Igreja com Partido? "Busão da Aliança" e pastor aliado impulsionam nova legenda de Bolsonaro

Matheus Pichonelli
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O deputado Filipe Barros, à frente do "Busão da Aliança". Foto: Reprodução/Facebook
O deputado Filipe Barros, à frente do "Busão da Aliança". Foto: Reprodução/Facebook

Um ônibus estilizado com o rosto do presidente Jair Bolsonaro e o símbolo de seu futuro partido, o Aliança pelo Brasil, chamou a atenção de quem passava, no último fim de semana, pelo pátio da Igreja Presbiteriana Central de Londrina (PR).

A imagem correu as redes e levou o coletivo Bereia, serviço de checagem de fatos formado por jornalistas cristãos, a investigar se a história era boato ou se realmente tinha acontecido.

Tinha.

Segundo o coletivo, uma equipe do novo partido esteve no local no domingo (26) para não só coletar assinaturas dos membros da igreja, como para receber as bênçãos do pastor Emerson Patriota, líder da IPB Central de Londrina.

A igreja é frequentada pelo deputado federal Filipe Barros (PSL-PR) -- que também tinha o rosto estampado no veículo e que, segundo o pastor, “tem feito um trabalho maravilhoso, defendendo a família”.

Eleito pelo PSL, Barros é um dos vice-líderes do governo na Câmara. Em março do ano passado, ele causou polêmica ao comemorar o aniversário do golpe militar de 1964 -- um dia, segundo ele, em que “o Brasil foi salvo da ditadura comunista”.

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Foi premiado pouco depois, em agosto, quando foi escolhido pelo presidente Jair Bolsonaro para integrar a Comissão de Mortos e Desaparecidos. Para ele, falar em tortura e perseguição durante a ditadura é “revisionismo”.

Barros é um dos principais articuladores do novo partido do presidente. Em suas redes, já postou vídeos desafiando seus seguidores a se desfiliarem de seus partidos e se integrarem à futuro legenda.

No culto do último domingo, seu aliado, o pastor Patriota, explicou que “sem um número suficiente de apoiamentos, esse partido não se cria, e nós estamos aqui trazendo esse partido, esse futuro partido pra que possa fazer isso”.

“Então eles estão ali, na saída do Centro de Adoração…nós temos uma edificação, que é o espaço mulher, onde a SAF, as nossas mulheres servem todos os dias da semana. E nós montamos ali um local, espaço, para que você possa no final do culto passar por lá, conhecer mais os valores desse futuro partido, e você possa fazer seu apoiamento. Inclusive nós temos aqui o pessoal do cartório pra facilitar todo esse processo, porque tem que ser firma reconhecida, aquela coisa toda. Eles já estão aqui para nos abençoar, então você, no final, nós estamos desafiando você, todos passarem lá, conhecerem o estatuto, os valores”, disse o pastor durante a celebração.

No fim da fala, Patriota conclamou os presentes a orarem pelo Brasil. “Nós amamos o Brasil, e nós temos o compromisso como cristãos de orar e interceder pela nossa nação, pela reestruturação, realmente, pelo crescimento em todas as áreas do Brasil pra glória do Senhor Jesus Cristo.”

A fala chegou a ser compartilhada em um vídeo da igreja, mas foi deletada após a repercussão.

Em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, o deputado Filipe Barros disse que o “busão do Aliança” está percorrendo diversas cidades do Paraná e é bancado por apoiadores de Bolsonaro.

Apesar da crítica de diversos segmentos religiosos, que veem com restrições a aproximação entre governo, igrejas e o futuro partido, ele diz ser um “dever do cristão participar da vida pública, da vida política de um país”.

Cita como exemplo uma fala recente do ex-presidente Lula, segundo quem o PT precisa se aproximar das igrejas evangélicas para recuperar os votos perdidos nas duas últimas eleições presidenciais.

Fica a dúvida apenas sobre qual projeto aninhado pelo bolsonarismo será mais bem sucedido até o fim do governo: o Escola Sem Partido ou o Igreja com Partido?