Buscas prosseguem na Baixada Santista, mas esperança cai

THIAGO AMÂNCIO, ALFREDO HENRIQUE E EDUARDO ANIZELLI
GUARUJÁ, SP, BRASIL, 04-03-2020 - Voluntários e homens do Corpo de Bombeiro durante as buscas no Barreira João Guarda, no Guarujá, na Baixada Santista. Deslizamento de terra provocado pela forte chuva da madrugada de terça-feira deixou 21 mortos e 28 desaparecidos na Baixada Santista. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

GUARUJÁ, SP (FOLHAPRESS) - Renata Silva, 42, reconheceu na terça-feira (3) o corpo da sobrinha. "Estou esperando notícia da minha irmã e do meu cunhado. Tenho fé que vamos encontrar pelo menos os corpos", diz, enquanto organiza em seu bar doações para as vítimas das chuvas que assolaram a Baixada Santista na madrugada do de segunda para terça.

Jhenifer Nunes, a sobrinha de 25 anos de Renata, é uma das 25 pessoas que morreram em deslizamentos de terra decorrentes da tempestade, pelo menos 4 delas, crianças. Seu corpo foi retirado da Barreira João Guarda, em Guarujá (SP), cidade mais atingida —houve três mortes em Santos e duas em São Vicente.

A contagem, divulgada pelo Corpo de Bombeiros na noite de quarta, podia subir. Ainda havia 24 desaparecidos —como Jeane Nunes e José Ivanildo, irmã e cunhado de Renata— pelos quais as equipes de resgate buscavam. A probabilidade de encontrá-los vivos, contudo, era de 1 em 3, segundo a Defesa Civil. Após quatro dias, esgotam-se as chances.

"Porém, milagres são possíveis. Há a possibilidade de que se tenham criado 'células de sobrevivência' em meio à lama", disse tenente-coronel Henguel Ricardo Pereira, diretor estadual de Proteção e Defesa Civil, lembrando que algumas vitimas acabam protegidas por lajes ou paredes, que formam um bolsão de ar.

A família de Renata morava no alto do morro, em uma casa de alvenaria construída recentemente por ser mais segura que o barracão onde viviam antes —e onde a própria comerciante morou anos atrás, antes de de mudar para uma parte mais baixa.

"O sonho de todos é morar num lugar mais seguro, claro, mas nunca imaginamos que isso poderia acontecer. Ela construiu uma casa com laje e tudo. Foi uma tragédia."

O local tem recebido desde a tragédia caixas de comida e água, além de dezenas de voluntários de outros bairros.

"Moro aqui há 25 anos, nunca vi nada assim. É preciso ser solidário nessas horas, só quem já perdeu alguém sabe. Veio gente de longe para ajudar", diz Maria da Conceição Reis, 51, que distribuía água e sanduíches aos bombeiros, policiais, voluntários, moradores e jornalistas no local.

O sol que apareceu nesta quarta e elevou a temperatura para 27°C ajudou a secar um pouco da lama, mas os pés e pernas de todos ainda estavam cobertos de barro.

Bem abastecidos de comida, os moradores dizem que precisam, acima de tudo, de um grande refletor e lanternas.

Eles estão sem energia elétrica e sem água desde a tragédia. A doação serviria para que pudessem trabalhar durante a madrugada, quando, sem luz que guie as buscas, os bombeiros vão embora para recomeçar no dia seguinte.

Ao longo do dia, contavam-se às dezenas quem se dispunha a enfiar o pé na lama para ajudar a encontrar corpos.

"Não queriam me deixar entrar, mas eu e qualquer um aqui conhecemos no mínimos três acessos diferentes pra onde você quiser chegar aqui", disse Rafael Soares, 22, que conta ter ajudado dezenas de pessoas desde o temporal.

Militares organizaram os voluntários em turnos de uma hora de trabalho e duas de descanso. Mas moradores como Rafael burlam a regra. "Quem é daqui tá trabalhando sem parar, não tem descanso."

Thiago Teixeira, líder comunitário da região, era um deles. Ele vive na parte urbanizada do bairro, abaixo do morro, e acordou na madrugada com ligações avisando que a chuva intensa poderia causar estragos. Pensou no filho de sete anos que vive barreira acima com a mãe, sua ex-mulher.

