Bulgária enfrenta complicadas negociações para formação de governo

Vladislav Punchev

Sófia, 27 mar (EFE).- O resultado das eleições que a Bulgária realizou no domingo, as terceiras desde 2013, lançam um difícil cenário de governabilidade, sem maiorias claras, com uma força ultracionacional fundamental para formar Executivo e no meio do debate entre as relações do país com a Rússia e com a União Europeia (UE).

Com praticamente todos os votos apurados, a Comissão Central Eleitoral anunciou nesta segunda-feira que o conservador GERB, do ex-primeiro-ministro Boiko Borisov, ganhou as eleições com 32,66% dos sufrágios, seguido do Partido Socialista (antigos comunistas), com 27,19%.

A terceira força política (9%), e chave para a formação de governo, é Patriotas Unidos, integrada por três formações ultranacionalista, com um forte discurso xenofóbico, partidárias de melhorar as relações com a Rússia e com uma atitude rumo à UE que vai da rejeição total a um moderado eurocetismo.

Esta aliança formou coalizão com o GERB até que Borisov dinamitou o governo com sua renúncia em janeiro e forçou novas eleições.

O quarto partido no Legislativo é, com 8,9% dos votos, o Movimento de Direitos e Liberdades (DPS), da minoria turca, com quem os ultras rejeitam qualquer parceria.

Tanto o GERB como o Partido Socialista, que no passado pactuou com esta força, rejeitam agora incluir o DPS em um Executivo de coalizão.

O quinto partido, com apenas 4%, é uma formação nova, Volya, fundada por Veselin Mareshki, dono de uma cadeias de postos de gasolina e farmácias baratas.

Com esse repartição de cartas, e perante a recusa dos socialistas a uma grande coalizão com o GERB, o rumo mais fácil seria renovar o pacto de Borisov com Patriotas Unidos.

Juntos teriam, segundo a distribuição ainda extra-oficial das cadeiras, uma ajustada maioria com 123 dos 240 deputados do parlamento.

No entanto, Valeri Simeonov, um dos líderes ultras, anunciou já hoje que seu apoio não é certo e não sairá de graça, e inclusive insinuou a opção de pactuar com os socialistas.

"É possível formar um governo (com GERB), mas é possível não formá-lo, é questão de coordenar os programas. Entendo as expectativas da sociedade, mas não se pode dar imediatamente esta resposta", afirmou hoje Simeonov.

Além disso, comunicou que no domingo felicitou por telefone tanto Borisov como Kornelia Ninova, a chefe dos socialistas.

Durante a campanha, os Patriotas Unidos impuseram várias condições para uma eventual entrada no governo, como a alta dos ingressos de classes mais desfavorecidas e o endurecimento das medidas contra a imigração irregular.

"As diferenças entre GERB e os patriotas são essenciais e alcançar algum acordo sobre uma política comum será um assunto muito delicado", declarou à agência Focus o analista político Antoniy Galabov.

As relações com a Rússia e com a UE podem ser um obstáculo para um acordo, dado que o europeísmo de Borisov contrasta com as posturas, antieuropeias, pró-russas e racistas de Ataka, talvez o mais radical entre os integrantes de Patriotas Unidos.

Além das divergências com o GERB, a própria aliança ultra está infestada de contradições e enfrentamentos internos.

Segundo a socióloga Boryana Dimitrova, Patriotas Unidos é um "parceiro imprevisível que pode quebrar em qualquer momento por conflitos internos".

"Por isso é preciso buscar um apoio mais amplo, com um partido a mais. Além disso, uma coalizão só de GERB e de Patriotas será dificilmente aceita na Europa", opinou a analista para a emissora "Nova TV".

Essa terceira opção teria que ser Veselin Mareshki e seu Volya, que forneceria 12 cadeiras, e que já hoje se mostrou disposto a negociar e inclusive não descartou reivindicar o cargo de primeiro-ministro.

Galabov não descarta inclusive que este difícil cenário acabe na realização de novas eleições no próximo outono, algo que teria graves consequências políticas e econômicas para o país mais pobre da União Europeia.

Por enquanto, o começo dos contatos terá que esperar o retorno de Borisov desde Malta, onde participará na quarta-feira e na quinta-feira de reuniões do Partido Popular europeu. EFE