Para especialistas, buscas por Lázaro viraram 'circo' e adotam medidas 'idiotas e contraproducentes'

·6 minuto de leitura
Armada, deputada federal faz vídeo em helicóptero e promete capturar Lázaro. Reprodução / Redes Sociais
Armada, deputada federal faz vídeo em helicóptero e promete capturar Lázaro. Reprodução / Redes Sociais
  • Especialistas acreditam que a operação coloque a vida de Lázaro em perigo;

  • Buscas chegam ao décimo quarto dia; polícia rodoviária e cães farejadores fazem parte da procura;

  • Exposição das forças de segurança e de figuras políticas nas redes sociais colaboram para teor predatório da operação.

No décimo quarto dia, 270 agentes das polícias civil e militar do Distrito Federal e de Goiás, cinco cães farejadores, helicópteros e outros recursos são usados na busca por Lázaro Barbosa, que ganhou na imprensa e nas redes sociais o apelido de 'serial killer do DF'. Em meio a mata fechada, pontos de bloqueio são também feitos por homens da Policia Federal e Rodoviária. A operação, que conta com disque-denúncia, vem ganhando cada vez mais notoriedade nacional e caráter predatório. Especialistas defendem que a forma como o caso é noticiado, bem como a ação das forças de segurança, colocam a vida de Lázaro em risco, alem de reforçar discursos como o da justiça com as próprias mãos

"O uso de termos como 'caçada', 'procurar leão na selva' ou similares não colaboram para a busca efetiva do suspeito e cumprimento do processo legal. Já de pronto se animaliza a pessoa procurada. Então, há uma preocupação sobre esse 'quase circo' que tem sido montado. Descaracteriza o trabalho da polícia, que não deveria fazer caçadas, deveria fazer operações policiais com inteligência evitando morte ou pessoas feridas", avalia o coordenador da rede de Observatórios da Segurança do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESEC), Pablo Nunes. 

Cassio Thyone, membro do conselho do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, também conversou com o Yahoo Notícias sobre o caso das fotografias divulgadas pela Polícia Civil como sendo da casa do suspeito. No último fim de semana, lideranças religiosas de matrizes africanas denunciaram a truculência da Polícia Militar nas buscas por Lázaro nos terreiros da região do Distrito Federal.

"Houve uma precipitação na divulgação, inclusive porque os templos fotografados, ao que tudo indica, nada tinham a ver com o foragido. A notícia serviu para incitar a intolerância religiosa. Sobre a divulgação da casa, mais um equívoco. Colocando em risco familiares de Lázaro. Quando uma informação divulgada pela polícia cumpre um papel na estratégia, tudo bem. Mas aqui avaliamos como um equívoco", explica o especialista. 

Leia também:

"Se a divulgação se deu pela própria polícia, há que se questionar essa legitimidade e se considerar a possibilidade de eventuais abusos. Essa avaliação deve se dar por motivação junto a órgãos de controle, corregedorias e Ministério Público", completa. Procurado, o Ministério Público de Goiás respondeu que, até o momento, a denúncia sobre tais abusos não chegou ao conhecimento do órgão.

Representantes de terreiros em Águas Lindas e Cocalzinho de Goiás informaram que policiais agiram com violência na busca pelo criminoso mais procurado do Brasil. De acordo com eles, os agentes depredaram altares e apontaram armas por suspeita de que Lázaro pudesse estar em um desses lugares.

A repercussão do caso ganhou tais dimensões que vem causando reflexões até em outras regiões do país. No Maranhão, três agentes foram afastados pela Polícia Civil após matarem um jovem de apenas 23 anos na última sexta-feira, em Presidente Dutra. Hamilton Cesar Lima Bandeira tinha transtornos mentais e foi assassinado por fazer uma postagem enaltecendo o Lázaro Barbosa.

'Eu não tô indo para brincar'

A notoriedade despertou comentários de autoridades políticas. O vice-presidente Hamilton Mourão comentou, nesta sexta-feira (18), que a operação de busca é como “buscar leão na selva”: Vai batendo o mato. É uma operação demorada, não é simples". Já o presidente Jair Bolsonaro aproveitou o caso para defender o porte de armas entre os brasileiros: “Arma deixa você dormir em paz em casa'', disse.

