Câmara de São João de Meriti deve votar hoje projeto que reconhece João Cândido como herói da cidade

Cíntia Cruz
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Candinho, de 81 anos, é o filho caçula de João Cândido. Ele nasceu em São João de meriti e mora até hoje na cidade

No ano em que a morte do marinheiro João Cândido Felisberto completa cinco décadas, a cidade de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, pode reconhecer o líder da Revolta da Chibata como herói do município. O projeto de lei que pode fazer justiça à história deverá ser votado nesta terça-feira, na Câmara de Vereadores.

No último dia 19, o marinheiro teve o nome inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas do Estado do Rio de Janeiro. A publicação fica na Alerj e é aberta à visitação. Hoje, o reconhecimento pode vir da cidade onde o Almirante Negro — que nasceu no Rio Grande do Sul — viveu 40 anos de sua vida, até sua morte, em 6 de dezembro de 1969.

— O fato de ele ter vivido aqui por mais de quatro décadas o torna parte da história da cidade. Ele já faz parte da história do Brasil — afirma Adalberto do Nascimento Cândido, o Candinho, de 81 anos, caçula e único filho vivo de João Cândido.

Além da lei, movimentos sociais querem que seja criado na cidade um corredor cultural com o nome de João Cândido. Para Ercília Coelho de Oliveira, integrante do Conselho Municipal de Igualdade Racial de São João de Meriti (Comira), a participação desses movimentos foi fundamental para que o projeto de lei fosse criado:

— Esse projeto de lei é uma luta de movimentos, como a Pastoral Afro, a Casa da Cultura, Associação de Amigos do Museu Marinheiro João Cândido, o Comira, a Comissão da Verdade da Escravidão Negra da OAB/São João de Meriti. Essa luta ganhou força com a recomendação do Ministério Público.

O Ministério Público Federal (MPF) recomendou ao município de São João de Meriti a instalação de placas que identifiquem os locais de trajetória de João Cândido no município, e que seja estabelecido, junto com os familiares do marinheiro, uma agenda de medidas de reparação à sua memória na cidade.

Há ainda a possibilidade de João Cândido virar herói nacional. O projeto de lei do deputado federal Chico D’Ângelo (PDT) inscreve o marinheiro no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria. O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSC) pediu que o texto passasse antes pela Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, da qual é presidente. A lei estadual já sancionada é de autoria de André Ceciliano e Waldeck Carneiro, ambos do PT. Já o projeto de lei municipal é assinado por Aldinho Hungria (MDB).

Luta por museu já dura mais de uma década

Em São João de Meriti, é esperado há mais de dez anos o Museu Marinheiro João Cândido. Hoje, ele funciona em um espaço provisório, no Edifício Antares, no Centro de Referência de Direitos Humanos, em Vilar dos Teles, mas a proposta inicial é que seja erguido na Casa do Embaixador, no Morro do Embaixador, na Vila São José.

Para o projeto, que prevê aparelhamento do museu — com biblioteca e centro de documentação — e obras de infraestrutura no entorno, o valor total é de R$ 3,26 milhões. Desses, 2,13 milhões já foram captados.

Em nota, a Prefeitura de São João de Meriti informou que as placas de identificação recomendadas pelo MPF serão feitas em janeiro. Uma primeira placa será colocada na casa onde morou o marinheiro. A outra, no corredor cultural. A terceira placa será fixada busto de João Cândido, na Praça da Bandeira. Sobre a agenda de medidas de reparação, a prefeitura disse que o Serviço de Assistência Social elaborou um relatório oficial sobre a família de João Cândido que mora no município. Esse relatório será enviado ao MPF, ao governo, à OAB/SJ, à Câmara e ao Conselho Municipal de Igualdade Racial de São João de Meriti (Comira) com a proposta de estabelecer as ações de reparação, que serão definidas caso a caso.

Em relação ao museu, disse que as obras do entorno da Casa do Embaixador, no Morro do Embaixador, devem começar em janeiro. A licitação foi realizada e o projeto inclui uma quadra poliesportiva, um espaço de ginástica e equipamentos de lazer para a comunidade. O projeto tem um custo de pouco mais de R$ 900 mil e os recursos virão do Ministério dos Esportes. A obra no entorno da Casa do Embaixador irá propiciar a revitalização da área e trata-se de uma demanda vinda da própria população local, que gostaria de não perder o espaço que hoje é usado como campo de futebol e lazer da população.

Já as obras da Casa do Embaixador, casarão antigo, da primeira metade do século XX, que será restaurado para abrigar o Museu Marinheiro João Cândido, uma biblioteca e um centro de documentação, estão com as licitações bem adiantadas, informou a prefeitura. A previsão é que as obras comecem até março do ano que vem. Outra etapa, que também terá início em 2020, será a melhoria do acesso ao Morro do Embaixador com a pavimentação do local. O prefeito, Dr. João, tem empenhado esforços para captar mais recursos e valorizar a memória do João Cândido.

Revolta da Chibata

A Revolta da Chibata aconteceu em 1910, quando marinheiros, liderados por João Cândido, se revoltaram após um deles ser castigado com 250 chibatadas. Eles tomaram o navio e ameaçaram bombardear o Rio de Janeiro. João Cândido redigiu uma carta na qual os revoltosos exigiam dos comandantes o fim dos castigos. Após a revolta, João Cândido ficou conhecido como Almirante Negro, mas foi expulso da Marinha junto com outros envolvidos.