Cabo de guerra entre Bolsonaro e governadores deixa dúvidas sobre isolamento

RICARDO DELLA COLETTA E THIAGO AMÂNCIO
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*ARQUIVO* BRASÍLIA, DF,  02.04.2020 - O presidente Jair Bolsonaro fala com apoiadores e com a imprensa ao sair do Palácio da Alvorada. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
*ARQUIVO* BRASÍLIA, DF, 02.04.2020 - O presidente Jair Bolsonaro fala com apoiadores e com a imprensa ao sair do Palácio da Alvorada. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) voltou a atacar governadores e prefeitos nesta quinta-feira (30) por terem adotado medidas de distanciamento social, como fechamento de escolas e comércios, e, segundo ele, não terem conseguido diminuir a contaminação do novo coronavírus.

Do outro lado desse cabo de guerra, governadores e prefeitos rebolam para equilibrar as medidas sanitárias para conter a doença com o custo econômico e político de manter os negócios parados -sobretudo em ano eleitoral.

"O Supremo [Tribunal Federal] decidiu que as medidas para evitar, ou para fazer a curva ser achatada, caberiam a governadores e prefeitos", afirmou o presidente nesta quinta (30). "Não achataram a curva. Governadores e prefeitos que tomaram medidas bastante rígidas não achataram a curva", continuou.

Não há estudos definitivos sobre o quanto as medidas de distanciamento adotadas pelos estados impactaram o número de casos, mas as previsões de pico da doença têm sido adiadas, o que, na avaliação de governadores, indica que as medidas têm dado resultado. No caso de São Paulo, por exemplo, primeiro previa-se que o número máximo de novas contaminações seria atingido ainda em abril, e agora se fala em maio.

O que se sabe é que, por enquanto, o gráfico continua em ascensão e o número de contaminados só aumenta.

Após a manifestação do presidente, o ex-ministro Sergio Moro escreveu em uma rede social que o número de vítimas "cresce de forma expressiva, infelizmente. Passamos de 5.000 mortos. Há uma incerteza em relação à evolução da pandemia. Cuide-se! Se não puder ficar em casa, tome cautelas ao sair", escreveu.

Parte dos governadores passou a antagonizar Bolsonaro, mas ao mesmo tempo começou a ceder às pressões e a anunciar uma flexibilização em cidades menores e com menos casos.

É o caso de João Doria (PSDB), em São Paulo. Na quarta (29), pediu que o presidente "saia dessa sua redoma de Brasília" e "venha ver as pessoas agonizando nos leitos e a preocupação dos profissionais da saúde". Enquanto isso, prevê uma reabertura gradual do comércio no interior a ser anunciada a partir do próximo dia 11.

Bolsonaro reagiu nesta quinta. "É o governador gravatinha de SP fazendo politicalha em cima de mortes. Zombando de familiares que tiveram seus entes queridos que morreram por vírus ou de outra coisa. É uso político do governador João Doria com essas pessoas".

Em Santa Catarina, o governador Carlos Moisés (PSL) autorizou a abertura de restaurantes, shoppings e academias. O número de contaminações no estado disparou desde então.

No Rio Grande do Sul, o governador Eduardo Leite (PSDB) também tem planejado a reabertura do estado, com regras diferentes de acordo com o nível de contaminação de cada região.

Na Bahia, embora não haja um decreto determinando o fechamento do comércio no estado, o governador Rui Costa (PT) e o prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM), levantam dúvidas sobre a realização do carnaval no ano que vem. O estado já cancelou as festas juninas do estado (maior festa popular do calendário baiano).

Por outro lado, na Paraíba, o governador João Azevedo (Cidadania) falou a uma emissora de TV local que não há perspectiva de reabertura econômica. "Nós estamos subindo essa ladeira ainda", disse.

Já no Maranhão, o governador Flavio Dino (PCdoB) disse, em entrevista ao UOL, que estuda implementar na capital São Luís um lockdown, ou seja, isolamento completo, com proibição de circulação nas ruas. A Justiça se antecipou e determinou nesta quinta o fechamento completo da região metropolitana. A capital atingiu 100% de ocupação dos leitos de UTI na rede pública estadual na última terça

No Amazonas, o governador Wilson Lima (PSC) viu a Assembleia Legislativa aprovar a abertura do pedido de seu impeachment nesta quinta. Protocolado pelo Sindicato dos Médicos do Amazonas, a denúncia acusa o governador de má gestão na saúde pública. Manaus tem uma das situações mais dramáticas do país, com hospitais lotados e enterros feitos em massa em covas coletivas.

Em Goiás, o governador Ronaldo Caiado, outrora aliado do presidente, viu o índice de isolamento no estado cair e o número de casos confirmados crescer, e afirmou que cogita endurecer mais as restrições e mandar fechar o comércio das cidades onde as prefeituras locais autorizaram a abertura

No âmbito municipal, tem afligido prefeitos a falta de uma articulação a nível federal, segundo o secretário-executivo da Frente Nacional de Prefeitos, Gilberto Pierre.

Ele afirma que "o governo desconstruiu as instâncias de diálogo federativo", e cita o fato de que o atual comitê de crise do vírus é composto apenas por membros do governo federal.

"Existe uma lacuna e há bate-cabeça. Governador proibindo avião, prefeito proibindo ônibus municipal, é um reflexo dessa falta de articulação. O mesmo acontece quando se discute a reabertura, com prefeito tomando decisão diferente de governador, e uma constante judicialização. Pedimos ao governo que construa um protocolo, com critérios científicos", afirma.