Cecília Oliveira, diretora executiva do Instituto Fogo Cruzado, comentou a fala do vice-presidente:

"Faz parte do espetáculo e se encaixa na mitologia do bem contra o mal, que militares como Mourão são adeptos. Por outro lado, deixa à mostra uma resposta que nada diz, simplista, sobre um caso que está levando dias para ser resolvido".

As redes sociais também entraram para o espetáculo da caçada. Para Cecília, a estratégia policial está longe de ser efetiva. “Podemos ver nas redes sociais policiais fazendo vídeos para o TikTok, fotos para o Instagram. Além de ser ridículo, é contraproducente. E se Lázaro tem um celular e acompanha isso? Que tipo de estratégia é essa que coloca em risco o sucesso de uma operação por likes? Somado a isso, há o treinamento da polícia em si, cujo treinamento é focado em áreas urbanas e no enfrentamento à uma fictícia guerra às drogas”, explica.

No domingo, o deputado federal pastor Sargento Isidório (Avante) apareceu, em um vídeo, camuflado entre folhas e com um tronco e uma bíblia nas mãos, afirmando que vai “entrar na luta” para capturar o “serial killer do Distrito Federal”. "Você não está vendo que isso é coisa do diabo?", berrou o deputado.

A deputada federal Magda Moffato (PL-GO) publicou nas redes sociais um vídeo em que aparece segurando um fuzil dentro de um helicóptero para capturar Lázaro. O vereador Inspetor Alberto (Pros), de Fortaleza, viajou para o interior de Goiás para participar das buscas. “Eu não tô indo para brincar, eu tô indo para fazer o que aprendi em mais de 30 anos de polícia”, disse o Inspetor Alberto. Os especialistas avaliam que as falas viraram parte de disputa política.

Ao ser questionada, a diretora executiva acredita que Lázaro corra risco de vida. “Sem nenhuma dúvida Lázaro pode ser morto. Depois de dias dando um baile na polícia, a morte do procurado pode ser considerada como “lavar a honra””.

Suspeito corre risco de vida

Questionado, Nunes crê na possibilidade da violação contra a vida do suspeito diante das falas das autoridades. "Isso só atrapalha e, de certa forma, também alimenta o coro e a possível vontade popular de que Lázaro seja morto. Sabemos que o Brasil tem histórico de fazer justiça com as próprias mãos. Nos parece que há uma pressão muito forte para que essa 'caçada' seja finalizada com a 'presa abatida", completa Nunes, que defende que haja o cumprimento legal do caso. 

"Mais um caso em que nós veremos uma pessoa que deveria ser presa e julgada pela Justiça e responder pelos seus atos tendo uma resposta sendo dada de outra forma: por meio da morte desse suspeito".

Em entrevista ao jornal Correio Braziliense, ela afirmou temer que Lázaro acabe morto:

— Temos medo de receber a notícia de que ele morreu. A companheira também denunciou a polícia em entrevista, contando que foi torturada para revelar o paradeiro de Lázaro. "O policial deu três, quatro tapas no meu rosto. Ele quebrou o rodo da minha tia e ia me bater com o cabo. Eu pensei comigo: 'Senhor, eu não acho justo eu apanhar com esse cabo de vassoura. O Senhor sabe que eu não sei onde ele está'", disse, em entrevista ao programa "Domingo Espetacular", da TV Record.

Polícia procura por Lázaro há 14 dias

Lázaro está foragido há 14 dias e vem sendo procurado pelas polícias do DF e de Goiás. Na semana passada, surgiram boatos de que ele teria sido capturado e morto. As polícias Civil e Militar do Distrito Federal e de Goiás negaram a notícia horas depois.

O suspeito é procurado por matar quatro pessoas, balear três, invadir chácaras, fazer reféns e atear fogo em uma casa. A PM informou que ele disparou 15 tiros contra policiais militares de Goiás, em Cocalzinho, durante a sua fuga na noite de quarta-feira, 16. Ibaneis Rocha, governador do Distrito Federal, se pronunciou sobre Lázaro: “vem fazendo a polícia do Distrito Federal e do Goiás quase como de bobas”.

Defensoria Pública do DF pede proteção à integridade física de Lázaro

A Defensoria Pública do Distrito Federal (DPDF) registrou ontem (21) pedido à Vara de Execuções Penais para que Lázaro Barbosa de Sousa seja alocado em uma cela individual, separado dos demais detentos, caso seja preso. 

No documento, ressaltou a necessidade por "proteção especial à integridade física e mental e a proteção contra qualquer forma de sensacionalismo e exposição vexatória".

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos