Butantan e governo conversam, mas não se entendem sobre Coronavac

IGOR GIELOW
·3 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A apresentação de um plano sem datas e parâmetros definidos para a imunização nacional contra a Covid-19 pelo governo federal foi vista com desalento por autoridades paulistas. Apesar de o plano enfatizar relativamente a Coronavac, vacina chinesa desenvolvida em parceria com o Instituto Butantan, como prioridade num calendário nacional ao lado do imunizante da AstraZeneca/Universidade de Oxford/Fiocruz, a opacidade do anúncio predominou nas avaliações. O governo paulista esperava mais. Na terça (15), véspera do anúncio, um emissário do ministro Eduardo Pazuello (Saúde) esteve com Dimas Covas, diretor-presidente do Butantan, e Antonio Imbassahy, representante de São Paulo em Brasília. Na conversa com o assessor Airton Cascavel, a pasta se disse comprometida a comprar a Coronavac e a incluí-la no plano nacional. Até aí, tudo bem, mas ficou em aberto a questão das datas. Ela não foi abordada na entrevista coletiva de Pazuello em Brasília, e não houve novos contatos. A impressão no Palácio dos Bandeirantes foi a de que o governo federal está enrolando, dado que não se preparou para a realidade, cortesia do negacionismo oficial do governo Jair Bolsonaro. Em entrevistas, membros do governo estadual disseram que preferem a Coronavac incluída num plano nacional --o que tornaria a iniciativa estadual anunciada na segunda retrasada (7) pelo governador João Doria (PSDB) parte dele. Com Pazuello reduzindo a estimativa para aprovação de um registro definitivo de qualquer vacina de 60 dias para cerca de 45, há quase uma convergência agora nas datas presumidas para o começo da vacinação --25 de janeiro para Doria, fevereiro para o ministro. Claro, primeiramente a Coronavac e outras precisam ter seu pedido de registro entregue à Anvisa. Conforme o jornal Folha de S.Paulo publicou na segunda (14), Doria mudou de tática. Foi adiada desta terça para a próxima quarta (23) a entrega prevista dos resultados de eficácia da Coronavac e o pedido de registro à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e sua homóloga chinesa. Isso se deu porque o número de infectados entre os voluntários do ensaio da chamada fase 3 ultrapassou os 151 necessários para fazer um relatório definitivo --pulando assim a dita etapa interina. Doria espera o registro definitivo chinês em três dias, o que abrirá então o prazo legal do mesmo tempo para a Anvisa analisar a Coronavac. Se não a aprovar sem apresentar razões técnicas convincentes, teria de registrá-la baseada na avaliação externa, como determinou lei da pandemia em fevereiro. Na área técnica do governo estadual, a expectativa é de resistência da Anvisa, o que acabará levando à inevitável judicialização do caso. Ministros do Supremo ouvidos pela reportagem creem que Luiz Fux, presidente da corte que estará no plantão do recesso judiciário, será bastante sensível a argumentos pró-vacinação imediata. Desta forma, a existência do plano estadual acabou se tornando um instrumento de pressão que obrigou o Planalto a se mexer. Assessores de Bolsonaro já o alertaram na semana passada acerca do dano político que sua rejeição à Coronavac, vacina que ele vê como passaporte eleitoral do rival Doria para 2022, poderia gerar. Isso levou o presidente a entrar no modus operandi tradicional. Falou mal da vacinação na terça e, nesta quarta, participou com um tom mais comedido do lançamento do plano sem detalhes de Pazuello.