Câmara de Representantes dos EUA envia pedido de impeachment de Trump para Senado

Elodie CUZIN
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Donald Trump em 20 de janeiro de 2021 na base Andrews, perto de Washington, no último dia de seu mandato

A Câmara de Representantes dos Estados Unidos apresentou formalmente ao Senado, na segunda-feira (25), a ata de acusação contra Donald Trump, marcando a abertura oficial de seu histórico processo de impeachment por "incitação à insurreição" nos atos violentos cometidos por seus seguidores durante invasão ao Capitólio em 6 de janeiro deste ano.

A partir desta terça-feira (26), a Câmara Alta convocará Trump oficialmente para esse processo, que começa em 9 de fevereiro.

Os senadores prestarão juramento nesse dia para se tornarem jurados neste julgamento duplamente histórico: Trump é o primeiro presidente dos Estados Unidos a sofrer um julgamento político duas vezes. E será o primeiro a ser julgado depois de deixar a Casa Branca.

- "Segurança dos EUA em perigo" -

Sob um solene silêncio, os nove "promotores" nomeados pelo presidente da Câmara de Representantes, a democrata Nancy Pelosi, cruzaram para chegar ao Senado os mesmos corredores decorados com estátuas e pinturas que foram tomados de assalto por partidários de Trump há menos de três semanas.

Na sequência, seu chefe, Jamie Raskin, leu a ata de acusação de "incitamento à insurreição", no Senado, palavras que ressoaram de maneira especial, considerando-se que todos no prédio, representantes e senadores, testemunharam os violentos acontecimentos.

"Donald John Trump" incitou a "violência" e "pôs gravemente em perigo a segurança dos Estados Unidos e de suas instituições", disse o congressista democrata.

Ele citou, principalmente, suas "falsas declarações", negando a vitória de Joe Biden na eleição presidencial de novembro.

O milionário republicano é acusado de ter incitado seus seguidores a invadirem a sede do Congresso, enquanto os legisladores certificavam a vitória eleitoral de Biden.

"Eles nunca vão recuperar nosso país sendo fracos", disse Trump aos manifestantes, pouco antes do ataque ao Capitólio, que deixou cinco mortos. "Têm que mostrar força", acrescentou.

Uma semana após o ataque, a Câmara dos Representantes votou a abertura de seu pedido de impeachment, em 13 de janeiro.

A violência no Capitólio chocou os Estados Unidos e levou muitos líderes republicanos a denunciarem a conduta de Trump. Ainda assim, uma condenação no Senado parece improvável neste momento, já que o nova-iorquino, ainda muito popular entre seus eleitores, continua a contar com importantes aliados nesta Casa.

- "Isso tem que ser feito" -

O trâmite para o julgamento de Trump se dá, enquanto Biden tenta acelerar a campanha de vacinação para conter uma pandemia de coronavírus que deixa mais de 420.000 mortos no país. Além disso, o novo governo tenta negociar com reticentes republicanos a aprovação de seu gigantesco plano de reativação da ordem de US$ 1,9 trilhão.

As negociações "estão apenas começando", disse Biden à imprensa na segunda-feira, dando a si mesmo "duas semanas" para ter uma ideia clara de apoio a este vasto plano no Congresso.

Os democratas controlam a Câmara dos Representantes, mas sua maioria no Senado é muito frágil: 50 a 50, com a possibilidade de desempate da vice-presidente Kamala Harris.

Para colocar as principais reformas em votação, são necessários, porém, um mínimo de 60 votos. E dois terços do Senado para condenar Trump. A meta parece difícil de alcançar, embora o influente líder da agora minoria republicana, Mitch McConnell, não tenha descartado votar pela condenação.

"Acho esse julgamento estúpido", observou o senador republicano Marco Rubio no Fox Sunday.

"O país já está pegando fogo e é como jogar gasolina no fogo", alegou.

Outros esperam, inclusive, bloquear completamente a realização do julgamento, declarando que é inconstitucional julgar um ex-presidente.

"Isso não faz sentido", rebateu o líder da maioria democrata no Senado, Chuck Schumer. Essa "teoria" seria como conceder um "favor constitucional especial" aos presidentes.

Grande crítico de Trump, o senador republicano Mitt Romney é uma das poucas vozes de seu partido a apoiar o procedimento, embora não tenha informado seu voto publicamente.

Romney foi o único republicano a condenar o magnata do mercado imobiliário em seu primeiro impeachment, em fevereiro de 2020, por sua suposta pressão sobre a Ucrânia para prejudicar Biden. O presidente foi absolvido pela maioria republicana no Senado.

Desta vez, o senador democrata Patrick Leahy presidirá o processo, e não o presidente da Suprema Corte, John Roberts.

O adiamento do julgamento para 9 de fevereiro é produto de um acordo entre democratas e republicanos. Com isso, Trump terá tempo para preparar sua defesa, e Biden, a possibilidade de que o Senado confirme seu gabinete e - ele espera - de que o Congresso aprove seus primeiros grandes projetos legislativos.

Até o momento, o presidente vinha-se mantendo distante do debate sobre o processo de impeachment de seu antecessor.

"Acho que isso precisa ser feito", disse ele, ontem, porém, em entrevista à rede CNN.

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