Cérebros sociais são sincronizados

A vertigem de antagonismo que caracteriza o momento atual do país preocupa os cidadãos conscientes e também os cientistas. Clima estranho esse, que faz com que tantas pessoas se agridam e se matem impiedosamente, enlouquecidas por seus preconceitos, com as emoções descontroladas. Como sempre, há explicações de vários níveis — políticas, antropológicas, econômicas, culturais, psiquiátricas. Todas com seu quinhão de verdade, diagnosticando um caldo espesso de fatores que explodem nesta tragédia brasileira (mundial?).

Para a psicologia e a neurociência, o que explicaria esse comportamento distópico tão destruidor? Na raiz de tudo talvez esteja a característica marcante do nosso cérebro social em sintonizar com outros para agir em conjunto. Para o bem ou para o mal. São os comportamentos afiliativos e seus determinantes cerebrais. Igrejas e religiões, times de futebol, ideias e partidos políticos, gangues e milícias...

Já existem estudos sobre os vieses coletivos e seus determinantes psiconeurais. Por exemplo: equidade versus igualdade. Não pensem que são sinônimos. As regras de equidade admitem que as recompensas individuais sejam proporcionais ao esforço de cada um, em um grupo. Uma equipe realiza alguma tarefa, e quem se dedica mais, recebe mais. Típico da cultura competitiva. As regras de igualdade são diferentes: propõem que as recompensas sejam iguais no grupo, independentes dos resultados individuais. Típico da cultura cooperativa. Os dois polos nem sempre se bicam, e já se vão décadas de luta política entre eles, polarizadas, radicais e muitas vezes mortais.

Se reduzirmos a questão a um par de pessoas que cooperam ou não em alguma tarefa, como será que seus cérebros interagem? E como será que elas avaliam sua contribuição? Como será que almejam ser recompensadas? Não é coisa pouca, como podem alguns supor. Define a construção de uma educação fundada em habilidades socioemocionais, que talvez permita viabilizar um mundo menos polarizado e mais cooperativo.

O tema motivou o trabalho de um grupo de pesquisadores de Shenzen, na China. A equipe recrutou cerca de cem voluntários saudáveis, divididos aleatoriamente em duplas para realizar uma tarefa simples, seja de modo cooperativo, ou cada um por si. Ao mesmo tempo, seus cérebros eram acompanhados por hiperescaneamento cerebral, com o registro simultâneo da atividade neural das duplas. A tarefa consistia em mentalizar um tempo proposto pelos pesquisadores em cada rodada: 6 segundos, por exemplo. A dupla tinha que calcular a passagem desse intervalo, e apertar uma tecla. A cada rodada eram informados da diferença do tempo estimado e o tempo real. Quem foi devagar tentava acelerar, quem foi rápido demais tentava diminuir o passo. Cooperativamente, ou não. Tudo sob registro simultâneo da atividade do córtex pré-frontal, aquele situado atrás da testa, que controla a atenção e regula o comportamento. O objetivo era conseguir mentalizar o tempo com precisão e rapidez.

Depois de várias sessões, cada dupla era recompensada com uma quantia em dinheiro, tanto maior quanto mais precisos os seus cálculos mentais de tempo. Cada voluntário devia também avaliar o quanto o resultado dependeu de si próprio ou do seu parceiro, e propor o quanto cada um merecia receber. Resumindo: as duplas cooperativas apresentavam alta sincronia de atividade cerebral, ao contrário das duplas independentes. Cérebros cooperativos, córtex pré-frontal vibrando em sintonia. O resultado do trabalho cooperativo era melhor: chegavam a uma avaliação final de tempo mais apurada e precisa. E finalmente: sua percepção da recompensa merecida era mais igualitária.

O trabalho dos pesquisadores revela que há esperanças na educação socioemocional. Se nossas crianças aprenderem a trabalhar em grupo, quem sabe formarão uma geração socialmente mais pacífica, compreensiva e cooperativa. Quem viver, verá. Quem sabe meus netos...

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