BTS se pronuncia contra racismo em meio a crescimento de crimes de ódio a asiáticos

Louise Queiroga
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O grupo BTS se pronunciou contra o racismo, especialmente a asiáticos, por meio de um comunicado emitido em suas redes sociais na noite desta segunda-feira, dia 29, enquanto crimes de ódio têm aumentado nos EUA. O septeto, formado por RM, Jin, Suga, J-Hope, Jimin, V e Jungkook, relembra situações em que os próprios membros foram alvo de discriminação racial. Recentemente, repercutiu na web, gerando revolta, uma caricatura de uma empresa de cards norte-americana que mostra os sete artistas feridos, como no jogo de "golpear a topeira", enquanto a arma usada para bater neles é um troféu do Grammy. Depois, a Topps pediu desculpas. E, em fevereiro, um locutor alemão também provocou indignação ao descrever os integrantes como “algum vírus de baixa qualidade que, esperançosamente, também haverá uma vacina”. A emissora de rádio também pediu desculpas.

"Relembramos momentos em que enfrentamos discriminação como asiáticos. Suportamos palavrões sem motivo e fomos ridicularizados por nossa aparência. Fomos até questionados por que os asiáticos falavam em inglês. Não podemos traduzir em palavras a dor de nos tornarmos alvo de ódio e violência por tal motivo. Nossas próprias experiências são incongruentes em comparação com os eventos que ocorreram nas últimas semanas. Mas essas experiências foram suficientes para nos fazer sentir impotentes e destruir nossa autoestima. O que está acontecendo agora não pode ser dissociado de nossa identidade como asiáticos. Levou um tempo considerável para discutirmos isso com cuidado e refletimos profundamente sobre como devemos expressar nossa mensagem", afirma o BTS (leia ao final a nota completa).

As duas hashtags usadas pelo BTS em apoio ao movimento de combate à discriminação racial rapidamente tomaram a web. No Twitter Brasil, tanto #StopAsianHateCrimes quanto #StopAAPIHate entraram nos assuntos do momento, com cada uma ultrapassando 600 mil menções.

Na avaliação de Hugo Katsuo, mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (PPGCine-UFF) e descendente de asiáticos, a charge da Topps que retratou o grupo de forma violenta conteve um viés racista.

— Enxergo, sim, um viés de racismo nessa charge, um desrespeito imenso. É bom lembrar, isso não é sobre o BTS, é sobre toda uma comunidade que vem sido atacada em termos de violência mesmo física, não só a partir dos discursos nos EUA. E aí quando (a empresa) representa um grupo de pessoas coreanas sendo agredidas, então de certa forma ela não tem a sensibilidade de pensar que isso é um assunto sério.

Para Katsuo, a xenofobia contra pessoas amarelas já vinha ocorrendo desde antes do coronavírus ou do BTS se popularizar no ocidente. No entanto, pelo contexto atual, o desenho enfatizou ainda mais o racismo, dadas as circunstâncias do crescimento de crimes de ódio nos EUA.

— A gente está num contexto em que pessoas de ascendência asiática nos Estados Unidos estão literalmente apanhando na rua, estão sendo assassinadas, como foi nesse caso recente das mulheres.

Os integrantes do septeto foram retratados com os rostos machucados, com cada membro contido num buraco, da mesma forma como acontece no jogo de estilo "bater na toupeira", sendo que a arma para golpeá-los foi representada como o troféu do Grammy.

— O BTS está tomando um lugar na indústria fonográfica mundial que pertencia majoritariamente por pessoas brancas. Eles tomaram uma proporção que faz com que as pessoas comecem a se incomodar: 'como assim você está num espaço que não foi feito pra você?' — afirmou Katsuo.

O conjunto, que recebeu a primeira nomeação do K-pop, concorreu na categoria de melhor performance pop de duo ou grupo pela música "Dynamite". A vitória foi para Lady Gaga e Ariana Grande, por "Rain on me", conforme anúncio feito no pré-evento, realizado na tarde de domingo.

O que mais desagradou os armys nos Grammy, porém, foi o fato de a premiação ter colocado a apresentação do BTS para o final da cerimônia principal. Muitos fãs alegaram que a escolha por deixá-los perto do encerramento foi desrespeitosa e uma forma de usá-los para segurar a audiência que, com o passar dos anos, tem caído.

— Por mais que possamos explicar o contexto no qual essa charge é criada, não podemos aceitar esse contexto como normal ou apenas inerente — avaliou Daniela Mazur, especialista em estudos coreanos e dramas de TV e doutoranda do Programa de Pós-graduação em comunicação da Universidade Federal Fluminense (PPGCOM/UFF).

— Com a pandemia de COVID-19, os asiáticos-americanos e pessoas amarelas em geral no mundo foram posicionados cruel e injustamente como rosto de um vírus sem rosto. Isso potencializou, especialmente aqui no Ocidente, o racismo e a xenofobia já existentes contra essas comunidades, sociedades, culturas e, no final das contas, pessoas. Então, o BTS acaba sendo afligido por isso também, eles terem sido representados dessa forma na charge não é sem base.

À época, despontaram as hashtags #RacismIsNotComedy (Racismo não é comédia), #StopAsianHate (Pare o ódio a asiáticos) e #AsiansAreHuman (Asiáticos são humanos). Estas três foram levantadas no microblog por armys, como são chamados os fãs do grupo sul-coreano BTS.

Um dos casos que chamaram atenção neste mês ocorreu na Califórnia, no dia 17. A chinesa Xiao Zhen Xie, de 76 anos, foi agredida enquanto esperava para atravessar a rua. O autor foi identificado como Stephen Jenkins, de 39 anos, que já havia agredido outro idoso asiático, de acordo com a polícia. E, um dia antes, seis mulheres de origem asiática foram mortas em centros de massagem na Geórgia.

Confira abaixo, na íntegra, o comunicado do BTS:

"Enviamos nossas mais profundas condolências àqueles que perderam seus entes queridos. Estamos de luto e sentimos raiva.

Relembramos momentos em que enfrentamos discriminação como asiáticos. Suportamos palavrões sem motivo e fomos ridicularizados por nossa aparência. Fomos até questionados por que os asiáticos falavam em inglês.

Não podemos traduzir em palavras a dor de nos tornarmos alvo de ódio e violência por tal motivo. Nossas próprias experiências são incongruentes em comparação com os eventos que ocorreram nas últimas semanas. Mas essas experiências foram suficientes para nos fazer sentir impotentes e destruir nossa auto-estima.

O que está acontecendo agora não pode ser dissociado de nossa identidade como asiáticos. Levou um tempo considerável para discutirmos isso com cuidado e refletimos profundamente sobre como devemos expressar nossa mensagem.

Mas o que nossa voz deve transmitir é claro.

Somos contra a discriminação racial.

Condenamos a violência.

Você, eu e todos nós temos o direito de ser respeitados. Ficaremos juntos".