Câmara aprova Feira das Yabás como patrimônio cultural e imaterial do Rio

Imagina o cenário: roda de samba, jongo e chorinho como música ambiente e para comer, mocotó, vaca atolada, cozido, carne seca com abóbora e outras delícias feitos por mãos ilustres de famílias que carregam a história da cultura afro-brasileira. É só um pouco do que reúne a Feira das Yabás, no bairro de Oswaldo Cruz, na Zona Norte do Rio. O lugar é considerado uma espécie de museu de bens culturais e imateriais da cidade. Em termos de comparação, seria o museu do Louvre de tão grandioso. Quem defende a tese é praticamente patrono do lugar: Marquinhos de Oswaldo Cruz, idealizador da feira. A riqueza é tamanha que a Câmara municipal aprovou, nesta quarta-feira, o projeto de lei que considera a Feira dos Yabás como Patrimônio Cultural e Imaterial da cidade.

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— Esse título me pegou de surpresa. A manutenção dos bens culturais e imateriais daquela região precisa ser preservada, se não, morre com o tempo. Eu fico feliz porque a cidade do Rio sempre foi partida, como dizia Zuenir Ventura. E isso faz com que os olhos se voltem para a riqueza que esse lado da cidade tem e que não é tão visto. Eu tenho uma música que é chamada “Herança” onde eu falo que o samba é o sussurro das vozes ancestrais. Acho que elas estão muito felizes nesse momento — conta Marquinhos de Oswaldo Cruz, que há nove anos criou a Feira dos Yabás.

A feira já faz parte da própria cidade. Inicialmente, Marquinhos idealizou o evento mensal como alternativa para suas apresentações musicais. Ele convidava outros artistas para participar e junto, famílias locais para compor as barraquinhas de comida.

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E as barraquinhas?

As comidas por lá ganham outro sabor: foram escolhidas pelos grandes sambistas da região com pratos de origem africana e típicos do subúrbio. Quituteiras ilustres como a Dona Neném, baluarte da Portela e viúva do cantor Manacéa que morreu em 2020 de covid-19, participava da feira vendendo a famosa rabada. Tia Surica é responsável até hoje pelo mocotó. A família da Tia Vicentina garante a feijoada, mas a vaca atolada é feita pela Dona Sueli.

O cardápio de dar água na boca não acaba por aí: o cozido é preparação especial de Vera Caju, e tem também o jiló da Jane, viúva de Luiz Carlos da Vila, compositor de sucessos como “O show tem que continuar”. A carne seca com abóbora carrega a ancestralidade do Mestre Candeia e o angu tem uma pitada generosa de Neide Santana, filha do Chico Santana “saco cheio de dinheiro”. Os doces da família da sambista Clementina de Jesus, que já foi homenageada em edições anteriores da feira.

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A história da feira se confunde com a história de Marquinhos de Oswaldo Cruz, que nasceu na região, em frente ao Mercado municipal do Rio, que funcionava em Madureira. O comércio e a comida de rua já eram tradição local, segundo ele conta.

—No meu inconsciente isso estava comigo. Eu pensei: vou fazer isso na rua, porque é a tradição daqui, o samba com comida. Comecei a lembrar as comidas que as famílias faziam quando eu era criança. Ao pensar na feira, eu escolhi uma a uma das famílias tradicionais do bairro para participar do evento, enquanto eu cantava — conta Marquinhos.

Segundo ele, a Feira das Yabás gera 350 empregos direto entre músicos, carregadores, empregadores, fora o entorno dos bares que vivem do movimento do evento.

— Isso sem falar da perpetuação da memória que fica viva. A curadoria é pensada com cuidado, cada mês a gente faz sobre um tema. Mês que vem quero comemorar o Mestre Doca da Portela e o Mestre Casquinha, que faria cem anos esse ano, grandes mestres da região.

O prefeito Eduardo Paes agora tem 15 dias para sancionar ou não a lei, aprovada por unanimidade em sessão extraordinária e em segunda e última discussão. A autoria é da vereadora Vera Lins (Progressista). De acordo com a parlamentar, a finalidade do projeto de lei é manter a tradição de nove anos de uma festa que leva cerca de 12 mil pessoas para o bairro

— Além da importância cultural da feira, o encontro gera empregos informais e reúne milhares de pessoas de várias partes da cidade, já que o samba é uma das maiores tradições dos bairros da Zona Norte, principalmente de Madureira e Oswaldo Cruz. Não podemos negar que a marca registrada do subúrbio carioca é o samba, e manter esse elo entre o antigo e o novo é ter a certeza de que a tradição será preservada pela nova geração que está por vir - explicou.