Cabral é ouvido pela primeira vez na Justiça como delator e não será mais filmado em depoimentos

Juliana Castro

RIO - O ex-governador Sérgio Cabral presta depoimento nesta segunda-feira ao juiz Marcelo Bretas. Esta é a primeira vez que ele é ouvido como delator, já que o acordo de colaboração dele com a Polícia Federal foi homologado pelo ministro Edson Fachin, mesmo a contragosto do Ministério Público Federal (MPF).

Com isso, Cabral não será mais filmado nos depoimentos, procedimento adotado com delatores e que valeu para o ex-governador na oitiva de hoje. Bretas até brincou com a situação ao falar para Cabral sentar de costas para a câmera, dizendo que ele foi promovido.

Logo no início, o MPF falou que a validade e a chancela do selo de colaborador só serviria quando fatos do processos fossem elucidados. Bretas, então, disse a Cabral:

— O MPF não ter sido parte não desnatura a colaboração. Ainda assim é uma colaboração e o senhor será tratado dessa forma.

Cabral começou o depoimento confirmando, pela primeira vez, que sua esposa, Adriana Ancelmo, sabia da existência de seu caixa paralelo:

— Ela sabia do caixa paralelo, sabia que meus gastos eram incompatíveis com a minha receita formal.

O ex-governador disse ainda que ela "usufruiu" largamente desse caixa. No depoimento de hoje, Cabral confirmou as acusações dos procuradores.

Segundo o MPF, o dono do restaurante Manekineko, Italo Garritano, ajudou a ocultar cerca de R$ 4 milhões desviados por Sérgio Cabral em 16 oportunidades entre 2014 e 2016 por meio do escritório de advocacia de Adriana Ancelmo.

Italo Garritano confirmou a denúncia do MPF. Ele repassava, por meio do pagamento de boleto, dinheiro ao escritório de Adriana Ancelmo para que eles pagassem os funcionários de seu restaurante. Isso para evitar, como vinha ocorrendo, que o estabelecimento fosse alvo de mais ações trabalhistas por conta dos pagamentos "por fora" dos salários dos empregados. Como delator, Garritano se comprometeu a pagar 36 parcelas de R$ 50 mil em multas.

Entenda as acusações do processo

O juiz da 7ª Vara Criminal do Rio aceitou em outubro de 2018 denúncia. O MPF acusa o ex-governador, Adriana Ancelmo, o então sócio dela no escritório de advocacia, Thiago Aragão, e o dono da rede de restaurantes Manekineko Italo Garritano pelos crimes de lavagem de dinheiro, entre 2014 e 2016, pela ocultação de cerca de R$ 4 milhões desviados dos cofres públicos. O grupo teria emitido notas fiscais falsas relativas a serviços prestados pelo escritório de Adriana ao restaurante japônes.

Além do crime de lavagem de dinheiro, a mulher de Cabral, seu ex-sócio e Garritano, que se tornou delator, também são acusados de terem falsificado documentos públicos. Eles teriam fraudado carteiras de trabalho de funcionários com intuito de desonerar-se do pagamento de encargos e direitos trabalhistas, segundo o MPF.

Em delação premiada, Garritano explicou ao MPF como parte do dinheiro do esquema era lavado por meio do escritório Ancelmo Advogados, em que Aragão era sócio de Adriana.