"Quando estava chegando, ouvi o estrondo da terra cedendo. A sorte é que a lama pegou a casa da minha ex-mulher, de madeirite, de modo lateral, e não derrubou tudo de uma vez. Encontrei meu filho com lama até o umbigo."

A criança quebrou a perna e está internada. A família da ex-mulher também se machucou, mas ninguém morreu.

Rafael Soares, que vive ao pé do morro com a mulher e a filha pequena, aceitou ir para um abrigo a pedido da prefeitura, mas pensa em voltar para casa. "Não tenho como ficar em abrigo. A prefeitura disse que pode me dar um auxílio aluguel de R$ 200. Ganho um salário mínimo, vou alugar onde com esse dinheiro?".

Para Renata, do bar, o motivo de não sair é segurança. "Não vou deixar meu bar sozinho aqui, porque roubam tudo. Disseram que já roubaram algumas casas ali em cima, no meio dessa tragédia."

A história das famílias que vivem na precariedade dos morros é de repetições.

Vila Edna, outro bairro de Guarujá atingido, retrata essa fragilidade. O bairro foi criado em 1983 para abrigar famílias removidas do adjacente Vila Sônia após um deslizamento na matar uma criança.

Quando se mudou da Vila Sônia para a Vila Edna, Maria das Dores Avelino Silva, 71, imaginava que não iria mais presenciar deslizamentos, ao menos não com vítimas. "Ficamos uns dois meses em abrigos. Depois viemos para barracos na Vila Edna", afirmou. "Comecei do zero. Criei aqui nove filhos e 26 netos."

Os barracos foram substituídos por casas de alvenaria, mas o morro não ficou seguro.

O pedreiro Gilson Souza Vieira, 46, se lembra de um garoto que morreu em um dos cinco deslizamentos na cidade, dos quais o desta semana é o mais grave. "Nunca imaginei que, depois de tanto tempo iria presenciar uma tragédia ainda pior do que aquela", afirmou o pedreiro, que não perdeu sua casa na chuva.

Procurada sobre ações preventivas na área, a Prefeitura de Guarujá não respondeu a publicação desta reportagem.

SEM AJUDA

Uma das primeiras fotografias dos deslizamentos na Baixada Santista mostra uma extensa faixa de lama engolindo casas na Vila Baiana, morro em Guarujá.

Diferentemente de outros morros na cidade, neste não houve mortes. "Graças a Deus", diz Laércio Muniz, 23, "e graças à gente que acordou e saiu de casa em casa pedindo que as pessoas saíssem".

Por não ter corpos soterrados, o cenário era diferente do de outros morros, como a Barreira João Guarda e o Morro do Macaco Molhado, onde chega tanta ajuda que os voluntários precisam se revezar para não atrapalhar. Na Vila Baiana, sem bombeiros, dezenas de moradores sujos de lama até o pescoço tiravam o barro no braço e na lama.

Os caminhos convencionais foram bloqueados com telhados e postes do alto do morro que foram parar lá embaixo. Novas rotas foram improvisadas, com degraus e muita confiança no pouco de terra firme que há. Enxadas, carrinho de mão, cerveja e música embalam os moradores que trabalham há mais de 40 horas.

O ajudante William da Silva, 29, mora numa das partes mais altas e onde as casas vizinhas viraram lama. Na madrugada da chuva, saiu com o filho de seis meses no braço procurando abrigo. "Para cá eu não volto, estou dormindo na casa da minha mãe. A não ser que a Defesa Civil diga que está tudo bem", diz. "Qualquer chuva que tiver, pode acontecer de novo. E dessa vez pode ter morte sim."

Grávida de 37 semanas, Viviane Brito, 31, olhava a destruição no fim da tarde. "Não consigo dormir, morro de medo", diz ela. "Aqui ninguém ofereceu um copo d'água, não chegou ajuda nenhuma. Vocês são os primeiros a subir aqui."

Segundo a Climatempo, não estão previstos temporais na Baixada Santista nos próximos dias, mas até sábado ainda é provável que caiam chuvas moderadas na região.