Cabral, Garotinho, Cunha: a política na cadeia e a ira popular


O Rio de Janeiro está em pé de guerra. Desta vez não se trata, apenas, de tráfico, os tiroteios, as balas perdidas e achadas. O Estado está falido. Dois ex-governadores presos. Sérgio Cabral acusado pela Lava Jato e Garotinho por compra de voto. Os dois se juntam, no rol dos encarcerados, a Eduardo Cunha, estrela em ascensão da política conservadora fluminense até cair em desgraça em Curitiba.

A situação de Cabral é, neste instante, a mais exposta. Sua prisão é novidade midiática com muitos atrativos: anel de R$ 800 mil dado à primeira dama por empreiteiro amigo, obras faraônicas com indícios de sobrepreço, heliportos, condomínios de luxo, fachadas em prédios chiques. No xadrez da política nacional Cabral é uma figura mais importante do que Garotinho e talvez mais do que Cunha. Comandou o Executivo durante muito tempo. Esteve envolvido em muitos e grandes projetos. Elegeu seu sucessor, Pezão. Foi padrinho do prefeito Eduardo Paes. Trabalhou com Lula e Dilma. Sua prisão preventiva foi acompanhada ao vivo pelas TVs. Telejornais reproduziram extensos documentos de promotores e do juiz com o rol de acusações, suspeitas e indícios de recebimento de propinas em obras como as do Maracanã, o Arco Metropolitano e o PAC das favelas.

Obras no passado, diga-se, saudadas pela imprensa. Uma dessas é o teleférico do Complexo do Alemão, na zona norte, um sistema importado da Colômbia e que interliga o conjunto de favelas com cabos e gôndolas. Já fui lá. Quando funcionava, pois depois de inaugurado o sistema chegou a parar diversas vezes. As empresas que cuidavam do sistema foram trocadas. Ao que parece, um projeto não sustentável financeiramente. Obra de R$ 210 milhões, segundo dados oficiais. Pensada, também, como atração turística. O visitante que embarcasse em uma das gôndolas sobrevoaria um conjunto de favelas com demandas urgentes, entre elas, o saneamento básico. Para mim sempre foi difícil entender uma obra como aquela. Em vez de fazer turismo, não seria melhor, antes, pegar o dinheiro e tentar resolver os problemas que afligem diretamente a população?

Foi a partir da construção das torres deste teleférico que a polícia pode ocupar o complexo de favelas no ano de 2010. Na época içou-se uma bandeira do Brasil em uma das torres. Foi uma operação de enorme cobertura midiática. Lembro da minha vizinha, no bairro de Laranjeiras, zona sul, sair de braços abertos na rua rezando e pedindo a Deus pela cidade. A imprensa carioca aplaudiu como uma nova era no Rio de Janeiro. Naquele tempo, Cabral era retratado como um governante dinâmico e poucos levantavam questões sobre aditamentos de contratos ou mesmo a urgência de se construir um teleférico em um complexo de favelas que carecia (e ainda carece) dos serviços mais básicos. Rumo à Copa do Mundo e às Olimpíadas, o Rio de então era uma festa para governantes, empreiteiras, consórcios e patrocinadores associados. A PM, que recebia seus salários em dia, ocupava favelas em lugares estratégicos – e o Rio transpirava sucesso.

Os tempos mudaram.

Cabral está preso preventivamente e dia sim, dia não, servidores estaduais, inclusive os de segurança, vão às ruas para protestar contra o pacote do governo que pode atingir seus salários (atrasados) e aposentadorias. É a nova guerra do Rio. Desta vez sob uma espécie de tempestade perfeita: servidores nas ruas com rendimentos sob risco e imagens na TV de bens adquiridos por ex-governantes supostamente com dinheiro de propina. Poucas vezes foi tão direta, na cabeça do telespectador, a ligação entre corrupção e prejuízo pessoal. Por mais simplista que a explicação pode parecer, a culpa é do Cabral. E de Temer. E de Cunha. E de Dilma. E de quem vier pela frente enquanto a crise econômica perdurar e a política continuar a ser o alvo mais palpável da ira popular.

Com a reforma da Previdência batendo à porta – e a possível retirada de benefícios para muitas categorias de servidores e de direitos para a maioria da população – e a crise dos Estados se espalhando, é de se perguntar se o Rio não é neste momento um aperitivo para o que virá pela frente no Brasil. Oremos.

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Imagem: Tânia Rêgo/AgênciaBrasil