Bullying? Games? Incel? Massacre em Suzano ainda exige debate mais profundo

Tiroteio na Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, deixou mortos e feridos.

Passados dez dias do massacre que deixou dez mortos e 11 feridos na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, muito ainda se especula sobre as razões que levaram os assassinos ao ato extremo. Excesso de videogame? Estímulo em fóruns eletrônicos? Exacerbação do discurso de ódio? Desamparo? Celibato involuntário? Bullying?

Tudo isso é grave e, com todos os cuidados, rendem uma discussão longa, complexa, perigosa até.

O fato é que, antes de esses jovens terem acesso a armas e colocarem o plano em prática, uma estrutura de alicerces profundos foi construída ao nosso redor: a representação da “masculinidade”. (Se alguém se lembrar de mulheres que promoveram chacinas parecidas em qualquer momento da História, me avisem).

Identificar essa estrutura exige uma reflexão sobre nosso local de observação. Vamos tentar.

Se o mundo é aquilo que observamos a partir de nossas experiências pessoais, o mundo de um menino branco nascido em uma família de classe média, como eu, é um universo de possibilidades estimuladas desde cedo. É como dirigir o carro (dos pais) em uma estrada repleta de placas e adesivos dizendo “o mundo é teu”.

Nesse mundo paralelo, nós, supostos donos do mundo, não sabemos o que é frustração. Nunca ouvimos “melhore, se não ninguém vai querer você”, “encontre alguém que te sustente”, “você não tem jeito ou talento para isso” ou “vestibular não é pra você”.

Vocação à violência, ao sexo predatório e status como direito eram quase um traço de personalidade e afirmação.

Na curva da adolescência com o mundo adulto, até nosso arroto tinha charme e/ou graça.

Não importava o que fizéssemos, três coisas nunca nos faltariam: um banquinho, um violão e o suspiro da plateia.

Dentro e fora das entrelinhas, a representação da nossa masculinidade nos dava o direto a ser o Bradley Cooper no filme “Nasce uma estrela”: seríamos amados e compreendidos até se urinássemos, como cães, no momento de consagração das nossas companheiras e ainda ganharíamos, em troca, canção romântica da Lady Gaga com direito a saudade e lágrima nos olhos. Não importa quantas estrelas nasceriam; todas seríamos nós.

O problema é que, entre essa representação e a expectativa criada em relação ao mundo existia um detalhe: o mundo.

Esse mundo é tomado de contradições e frustrações; entre elas, a de não acessar nem ter controle sobre o desejo de quem desejamos.

Vai ver é por isso que chamamos de “celibato involuntário” a rejeição a quem não consegue se relacionar com ninguém. A nomenclatura é um sintoma em si, como se só uma vontade importasse.

“Como assim esse mundo não me quer?”, dizem, ao cair no mundo, os que vestiram uma coroa imaginária esse tempo todo.

Daí o ódio a tudo o que supostamente ocupa um lugar de direito “natural”: bens, afeto, experiências positivas, prestigio; VOZ.

Para quem caiu no mundo e foi dragado pela realidade, a conclusão possível é: se sofro rejeição, se meus planos não se confirmaram, é porque o mundo está de ponta cabeça e eu posso consertar. Se não por amor, por terror.

Se alguém quiser entender as ondas de violência como fenômeno, e não atos isolados de extremismo, é preciso entender quem são as vítimas.

Em casos de massacres recentes, vimos um ex-aluno entrar em uma escola em Realengo, no Rio de Janeiro, e matar dez meninas e dois rapazes.

Em Campinas, na virada de 2016 e 2017, um homem invadiu uma festa de Réveillon e matou 12 pessoas; o alvo principal era a ex-companheira. “Se a vadia ficasse comigo ela não precisaria trabalhar e poderia ficar contigo tempo integral”, escreveu o assassino em uma carta de despedida ao filho, que ele mesmo matou. A “vadia” era a mãe.

Espalhados, crimes de ódio representam massacres diários que evitamos identificar como tal. No início de março, o jornal O Globo mostrou que, até o dia 7, o Brasil registrara 344 casos de feminicídio – 207 assassinatos e 137 tentativas.

Na Nova Zelândia, o assassino que deixou 50 mortos em Christchurch alvejou duas mesquitas. Em manifesto, ele se declarava um nacionalista branco, contra a diversidade racial.

Correlações são sempre delicadas, mas chama a atenção que, na análise do perfil dos assassinos muitos tentem encontrar com lupas algum sintoma de “falta” ou “ausência” – ou de atenção, ou de valores, ou de referências, ou de prestígio e até da mãe – para decifrar a personalidade de quem exige sempre compreensão.

 

Talvez o ato extremo não seja resultado de nada disso, a não ser uma tentativa de reforço de identidade. Uma identidade iludida da própria supremacia.