Buracos nas ruas do Rio causam dor de cabeça a motoristas: 'Teria que andar de trator para aguentar', diz taxista

A quantidade de buracos nas ruas do Rio são motivo de preocupação e transtornos a motoristas, passageiros e pedestres na cidade, que sofrem para fazer uma viagem sem que se encontre qualquer desnível no asfalto. A equipe do EXTRA sentiu isso na pele ao percorrer vias nas Zonas Sul, Norte e Oeste, registrando buracos no asfalto, ondulações e tampas de metal pelo caminho.

Mesmo recebendo pavimentação nova, a Avenida Brasil, principal via da cidade, por exemplo, pode ser um teste à paciência dos motoristas, que reclamam de furos no pneu por causa do estado do asfalto. Michel Victor é um deles. Entregador, ele teve, nesta quarta-feira, dois pneus furados. E um trecho que percorreria em 10 minutos, demorou quatro horas para ser atravessado, já que precisou parar no borracheiro duas vezes. Segundo ele, isso aconteceu devido aos "degraus" na via enquanto o recapeamento não termina.

— Já são quase 16h e eu estou desde 12h só tentando percorrer esse trecho, que eu faria em menos de 10 minutos. Trabalho com cesta básica, ia fazer as entregas, mas até desisti — lamentou Michel, que estava com a caminhonete que usa para entregar cestas básicas encostada na pista da Avenida Brasil. — Furei um pneu na altura da Vila Olímpica de Deodoro e outro aqui (na Vila Kennedy). A pista está toda "cortada" (fresada), cheia de buracos e degraus.

Devido à troca do asfalto, os trechos com pista nova intercalam com "degraus" e "desníveis" — que são alertados por meio de placas na extensão da via, especialmente no trecho da Zona Oeste, que concentra as reclamações sobre pneus furados.

Segundo a Secretaria municipal de Infraestrutura (SMI), responsável pelas obras de recuperação e pavimentação da via, no trecho entre Realengo e Santa Cruz, os "reparos profundos" (nome dado a esses desníveis entre uma parte asfaltada e outra) foram programados para janeiro "justamente para causar menos transtorno no trânsito de quem circula na Avenida Brasil, visto que é um período de férias e há menos carros na via".

Ainda de acordo com a pasta, as obras, que tiveram início em fevereiro de 2022, têm previsão de término em fevereiro de 2024. Ao fim de 2022, mais de 40% do trecho já havia sido asfaltado, informa a SMI.

Marcio D'Agosto, professor de Engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ, explica os riscos que esses desníveis podem causar aos veículos:

— O pneu é só a ponta do iceberg, que pode rasgar e sofrer danos. Mas tem todo um sistema mecânico, ligado à roda, ao eixo de transmissão, à suspensão. O carro é projetado para ter resistência, mas não é previsto que ele passe várias vezes por dia numa pista como essas, que ainda pressupõeM uma velocidade alta. O risco que se corre é grave, pode cair num buraco desse e perder o controle, comprometendo até a vida de terceiros.

Na Zona Sul do Rio não é muito diferente. Em Botafogo, os buracos no asfalto são o grande problema. O taxista Renan Teixeira, que faz ponto no bairro, diz que a cidade como um todo apresenta problemas ao motorista.

— Antigamente, a Zona Sul era mais privilegiada. Mas hoje, (o asfalto do) Rio de Janeiro é todo horrível. Se você for nas (ruas) principais, o asfalto que acabou de ser recapeado já tem buraco. Se for nas transversais então, nem se fala — reclama o motorista, que tem uma rotina de prejuízos com a manutenção de seu táxi. — Tenho feito manutenção mais vezes. Teria que andar de trator para aguentar porque não tem carro que dê conta. É amortecedor, bucha de balança, suspensão, pivô e ponteira: dói no bolso, é de R$ 4 mil para cima.

Na Rua Macedo Sobrinho, em frente à Casa de Saúde São José, no Humaitá, também na Zona Sul, a largura do buraco aberto no asfalto chegava, nesta terça-feira, a quase dois metros. O suficiente para causar retenção no trânsito e buzinaço, já que alguns motoristas freavam bruscamente para não danificar seus veículos.

— Andar de carro é desafiador, parece um rally. A tampa de bueiro é uma coisa enigmática, acho até pior que os buracos no asfalto, porque são traiçoeiros — conta o gerente de projetos Marcelo Thaisen, que trabalha em Botafogo e, diariamente, sai de Petrópolis, onde mora, em direção à Zona Sul carioca. — Já furei até pneu na Linha Vermelha, e é sempre uma tensão porque, além da atenção para fugir dos buracos, ainda dá medo de ser assaltado. É um mix de sentimentos. E ainda tem que trabalhar depois.

O professor da UFRJ explica que o asfalto é apenas a camada impermeabilizante, que protege o material resistente que dá certa "sustentação" às vias, em camadas embaixo da pavimentação. No entanto, com o tempo, o material sofre fissuras. A chuva é a cereja do bolo para comprometer o local:

— Se a água começa a entrar, é mortal. Começa a comprometer a base e, quando passa um veículo, o pneu é como uma ventosa: ele gruda na placa e a puxa.

A chegada a Botafogo começa tranquila na Glória, onde o asfalto está novo. No entanto, conforme se avança para as praias do Flamengo e Botafogo, buracos no asfalto e tampas de metal fazem o motorista chacoalhar. Mesma situação do Centro do Rio, onde, em frente ao Batalhão de Choque, o buraco interdita uma faixa da Rua Frei Caneca. Já em São Cristóvão, os rompimentos no asfalto também surgem em ruas residenciais: na Rua Argentina, próxima ao Estádio São Januário, há buracos em sequência.

