Butantan admite preocupação com insumos da CoronaVac parados na China

Giuliana de Toledo
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Foto: Desembarque da carga do quinto lote de Coronavac, que chegou a Guarulhos (SP) em 28 de dezembro Foto: Governo do Estado de São Paulo/Divulgação

Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan, disse nesta segunda-feira (18) que o atraso na entrega de mais insumos para a produção da CoronaVac é motivo de preocupação. A matéria-prima para mais doses do imunizante contra o coronavírus está parada na China.

Contando apenas com o IFA (Ingrediente Farmacêutico Ativo), ou seja, o material necessário para preparar a vacina, que já está no país, a produção do Butantan se esgotará ainda nesta semana.

— A capacidade de produção do Butantan é de 1 milhão de doses por dia, a depender chegada da matéria-prima. [A capacidade] foi atingida neste momento com a matéria-prima disponivel. Precisamos do adicional: 46 milhões de doses é o contrato adicional. As dificuldades, do ponto de vista de autorização, são do governo chinês, que precisa autorizar o envio da matéria-prima. [O insumo] Já está disponivel desde meados desse mês, e aguardamos essa autorização — afirmou o diretor em entrevista coletiva na tarde desta segunda.

Até o final de 2020, o Butantan recebeu 6 milhões de doses prontas vindas da China, para as quais o uso emergencial foi aprovado neste domingo pela Anvisa, além de litros de insumos a serem envasados em São Paulo para a fabricação de outros 4,8 milhões de doses. Esse total, de quase 11 milhões, portanto, é tudo que o instituto tem até o momento, embora o acordo com a biofarmacêutica Sinovac preveja a entrega de mais matéria-prima nas próximas semanas.

— Os 4 milhões já estão prontos, mas tem em andamento mais um lote, que pode ser terminado na quarta-feira [dia 20 de janeiro], totalizando os 4,8 milhões. Preocupa, sim, a chegada da matéria-prima, para não parar o processo de produção. Se chegar antes do fim do mês, manteremos o cronograma de entrega de vacinas — acrescentou ele.

No começo de janeiro, o Ministério da Saúde assinou com o Butantan um contrato para o fornecimento de 46 milhões de doses. Essa quantidade, segundo o documento, deve ser entregue em quatro etapas até o dia 30 de abril. A gestão Bolsonaro deixou ainda em aberto a possibilidade de adquirir outras 54 milhões de doses da CoronaVac, o que totalizaria 100 milhões de doses.

Como cada pessoa precisa tomar a vacina contra o Sars-CoV-2 em duas doses, os quase 11 milhões garantidos pelo Butantan até o momento podem imunizar cerca de 5,4 milhões de brasileiros. O espaçamento entre as aplicações da CoronaVac foi acordado em 28 dias pelos cientistas.

Dimas Covas não detalhou as questões que têm impedido a decolagem de aviões com a matéria-prima de Pequim, mas disse acreditar a autorização para uso desses 4,8 milhões de doses produzidos em solo brasileiro pode destravar o processo. O pedido para a liberação desse lote foi feito junto à Anvisa nesta segunda. Por serem de produções diferentes, uma na China e outra no Brasil, as vacinas necessitam de avais separados da agência.

— Acredito que a autorização da Anvisa facilitará a autorização na China — comentou.

Além da entrega de doses prontas e de insumo a ser envasado em São Paulo, o contrato entre Butantan e Sinovac prevê também a transferência de tecnologia para que a vacina possa ser feita na fábrica brasileira, sem a necessidade de importação. Essa fase, porém, ainda não chegou. Para os primeiros meses de 2021, o plano é contar com o desembarque da matéria-prima no aeroporto de Guarulhos. Segundo Covas, mil litros que cheguem ao Butantan podem dar origem a aproximadamente 1 milhão de doses.

A outra vacina aprovada para uso emergencial no Brasil, a da AstraZeneca/Oxford, também enfrenta atraso na entrega de insumos vindos da China. Na Fiocruz, onde será feita a sua produção no Brasil, nada da matéria-prima chegou por enquanto. Por questões de contrato, a instituição afirma que pode cobrar do laboratório a entrega de doses prontas ou de IFA vindos de outro país em caso de mais demora.

No último fim de semana, um avião fretado pelo governo federal deveria ter ido buscar na Índia 2 milhões de doses do imuzinante da AstraZeneca já preparados. A importação, no entanto, foi freada pelas autoridades indianas, que questionaram o envio das vacinas quando a quantidade para a população local ainda não é satisfatória. A China, com mais de 1,4 bilhão de habitantes, enfrenta um quadro semelhante, sem doses o bastante para atingir um percentual considerável da sua população.