Bukele anuncia cerco militar a cidades de El Salvador para prender membros de gangues

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, anunciou nesta quarta-feira (23) que vai promover uma espécie de cordão de segurança em diferentes cidades, mobilizando policiais e militares, de forma a cercar e prender membros de gangues.

Essa guerra contra as drogas conduzida pelo líder populista no país, que se dá em meio a uma guinada autoritária, já deteve mais de 58 mil pessoas, acumulando também uma série de acusações de violações de direitos humanos --principalmente prisões arbitrárias e supressão do direito de defesa.

Bukele fez o anúncio na cerimônia de formatura de 14 mil soldados, em um campo vizinho a um quartel na cidade de San Juan Opico, a 35 quilômetros de San Salvador. "O que vamos fazer na prática é cercar grandes cidades e retirar terroristas que estiverem escondidos ali, sem dar a eles a possibilidade de escapar", disse, usando sua definição para suspeitos de ligação com gangues.

Ele não revelou, "por motivos de segurança", o nome dos municípios onde essas operações serão realizadas, mas afirmou que elas se darão "nos próximos dias", sem precisar uma data. Um efetivo de ao menos 200 policiais será destacado para se juntar a 20 mil militares já mobilizados.

De acordo com Bukele, a proposta se baseia no êxito que teria sido observado em ação similar no mês passado em Comasagua, cidade de 12 mil habitantes 30 quilômetros ao sul da capital. Na ocasião, depois de um homicídio, um cerco policial permitiu, segundo a versão do governo, desarticular uma célula da gangue Mara Salvatrucha, conhecida pela sigla MS-13.

A ideia é interceptar criminosos e identificar cúmplices "que os abasteçam de armas, munição, alimentos, celulares e tudo mais o que usam para amedrontar a população", disse o presidente. Sem apresentar dados, ele afirmou que os salvadorenhos aprovam esse tipo de medida e pedem por operações do tipo.

Os cercos serão a quinta fase de um plano de segurança do governo batizado de Controle Territorial, que foi reforçado com um estado de emergência decretado em 27 de março, em resposta a uma escalada de violência que terminou com 87 assassinatos em um fim de semana.

Desde então o regime de exceção, que permite, entre outras coisas, prisões sem mandado judicial, limitações a reuniões e restrições a telecomunicações, vem sendo estendido pelo Congresso unicameral --amplamente dominado por Bukele, bem como o Judiciário. Na última vez, os parlamentares prorrogaram a medida até meados de dezembro.

Antes de março, as estatísticas apontavam 16 mil membros de gangues em penitenciárias, a maioria ligada ao MS-13 e a seus rivais do Barrio 18 e duas facções coligadas, sureños e revolucionários. Desde então, segundo o governo, em mais de 200 dias não houve homicídios atribuídos a esses grupos.

O estado de emergência é questionado por organizações internacionais, que apontam uma série de violações de direitos humanos, dentro e fora das prisões. O governo chegou a ordenar a construção de um presídio para 40 mil membros de gangues em Tecoluca.

Desde o início do estado de exceção, detenções arbitrárias são a denúncia mais frequente de violação a direitos humanos em El Salvador. Das reclamações recebidas pela organização Cristosal, estão presentes em 97,4%; tortura e maus-tratos, em 12,1%. Até junho, a entidade contabilizou 54 mortos sob custódia do Estado em centros penais ou hospitais.

Como mostrou a Folha de S.Paulo, outdoors indicam o número para o qual salvadorenhos devem ligar se quiserem denunciar um pandilheiro, como são chamados esses participantes de grupos criminosos.

Bukele, eleito em 2019 com uma plataforma antissistema e prometendo uma política linha dura contra o crime, já invadiu a Assembleia com militares, destituiu juízes e perseguiu jornalistas. Ainda assim, sua aprovação popular está entre as mais altas da região.

Em maio, o jornal El Faro revelou áudios que mostram negociações entre um membro do governo e criminosos da MS-13 --a onda de violência de março teria ocorrido pelo fim de um pacto. A resposta do governo foi mais repressão.