Caçadores de frio buscam geada e neve em regiões do Brasil onde nem há dados oficiais

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RIO - Esta semana começa com a previsão de muito frio no Sul, Sudeste e Centro Oeste. Dias de aventura para brasileiros cujo coração aquece à medida que o termômetro despenca. São caçadores de frio. Caçam geada, chuva congelada e neve. Fazem registros de temperaturas negativas extremas num país oficialmente tropical. Com sua paixão, revelam um Brasil que pouca gente conhece, instalando estações meteorológicas em áreas onde sequer há dados oficiais.

Muitos destes aficionados sabem ler e interpretar dados de satélite e de previsão das condições atmosféricas. Quando os primeiros cristais de gelo de uma geada começam a cobrir os campos, já estão a postos para registrar. Se neva, chegam antes dos primeiros flocos.

Quem caça o frio está no encalço de uma espécie em extinção: os anos de 2016, 2019 e 2020 são os mais quentes da História. Se ano passado o inverno fraco passou despercebido, em 2021 estamos tendo um “de verdade”, atestado nas cerca de 200 estações montadas por caçadores em todo o país. Bancadas com dinheiro próprio, elas constroem bases de dados e contribuem para revelar os extremos que quase sempre acontecem em lugares remotos, em vales profundos entre altas montanhas.

A tribo se reúne nas redes e fóruns na internet, como os grupos Brasil Abaixo de Zero e Mantiqueira Abaixo de Zero. Carlos Dias, um dos amantes de frio mais experientes do país, estima em cerca de 200 os caçadores que “fazem jus ao nome”, 70% deles moradores dos estados do Sul. Em comum, uma paixão militante.

— Não sou meteorologista amador. Sou caçador de frio mesmo, esse é o termo certo. Gosto de descobrir lugares gelados, testemunhar geadas e, claro, neve — destaca o economista catarinense Fernando Keiser, que tem 18 estações meteorológicas ativas no Sul do Brasil. — Não ganho nada com isso. É um hobby, mas acabo ajudando o pessoal do turismo e da agricultura com as informações que coleto.

A meca dos caçadores é o Parque Nacional do Itatiaia, situado na Serra da Mantiqueira, onde Rio e Minas se encontram (ver texto abaixo). Quem garante o posto de lugar mais frio do Brasil ao parque são os dados transmitidos em tempo real pelas duas estações meteorológicas instaladas pelos próprios amantes do frio antes mesmo da estação oficial, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

As menores temperaturas do Brasil vêm especificamente da estação do Vale do Campo Belo, aos pés das Agulhas Negras, a 2.440 metros de altitude, ativa desde abril deste ano e que registrou -12°C em 1 de julho. A região Sul ficou em -9°C, em Bom Jardim da Serra (SC).

— A estação foi doada ao parque e fica junto à nascente do Rio Campo Belo. É resultado de um esforço enorme de várias pessoas para que os dados fossem oferecidos online e de graça para toda a população, atualizados a cada minuto. Achamos que será útil à comunidade científica, aos montanhistas e turistas que frequentam o local — afirma o geógrafo William Siqueira, um dos apaixonados por frio que se reuniram para comprar e instalar a estação e as antenas repetidoras de sinal de internet.

Uma estação custa em média R$ 4 mil, e as três antenas ficaram em R$ 5 mil. Na semana passada, Siqueira e outros integrantes do Mantiqueira Abaixo de Zero fizeram uma vaquinha para pagar peças de reposição e se organizaram para fazer a manutenção.

O professor de meteorologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) Ernani Nascimento diz que os caçadores de frio fazem registros que de outra forma não seriam possíveis, obtendo dados de campos de altitude, baixadas em planaltos e montanhas, locais muito remotos e nem sempre contemplados com estações oficiais.

— A atmosfera é vasta e o Brasil, enorme. Estes voluntários coletam dados em muitos lugares e contribuem com a ciência. É uma forma de participação da sociedade em nosso trabalho — observa Nascimento.