— Devido às varizes, estou com a perna enfaixada e, entre a estação do metrô e a rua Dona Mariana (uma distância de cerca de 500 metros), eu vou de ônibus. Mesmo sendo perto, eu já caí umas três vezes, tenho medo de acontecer de novo. Para o idoso, buraco na rua é um perigo, até porque também tem esses calombos. Quando você vê, já está em cima — conta Dagmar Gomes, que aguardava um ônibus na rua São Clemente.

Segundo a central de atendimento 1746, ligada à Secretaria municipal de Governo e Integridade Pública (Segovi), entre 31 de julho e esta terça-feira, foram recebidas 23.308 reclamações de buracos, sendo 2.403 (10% do total) só nos dez primeiros dias deste ano.

A prefeitura do Rio, por meio da CET-Rio, oferece um serviço de reboques "caso o buraco ou afundamento tenha provocado dano ao veículo que impeça sua movimentação". Gratuito e 24 horas, o 0800-282-8664, no entanto, só atende quem tiver problemas em vias expressas, conforme a reportagem foi informada ao ligar para o serviço.

Procurada, a Secretaria municipal de Conservação, informou, em nota, que "o programa Asfalto Liso está em andamento desde fevereiro de 2022 e vai revitalizar, até 2024, mais de 450 quilômetros de vias em toda a cidade do Rio de Janeiro. A prioridade é recuperar a pavimentação nos grandes corredores cariocas, que concentram maior fluxo de veículos. Além dos serviços de fresagem e recapeamento, o Asfalto Liso inclui renivelamento de grelhas e tampões e ações como reparo profundo, sempre que necessário".

Ainda de acordo com a secretaria, "das vias citadas pela reportagem, já foram beneficiadas pelo Asfalto Liso a Rua São Clemente, em Botafogo, e a Rua Senador Bernardo Monteiro, conhecida como Rua dos Lustres, em Benfica. A Rua Frei Caneca, no Centro, e a Praia de Botafogo também estão incluídas no programa (...) Em relação à Praia do Flamengo e às Ruas Macedo Sobrinho e Argentina, a Secretaria Municipal de Conservação mandará equipes até os trechos citados na reportagem, a fim de fazer vistoria e tomar as providências cabíveis". No caso de tampões, a secretaria informou que é responsável pelos que são de galerias de águas pluviais e que os demais pertencem a concessionárias de serviços.

A prefeitura do Rio, por meio da CET-Rio oferece um serviço de reboques "caso o buraco ou afundamento tenha provocado dano ao veículo que impeça sua movimentação". Gratuito e 24 horas, o 0800-282-8664, no entanto, só atende quem tiver problemas em vias expressas, conforme a reportagem foi informada ao ligar para o serviço.

As placas, instaladas ao lado da pista ou até em faixas penduradas nas passarelas, chamam a atenção do motorista e do motociclista. "Pista em desnível", "Pista fresada" e "cuidado (com) degrau na pista" indicam que o trecho está passando por reformas.

Borracheiro na altura da Vila Kennedy, Felipe Almeida, no entanto, diz que não há motivos para comemorar, mesmo que tenha visto aumentar seu movimento.

— Não tem como gostar disso porque o que é certo, é certo. O que é errado está errado. E esse asfalto aí não dá — revolta-se.

Mais à frente, já em Campo Grande, o dono de um depósito de bebidas se espremia em um pequeno trecho de acostamento para, embaixo do sol forte, trocar ele próprio o pneu de seu carro, carregado de caixas de cerveja.

— Furou do nada. Já teve dia que vi para mais de 10 carros do Palazzo (motel em Bangu) para cá, todos parados trocando o pneu — contou Victor Teixeira, morador de Campo Grande, que ainda conta que, dentro do bairro, é "uma buraqueira e um descaso total".

Em vídeo compartilhado através das redes sociais, um motorista se revolta com a quantidade de carros parados no acostamento da Avenida Brasil.

"Olha a fila de carros com pneu furado na Avenida Brasil, altura de Bangu, por causa desse recapeamento mal feito da prefeitura na pista. Conta aí quantos carros com pneus furados", dizia o motorista, que filmou ao menos 19 veículos com pisca-alertas ligados no canto da pista sentido Santa Cruz. As imagens foram compartilhadas nesta terça-feira pela página alerta.rio, no Instagram.

O número de borracheiros às margens da Avenida Brasil é grande, especialmente onde há buraco. Na altura do número 33.335, é possível contar até cinco borracheiros em sequência, em um trecho de 100 metros, com pneus na beira da pista anunciando o estabelecimento, em contraste com as pistas remendadas.

— Eu sou borracheiro de caminhão e, mesmo assim, o movimento de carros com o pneu furado é grande. E não é só pneu: é suspensão quebrada, roda amassada, pneu rasgado. Quebra tudo — observa Cristiano Sabino, borracheiro há 12 anos na Avenida Brasil, na altura de Bangu. Como está instalado nas pistas no sentido Centro, que ainda têm muito remendo, ele dá a solução para o problema: — Não adianta consertar, tem que botar um asfalto novo. Se não, quando vê, o buraco está aí de novo.

Em nota, a Secretaria municipal de Infraestrutura informa que, ao todo, serão 25 quilômetros de recuperação e pavimentação da Avenida Brasil, entre Realengo e Santa Cruz, com custo total de R$ 124 milhões. "A secretaria de Infraestrutura tem seguido um cronograma de operação por faixas para minimizar os transtornos no trânsito e com a devida sinalização", diz trecho da nota.