Bruxelas escolhe mulher para substituir rei em 'feminização' da cidade

ANA ESTELA DE SOUSA PINTO
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BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) - Leopoldo 2º, controvertido rei da Bélgica responsável pela morte de milhões de africanos no final do século 19, está com os dias contados em um túnel de Bruxelas. A partir desta segunda (1º), os moradores da capital belga vão escolher, entre 11 nomes de mulheres, qual substituirá o do chamado "rei destruidor" na via que liga o noroeste ao centro da cidade, sob o parque Elisabeth. A troca de nome faz parte de um projeto de "feminização" de Bruxelas, lançado em março do ano passado pela secretária de Estado para a Igualdade de Oportunidades, Nawal Ben Hamou. Um levantamento feito na ocasião pela secretária de Mobilidade, Helke van den Brandt, mostrou que apenas 6,1% das ruas da capital tinham nomes de mulheres. "Bruxelas construiu sua história com homens e mulheres, e elas também devem encontrar seu lugar simbólico no espaço público", afirmaram as secretárias em comunicado. Já Leopoldo 2º foi o escolhido para perder seu lugar na placa como parte de um movimento de descolonização. Alguns meses depois de lançado o concurso, estátuas do rei foram atacadas durante os protestos do movimento Black Lives Matter, e a cidade montou uma comissão -ainda em curso- para discutir se elas devem ser retiradas de lugares públicos. O concurso de opções para o novo nome do túnel recebeu 13 mil sugestões de homenageadas -a condição era que elas já tivessem morrido e tivessem contribuído para a sociedade. Um comitê selecionou 10 finalistas, numa lista que inclui mulheres conhecidas como a escritora francesa -nascida em Bruxelas- Marguerite Yourcenar (1903-1987) e a cientista polonesa -naturalizada francesa- Marie Curie (1867-1934), primeira mulher a receber o Prêmio Nobel e a única a recebê-lo duas vezes, em duas áreas científicas diferentes. Outros nomes fazem referência mais explícita à luta contra o racismo, como a americana Rosa Parks (1913-2005), que se recusou a ceder seu assento no ônibus para um homem branco nos anos 1950, levando mais tarde a Suprema Corte a decretar a segregação inconstitucional, e Semira Adamou (1978-1998), nigeriana morta por asfixia por cinco policiais belgas durante uma ação para deportá-la à força. O governo de Bruxelas incluiu como 11ª opção na votação final a cantora e atriz belga Annie Cordy (1928-2020), que recebeu o maior número de indicações. A votação vai durar um mês, e o resultado deve coincidir com o fim de reformas no túnel. Mudanças de nomes de logradouros em Bruxelas costumam ser demoradas, porque a legislação exige que os moradores do local não sejam prejudicados pelas mudanças postais, mas esse processo foi facilitado pelo fato de que ninguém mora no túnel. Segundo as secretárias, a intenção é repetir o processo participativo para mudar outros nomes no futuro. Quem são as 11 mulheres na disputa Andrée De Jongh, líder da resistência na Segunda Guerra Mundial Annie Cordy, cantora e atriz Chantal Akerman, cineasta Isala Van Diest, primeira médica belga Marguerite Yourcenar, escritora Marie Curie, cientista Rosa Parks, símbolo do movimento antirracismo americano Semira Adamu, refugiada nigeriana morta por policiais Simone Veil, política Sophie Kanza, primeira ministra-congolesa Wangari Muta Mathaai, primeira africana a receber o Prêmio Nobel da Paz