Morador de Maria da Fé, a cidade mais fria de Minas, Siqueira mantém o site climamariadafe.com.br, onde é possível ver dados de 180 estações Brasil afora e os rankings diários e anuais de temperatura. Oito dessas estações foram instaladas pelo próprio Siqueira em fazendas de azeite da Mantiqueira. As oliveiras, ele explica, precisam de pelo menos 300 horas de temperaturas abaixo de 7°C para produzir.

OK, o recordista de frio é o Parque de Itatiaia. Ganha nos quesitos de menor mínima, número de geadas e dias com temperaturas abaixo de zero — mais de 100 por ano. Mas neve é com o Sul.

Foi lá que os caçadores de frio descobriram outra pérola do gelo, diz Fernando Keiser. Ele é de Joinville, mas sua paixão pelo frio o fez se mudar primeiro para Bom Jardim da Serra e agora para São Joaquim — duas cidades de Santa Catarina que figuram com Urupema no ranking das mais frias do Brasil (ver abaixo). Graças a uma estação instalada por ele, foi possível descobrir mais um dos lugares de frio mais extremo do país.

O loteamento Terra do Gelo, em Bom Jardim da Serra, não é gelado apenas no nome. É uma geladeira natural, uma depressão no alto da Serra do Rio do Rastro, onde o ar frio fica acumulado e aprisionado. Caminha para ser o local mais frio do Sul. A estação meteorológica instalada lá por Keiser em julho de 2020 tem batido recordes: registrou -9°C em maio passado.

— Ela está desbancando as demais do Sul, só perde para as estações do Itatiaia. Mas estou esperando completar um ano no fim do mês para comparar com os dados — diz Keiser, competitivo.

O catarinense diz que o frio ajuda muito o turismo, mas que no Brasil quase nunca há infraestrutura adequada para entrar numa fria com conforto:

— Gostamos de ver os efeitos do frio, mas não de congelar. A sensação de frio é igual se está a -5°C ou a -12°C: você congela. É preciso saber se proteger.

A massa fria desta semana promete gelar o Centro-Sul, mas não há sinal de neve nos modelos de previsão meteorológica, para decepção dos caçadores. O frio, porém, está garantido, e eles esperam que dure, adiando a volta do calor.

— Ninguém caça calor. Dele, a gente foge — diz Carlos Dias.

Formado pelas Agulhas Negras (2.790 metros, pico culminante do estado do Rio de Janeiro e quinta maior montanha do Brasil) e as Prateleiras (2.539 metros), o vale onde nasce o Rio Campo Belo é frio o ano todo e gelado no inverno. O vale a 2.440 metros de altitude acumula o ar frio que desce das montanhas durante a noite, o que garante auroras glaciais.

O topo e as encostas das montanhas esfriam primeiro, assim que o sol começa a abaixar. Mas, como o ar frio é mais denso e pesado, ele desce para o fundo do vale. Quanto mais alto o lugar, mais pronunciado esse efeito.

— O Campo Belo tem as condições perfeitas. As pessoas tendem a achar que o topo das montanhas é mais frio, mas é o fundo das baixadas e vales de altitude que realmente gela. Eles acumulam o frio, que nas montanhas é dissipado em parte pelo vento — explica o caçador de frio e estudante de meteorologia Vinicius Lucyrio, que começou a buscar os extremos negativos da temperatura quando ainda era menino e transformou o sonho em profissão.

O posto de lugar mais frio do Brasil do Parque Nacional de Itatiaia, em especial do Vale do Campo Belo, é consenso entre os caçadores. Também comprovadamente gelado é o Morro da Igreja (SC), que este ano chegou a -7,5°C.

Mas, se o lugar mais frio é consenso, o mesmo não pode ser dito das cidades. O caçador de frio Fernando Keiser explica que dentro de um município pode haver grandes variações.

Os dados de 2021 ainda podem mudar muito porque o inverno está na metade e julho, o mês tradicionalmente mais frio, sequer terminou.

Segundo os dados de 2020, pelo registro de estações do Inmet e da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri)) coletados por Carlos Dias, as cidades mais frias, pela média anual, oram, na ordem: Urupema (SC), Bom Jardim da Serra (SC), São José dos Ausentes (RS), São Joaquim (SC), Painel (SC), Campos do Jordão (SP), Cambará do Sul (RS), Bom Jesus (RS), Vacaria (RS) e General Carneiro (PR).

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