União Europeia teme que a Itália se torne o seu calcanhar de Aquiles contra a Rússia

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A queda de um governo é um fenômeno tão comum na Itália — desde a Segunda Guerra, eles duram em média 14 meses — que muitas vezes passa despercebida em Bruxelas, onde fica a sede da União Europeia. Mas a renúncia do primeiro-ministro Mario Draghi, posta em marcha por seus próprios aliados da coalizão, ocorre em um momento de enorme tensão geoestratégica com a Rússia. E na capital do bloco receia-se que a Itália, terceira maior economia da zona do euro, se torne um ponto vulnerável na estratégia unificada contra Moscou, ou, no pior dos casos, um cavalo de Troia a serviço do presidente russo, Vladimir Putin .

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A participação na derrubada de Draghi de um integrante do Partido Popular Europeu, o mesmo partido transeuropeu ao qual pertencem o presidente da Comissão Europeia e o presidente do Parlamento Europeu, causou estupor nas fileiras socialistas do Parlamento em Bruxelas.

— É um desastre para a Itália, mas também para a Europa, e tudo isso com a cumplicidade do Partido Popular Europeu [PPE] — acusou o eurodeputado Iratxe García, líder do grupo parlamentar socialista na Eurocâmara.

García culpa o grupo popular, liderado pelo deputado alemão Manfred Weber, por ter incentivado manobras de seu correligionário Silvio Berlusconi para tomar o governo de Draghi. O apoio do partido de Berlusconi, o Força Itália, foi fundamental para que a ofensiva orquestrada pela Liga, de Matteo Salvini, e pelo Movimento Cinco Estrelas (m5S) conseguisse pôr fim ao mandato de Draghi.

— Você vai aplaudir a posição que seu partido assumiu na Itália hoje também? — perguntou o eurodeputado socialista a Weber, referindo-se à atitude favorável em relação a Berlusconi.

A Comissão Europeia, presidida pela popular alemã Ursula von der Leyen, ficou de fora da crise política em Roma.

— A Comissão nunca comenta eventos políticos dos Estados-Membros — disse o porta-voz oficial do órgão, o Executivo da UE. — A presidente von der Leyen enfatizou repetidamente a cooperação estreita e construtiva com o primeiro-ministro Mario Draghi, e deseja continuar essa cooperação com as autoridades italianas em todas as políticas e prioridades da UE.

Bruxelas teve em Draghi — que anunciou no Parlamento que vai renunciar esta quinta — um fiel guardião da ortodoxia política e econômica. E o ex-presidente do Banco Central Europeu tem contado com a confiança de Berlim e Paris, que sempre o viram como referência, principalmente em questões econômicas. Sua presença à frente do governo italiano também ofereceu uma certa garantia sobre a execução do plano de recuperação e sobre as profundas reformas necessárias em troca de € 191,4 bilhões (R$ 1,07 trilhão) em subsídios e empréstimos.

Roma já havia conseguido, sob o mandato de Draghi, a entrega de uma primeira parcela de € 21 bilhões. E no mês passado, ele solicitou a segunda, do mesmo montante. A queda do governo pode deixar no ar o cumprimento das condições incluídas no plano de recuperação. A tarefa pendente é enorme, porque a Itália só cumpriu até agora apenas 10% dos marcos e objetivos acordados com Bruxelas, em comparação com 13% na Espanha (que já obteve a luz verde para o segundo pagamento) ou 22% na França (que está prestes a receber a primeira parcela).

Além da preocupação com a estabilidade econômica da Itália, que previsivelmente teve forte peso nas decisões do Banco Central Europeu desta quinta-feira, na primeira alta de juros desde 2011, há também a preocupação crescente em Bruxelas com os laços estreitos de grande parte da classe política italiana com o Kremlin. Os dois partidos com mais participação na queda de Draghi, a Liga, de Matteo Salvini, e o M5S, têm sido tradicionalmente muito simpáticos às políticas de Vladimir Putin.

Salvini chegou a preparar uma viagem a Moscou em plena guerra, que não pôde ser realizada. E aquele que era líder do M5S e até recentemente ministro das Relações Exteriores, Luigi Di Maio, deixou a formação em junho devido à recusa dos apoiadores do líder Giuseppe Grillo em enviar armas à Ucrânia para se defender da invasão russa.

Fontes diplomáticas europeias vêm apontando há semanas que a Itália também está se tornando a porta de entrada para teorias supostamente acadêmicas e neutras que questionam a posição da UE na guerra na Ucrânia. O argumento repetidamente difundido em certos meios de comunicação italianos encoraja a teoria de que as sanções europeias contra o Kremlin são um dano autoinfligido à economia europeia que não afeta o poder de fogo russo.

Itália é vista em Bruxelas como o mais frágil calcanhar de Aquiles da unidade da UE na resistência contra Putin. Sem usinas nucleares nem carvão, o país transalpino tem uma dependência energética externa de mais de 70%, e os hidrocarbonetos russos cobrem mais de um quinto de seu consumo total de energia. A Itália importa quase 93% do gás natural consumido, um percentual superior ao da Alemanha, e esse combustível responde por 45% do consumo de energia do país.

Bruxelas teme que a opinião pública em países como Itália ou Hungria se volte contra sanções à Rússia se a guerra na Ucrânia se prolongar e Moscou cortar o fornecimento de gás em retaliação às sanções europeias. Por enquanto, a Comissão Europeia propôs um corte voluntário de 15% do consumo de gás em todos os países da UE. Mas Bruxelas não descarta impor esse corte se o racionamento voluntário não der o resultado esperado.

Uma pesquisa recente do think tank Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR) já mostrou em junho que a Itália é o país da UE com menor apoio à Ucrânia. Apenas 56% dos italianos, segundo a pesquisa, consideram a Rússia culpada pela guerra em comparação com 80% da média europeia, e apenas 39% acreditam que Moscou é o principal obstáculo para a paz, enquanto na Europa 64% pensam assim. Na Itália, 28% atribuem o conflito aos Estados Unidos, número que permanece em 9% nos demais países da pesquisa.

Apesar de sua opinião pública, Draghi se colocou na vanguarda das iniciativas para enfrentar o Kremlin e foi o primeiro líder de um grande país, à frente da Alemanha, França ou Espanha, que apoiou inequivocamente o pedido do presidente ucraniano, Volodymyr Zelenski, para que seu país fosse reconhecido como candidato à admissão na União Europeia. A queda de Draghi deixa Bruxelas sem apoio e Kiev sem um aliado valioso.

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