Cárcere de Guaratiba: Delegada diz que casal era primo e o ambiente da casa era sombrio

"Sombrio". Foi essa a palavra usada pela delegada Cristiane Carvalho para descrever o ambiente da casa de quatro cômodos onde, durante 17 anos, uma mãe e seus dois filhos foram mantidos em cárcere privado pelo pai e companheiro em Guaratiba, na Zona Oeste do Rio. A família foi libertada na última quinta-feira, dia 28, pela Polícia Militar. Segundo as autoridades, o acusado é primo de 1º grau da mulher.

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A casa é pequena. Do lado de fora, na garagem, um fusca se decompõe com o tempo, e ao fundo, uma inscrição no muro diz "Jesus te ama". Dentro, há um quarto e uma sala – também usada como quarto – além da cozinha e o banheiro. De acordo com a polícia, um ambiente escuro e muito sujo, com pouca ventilação. Nas janelas, plásticos pretos impedem a entrada da luz. Nos cômodos, alguns poucos móveis e em péssimas condições. Na cama em que a mulher relatou às autoridades que o companheiro, Luiz Antônio Santos Silva, de 49 anos, amarrava os dois filhos, de 19 e 22, um colchão velho, sujo e com mofo. O único eletrodoméstico da casa é uma geladeira:

– Tem muito lixo pendurado, o que aparentava que o autor era uma pessoa acumuladora, e também muita água armazenada. O que chamou a atenção é que na geladeira há alimentos dentro da validade, como um caixa de hamburgueres e também peixe congelado. Do lado das camas tem uns potes plásticos de margarina com água, inclusive já com lodo, provavelmente para as crianças se alimentarem ali – diz a delegada.

A Polícia Civil voltou ao local na tarde deste sábado (dia 30) junto do Corpo de Bombeiros para uma nova perícia. Na quinta, os trabalhos foram interrompidos porque havia um grande enxame de abelhas próximo das caixas de som que o homem usava para abafar os gritos dos filhos e da mulher – que segundo as autoridades, seria sua prima de 1º grau. Além disso, vizinhos denunciaram que um terceiro filho do casal, que teria morrido de desnutrição, tinha sido enterrado no quintal da casa. A possibilidade foi negada pela vítima em depoimento:

– Pedimos auxílio do Corpo de Bombeiros para uma perícia complementar, com os cães, para ver se há vestígio de algum corpo. A vítima nos informou que não existia esse terceiro filho, só que entendemos a situação dela, que causou um dano emocional muito grande, então resolvemos checar a informação e complementar a perícia. Não podemos excluir nenhuma possibilidade até pela gravidade e crueldade do fato presenciado aqui.

Por conta da rotina de música alta, Luiz Antônio era conhecido na vizinhança como "DJ". Moradores do local contam que, até cerca de três anos , o som ficava ligado quase que ininterruptamente e que não desconfiavam porque pensavam que ele "gostava de música":

– As pessoas ficaram sabendo que tinha criança e começaram a ajudar. Mas ninguém sabia a idade, nem quantas eram. Teve até um padre que veio aqui uma vez trazendo cesta básica, mas ele (Luiz Antônio) atendeu no portão, não deixava entrar – contou uma vizinha, que preferiu não se identificar: – A gente nunca imagina que uma coisa dessa vai acontecer do nosso lado.

Ainda segundo a delegada, o pouco contato da mulher e dos filhos acontecia por uma pequena abertura do portão da casa, fechado com uma corrente quando o homem saía para trabalhar.

– Quando ele saía é que os vizinhos forneciam comida por um buraco no portão. Era ali que era mantida a pouca comunicação com a vizinhança. Quando ele chegava em casa, aí ninguém tinha acesso à família – afirma Cristiane Carvalho.

De acordo com a policial civil, Luiz Antônio passou pela audiência de custódia também neste sábado, e a prisão foi mantida. Ele deve responde por cárcere privado, maus tratos e tortura.

– Foi um auto de prisão em flagrante e a gente tem só dez dias para finalizar as diligências e enviar o caso a Justiça. O nosso foco agora é complementar as investigações. Vou desmembrar essa prisão num inquérito de violência psicológica, apesar de ser inerente que a vítima está com um dano emocional. Já pedi toda a documentação ao hospital que prestou assistência para comprovar ao Ministério Público e à Justiça esse crime de violência psicológica – diz.

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