Câmara dos EUA aprova veto à venda de armas semiautomáticas para menores de 21 anos

Após os Estados Unidos registrarem 36 mortes em ataques a tiro durante um único mês — incluindo 19 crianças e duas professoras assassinadas em uma escola no Texas —, os deputados americanos aprovaram na quarta-feira uma legislação para banir a venda de armas semiautomáticas para menores de 21 anos. A medida, no entanto, deverá ser barrada pelo Senado, diante da grande polarização sobre o controle da comercialização de armas no país.

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A Câmara, onde os democratas têm a maioria, aprovou a proposta por 223 a 204, seguindo majoritariamente as linhas partidárias. Apenas cinco republicanos não votaram contra a abrangente medida democrata, que também inclui um veto à venda de cartuchos de alta capacidade.

As negociações continuam no Senado, onde negociadores bipartidários tentam chegar a um acordo sobre medidas ainda mais modestas, mas que tenham alguma probabilidade de serem aprovadas. No formato atual, a rejeição parece certa: cada partido tem 50 senadores, apesar dos democratas terem o voto de minerva em caso de empate, que cabe à vice-presidente Kamala Harris.

O projeto, no entanto, precisaria de 60 votos favoráveis para vencer a cláusula de obstrução do Senado, algo cuja probabilidade parece quase nula neste momento, apesar dos eventos recentes. O voto de quarta na Câmara veio apenas 15 dias após o massacre escolar em Uvalde, Texas, realizado por um homem de 18 anos com armas compradas legalmente apenas dias antes.

Dias antes, em 10 de maio, 10 pessoas haviam morrido em um ataque similar em Buffalo, no Estado de Nova York. No dia seguinte, um atirador deixou um morto e cinco feridos em uma igreja na Califórnia. No dia 1 de junho, quatro pessoas perderam a vida em um hospital em Tulsa, em Oklahoma.

Horas antes da votação, os pais de uma das crianças que morreram no ataque em Uvalde falaram aos parlamentares durante uma audiência sobre violência por arma de fogo. Kimberly Rubio, mãe de Lexi, de 10 anos, falou sobre a última vez que viu sua filha e sobre o desespero de ser informada sobre a morte da menina antes de pedir ação:

— Nós queremos um veto às armas semiautomáticas e aos cartuchos de alta capacidade — disse a mulher, que falou por videoconferência ao lado do marido. — Por alguma razão e para algumas pessoas com dinheiro, para pessoas que financiam campanhas políticas, armas são mais importantes que crianças. Então, neste momento, pedimos progresso.

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O casal foi acompanhado por Roy Guerrero, o único pediatra da pequena cidade texana, de maioria latina. O acordo com o médico, que compareceu pessoalmente, descreveu em detalhes os estragos que o rifle AR-15 causou no corpos, afirmando ter atendido duas crianças “cujos corpos foram pulverizados pelas balas disparadas contra elas, decapitadas” e que só eram identificáveis por suas roupas com estampas de personagens de desenho animado sujas de sangue.

— Nós temos uma hemorragia e vocês não estão lá — disse ele, referindo-se aos parlamentares que se recusam a aprovar legislações que aumentem o controle sobre a venda de armas nos EUA.

A menina Miah Cerrillo, de 10 anos, que sobreviveu ao ataque sujando-se com o sangue de uma colega e fingindo-se de morta, compartilhou seu depoimento em um vídeo:

— Ele atirou na minha amiga que estava ao meu lado — disse a menina em tom baixo. — Achei que ele fosse voltar à sala.

Os democratas que organizaram a audiência chamaram também parentes e vítimas de outros massacres e especialistas, esperando que os depoimentos em primeira pessoa servissem como um chamado à ação. A audiência, no entanto, rapidamente se transformou em um debate partidário, com democratas demandando mais medidas de controle às armas e republicanos se opondo.

Enquanto a sessão ocorria, líderes republicanos tentavam garantir os votos contrários. Divulgavam uma recomendação afirmando que a Associação Nacional dos Rifles, principal grupo lobista do país e grande doadora do partido, levaria em conta o voto dos deputados para definir apoios futuros.

— Massacres deste tipo são realizados por pessoas solitárias, perturbadas e instáveis com doenças mentais — disse o deputado Pat Fallon, republicano do Texas, defendendo que haja mais segurança nas escolas. — Mais armas nas mãos dos cidadãos que respeitam a lei deixarão todos nós mais seguros.

A divisão não é inédita, já que várias outras tentativas democratas de aumentar o controle sobre os armamentos foram barradas pelo Partido Republicano, como a proposta apoiada pelo então presidente Barack Obama há uma década, que não venceu a obstrução. O projeto foi apresentado nos meses seguintes ao massacre de Sandy Hook, em 2013, quando 20 crianças foram mortas em uma escola em Connecticut.

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No Senado, o grupo bipartidário debate medidas que podem ter algum consenso, como aumentar os recursos para saúde mental, segurança escolar e incentivos para que os estados recolham as armas de pessoas consideradas perigosas. Ainda há, no entanto, “pontos de discórdia em todo lugar”, segundo o senador John Cornyn, um dos quatro republicanos que integram a comissão convocada pelo líder da maioria, o democrata Chuck Schumer.

Mesmo que o grupo chegue a um consenso, ainda precisarão do apoio de pelo menos mais seis republicanos para ultrapassar a obstrução. Se em 2013, quando a polarização política era significativamente menor, isso não aconteceu, a probabilidade é ainda mais baixa desta vez.

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