Câncer persiste, e Bruno Covas passará por novo tratamento

GUILHERME SETO
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 30.12.2019 - O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), na sala de reuniões da Prefeitura de São Paulo, no Viaduto do Chá, durante entrevista exclusiva para a Folha de São Paulo. (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os resultados da biópsia dos linfonodos ao lado do pâncreas do prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), apontaram que o câncer não desapareceu após a quimioterapia e que ele precisará continuar seu tratamento com sessões de imunoterapia.

O diagnóstico foi anunciado nesta quinta-feira (27) pelos médicos que cuidam de Covas, 39, no hospital Sírio-Libanês, na Bela Vista, região central de São Paulo. O prefeito já recebeu a primeira dose na quarta-feira (26).

Na semana passada, os médicos disseram que o prefeito teve uma reação excepcional à quimioterapia, e que o tumor na região do estômago e a metástase no fígado haviam desaparecido nos exames médicos.

Restava apenas a biópsia dos linfonodos, que diria se existiam ou não células tumorais no local, que está aumentado em relação ao tamanho normal.

Como o resultado foi positivo, os médicos recomendaram a imunoterapia.

"A terapia a que ele se submeteu até agora foi extremamente eficiente, mas não foi suficiente", disse o infectologista David Uip, que encabeça a equipe que trata do prefeito.

A imunoterapia é um dos tratamentos mais recentes aplicados ao câncer. O oncologista Artur Katz explica que, quando há um tumor, o sistema imunológico deveria atacá-lo, mas que o tumor o coloca em uma espécie de transe. As drogas da imunoterapia buscam romper esse transe e fazer com que o sistema ataque o câncer.

Os efeitos adversos são incomuns, diz Katz, mas podem envolver excesso ou diminuição da atividade da tireoide ou do pâncreas e alguma sensação de fadiga.

Com seu sistema imunológico reforçado, o prefeito foi liberado pelos médicos para retomar suas atividades públicas paulatinamente. Covas não parou de trabalhar, mas tem evitado grandes aglomerações e tarefas que possam exigir esforço físico em excesso.

A imunoterapia será realizada a cada três semanas e, segundo os médicos, deverá ser aplicada em Covas durante seis meses, ou seja, até agosto, com exames realizados a cada dois meses.

Depois disso, a junta médica voltará a tomar uma decisão sobre o tratamento do prefeito, e uma cirurgia não está descartada.

Diferentemente da quimioterapia, que durava 36 horas, as sessões de imunoterapia deverão durar cerca de meia hora e não exigirão internação.

Os médicos disseram que Covas não precisará se submeter a mais quimioterapia --ele passou por oito sessões entre outubro e fevereiro, com 100% da dose, ou seja, não precisou diminuir a medicação devido a reações físicas adversas, o que é comum em casos similares.

Os exames de ressonância, PET-scan (tomografia por emissão de pósitrons) e endoscopia feitos na semana passada não identificaram células tumorais na transição entre esôfago e estômago (ponto de origem do câncer) nem no fígado de Covas.

Como a biópsia mostrou anormalidades nos linfonodos, os médicos afirmam que é possível que exista ainda algo da doença também nos locais mapeados na semana passada e que não tenha sido identificado devido aos limites dos exames de imagem. De toda forma, segundo eles, isso não tem importância, já que as drogas da imunoterapia vão agir no corpo todo.

Nesta quinta, Covas trabalhou normalmente. Despachou com os membros da gestão mais próximos, o secretário-executivo Gustavo Pires, o secretário de Governo, Mauro Ricardo, e o chefe de gabinete, Vitor Sampaio.

À tarde, fez reuniões sobre a São Paulo Fashion Week e sobre a Faculdade de Direito da USP. Nelas, não fez menção à nova fase do tratamento. Segundo os presentes, agiu naturalmente, como em qualquer outro encontro anterior.

"Achei que estava muito sereno, tranquilo. Brincalhão, inclusive. Falou do Carnaval, disse que eu sou o maior folião de São Paulo e brincou que deveria levar comigo o Rubens Rizek [secretário de Justiça], falando do mau humor dele", diz Alexandre Modonezi, secretário de Subprefeituras que participou da reunião sobre a faculdade e que foi um dos responsáveis pela organização do Carnaval na cidade.

O câncer do prefeito foi descoberto no final do ano passado. Em 23 de outubro, Covas foi internado no Sírio-Libanês para tratar de uma infecção de pele na perna direita.

Dias depois, uma trombose foi constatada no mesmo membro. No dia 28, Covas recebeu diagnóstico de câncer. O adenocarcinoma de Covas foi localizado inicialmente em um esfíncter na junção entre o esôfago e estômago -chamado cárdia-, e foram identificadas lesões no fígado e nos linfonodos ao lado do pâncreas.

O prefeito manteve sua agenda durante todo o tratamento quimioterápico, tendo feito numerosas reuniões dentro do próprio hospital.

No início, Covas brincava que parecia que estava recebendo placebo e que não estava sentindo efeitos negativos. Nas últimas sessões, no entanto, o tucano passou mal e diminuiu o ritmo intenso que vinha imprimindo ao trabalho.

Na semana passada, a notícia sobre o desaparecimento dos tumores foi comemorada pelo prefeito, mas com cautela. "Mais uma batalha vencida. A guerra continua", escreveu Covas em suas redes sociais.

Caso o tucano precise se licenciar do cargo depois de abril, seus aliados já construíram um plano segundo o qual o vereador Celso Jatene (PL), ex-secretário de Esporte do petista Fernando Haddad, irá se tornar chefe do Executivo paulistano provisoriamente, conforme revelado pela reportagem.

Como Covas assumiu a prefeitura com a saída de João Doria para o governo do estado, não há vice-prefeito. O primeiro na linha sucessória é o presidente da Câmara, Eduardo Tuma (PSDB), e o segundo, Milton Leite (DEM), vice-presidente da Câmara.

No entanto, caso eles ocupem o cargo depois de abril, não poderão disputar a reeleição como vereadores, segundo a Constituição. Para evitar isso, Jatene, segundo vice-presidente da Câmara e terceiro na linha sucessória, que decidiu não disputar a reeleição, ficará na função, caso necessário.