Cacique brasileiro e artista francesa levam luta por indígenas do Brasil ao sudeste da França

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Eles atravessaram o oceano Atlântico e levaram a batalha pelos povos indígenas brasileiros para o pé dos Alpes franceses. O cacique Darci Tupã Nunes de Oliveira e a artista e ativista francesa Delphine Fabbri Lawson se conheceram por meio de um trabalho de luta e resistência no Brasil que atualmente realizam no sudeste da França.

Daniella Franco, da redação da RFI

No Brasil, Tupã e Delphine fundaram o Instituto Nhandereko, que foi vinculado à organização de pesquisa e criação Anahata, que ambos também criaram e gerenciam em Grenoble, onde estão baseados atualmente. Em entrevista à RFI, Delphine contou como o casal atua.

"O Instituto Nhandereko foi criado na cidade natal de Tupã, uma cidade Guarani Mbya, com o objetivo de fazer trocas culturais para cuidar da natureza, valorizando a cultura ancestral Guarani Mbya, mas também outras culturas indígenas através da agricultura, a espiritualidade, a medicina. Essas diferentes ações que desenvolvemos com o Instituto Nhandereko quisemos conectar aqui com a Anahata, uma outra estrutura baseada na França. Colocamos as duas em relação para fazer aqui o mesmo que propomos no Brasil, em locais de natureza, como a região da Chartreuse e do Vercors, para reconectar diferentes públicos", diz.

O trabalho que Delphine Fabbri Lawson realiza junto aos povos indígenas não é recente e se tornou célebre na França. Recentemente, ela expôs algumas de suas fotos em uma imensa mostra sobre a Amazônia no Museu Dauphinois, em Grenoble. Ela se emociona ao relembrar o momento em que essas imagens foram produzidas.

"Esses retratos foram feitos durante a Marcha de Mulheres Indígenas, em 2019, em Brasília, para defender o direito delas às terras demarcadas, em perigo devido ao governo Bolsonaro. Foi um momento muito forte de manifestação dessas mulheres, que fizeram rituais durante horas, diante da sede do governo brasileiro", afirma.

Uma conversa, durante a manifestação, marcou particularmente a experiência da artista francesa em Brasília. "A uma das mulheres na marcha, que carregava um bebê, eu perguntei: 'você não tem medo de trazer o seu filho aqui, diante de todos esses militares armados?', e ela me respondeu: 'ele nasce com esse espírito de resistência porque ele não tem escolha, então, ele precisa correr esse risco e vir protestar comigo. