agora, ser deliberada, segundo a Comissão Europeia.

Bruxelas acusa Moscovo de utilizar como arma de guerra não só o fornecimento de energia, mas também o fornecimento de alimentos.

Em Davos, a presidente da Comissão Europeia disse que a Rússia está agora a açambarcar as suas próprias exportações de alimentos como uma forma de chantagem, retendo os fornecimentos para aumentar os preços globais ou comercializando trigo em troca de apoio político. Tendo dito também que na Ucrânia, as tropas russas estão a destruir as infraestruturas alimentares de propósito.

Ursula von der Leyen afirmou: "Na Ucrânia ocupada pela Rússia, o exército do Kremlin está a confiscar stocks de cereais e maquinaria. (...) Hoje, a artilharia russa está a bombardear armazéns de cereais na Ucrânia deliberadamente e os navios de guerra russos no Mar Negro estão a bloquear navios ucranianos cheios de trigo e sementes de girassol. As consequências destes atos vergonhosos estão à vista de todos".

O resultado é que países que dependem da Ucrânia para até 50% do seu abastecimento de cereais são imediatamente afetados, especialmente países africanos e árabes.

Neste momento, não há motivo para pânico, mas a situação pode piorar bastante.

Falámos com Maximo Torero, economista-chefe da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura.

Euronews: Ouvimos recentemente muitos avisos sobre uma possível crise alimentar global, espoletada pela guerra na Ucrânia. Quão grave é a situação?

Maximo Torero: A situação neste momento é muito grave. Ainda não lhe chamo uma crise alimentar, e vou explicar porquê. Essencialmente, o problema que enfrentamos este ano é um problema das exportações provenientes da Ucrânia e da Federação Russa de trigo, milho e girassol. Hoje, as exportações pendentes que temos de trigo são de cerca de 3 milhões de toneladas, e as exportações pendentes de milho são de cerca de 8 milhões de toneladas. Isto é o que falta. A maior preocupação para nós, onde acreditamos que poderá tornar-se uma crise alimentar, é no próximo ano. Isto está ligado aos fertilizantes e ao facto de a Federação Russa ser o primeiro exportador de fertilizantes do mundo. E isso está a criar um constrangimento que poderá abrandar também as grandes produções no mundo.

E: A União Europeia poderá ser capaz de satisfazer a sua própria procura em termos da maioria das culturas, mas o que se receia são os efeitos em regiões mais pobres como a África e o Médio Oriente. O que pode a Europa fazer para evitar que este cenário aconteça?

MT: Acreditamos que precisamos de apoiar os países mais vulneráveis e que estão basicamente endividados economicamente devido à Covid-19. Para isso, propomos a Food for Financing Facility, que é basicamente um mecanismo que o FMI, por exemplo, pode implementar, que pode financiar parte do aumento da fatura de importação dos países devido a este enorme aumento de preços. Isso ajudará a estabilizar durante um período de tempo os países e evitará a agitação social. Em segundo lugar, dado que no caso dos fertilizantes o problema é uma questão de abastecimento, porque temos menos exportações da Rússia, estamos a estudar a forma como podemos melhorar a eficiência na utilização de fertilizantes, com novos mapas de solo, para que possamos reduzir o desperdício na utilização de fertilizantes e também encontrar, se tecnologicamente possível, formas de atrasar as fortes aplicações no início, quando se faz a plantação, para períodos posteriores do processo de cultivo das culturas.

E: Por detrás desta crise alimentar está obviamente a Rússia, mas as sanções energéticas ocidentais também podem representar um risco. Quais são as dinâmicas em jogo aqui?

MT: Claramente, o problema é a guerra. E o aumento dos preços da energia começou mesmo antes da guerra, e tem sido exacerbado devido à guerra. Portanto, o que precisamos é de ter cuidado com o efeito que isto pode ter. Se o preço do gás continuar a subir, essencialmente o que vai acontecer é que se estará a desviar o gás da produção de nitrogénio, que é um elemento chave do fertilizante, para outros consumos, porque se terá de deslocar a produção na Europa. E isso irá afetar a produção de fertilizantes. Assim, o Secretário do Tesouro dos EUA já alertou para a necessidade de sermos muito cuidadosos nesta matéria, porque o que não se pretende é criar um problema em termos da produção de fertilizantes também provenientes da Europa. Portanto, mais uma vez, o problema central é a guerra. Precisamos de encontrar formas de o enfrentar e encontrar soluções intermédias, evitando o exacerbar do problema.

A guerra está agora no seu quarto mês, mas os combates, neste momento, só estão em curso no leste do país.

Desde a retirada russa de Kiev, a vida parece ter regressado às ruas da capital com alguns residentes mesmo a passear e a desfrutar do bom tempo.

Os negócios têm estado abertos e as instituições a trabalhar.

No entanto, uma enorme fila de pessoas pôde ser vista esta semana - não numa loja de alimentos ou numa farmácia, mas na estação central dos correios.

Selos e postais ilustrados especiais de guerra foram postos à venda, representando um soldado ucraniano a fazer um gesto com o dedo a um navio de guerra russo, simbolizando assim a resistência ucraniana. Sem dúvida, um dos momentos mais icónicos da guerra.

Cinco milhões destes selos entraram em circulação - um selo de coleção para a posteridade.

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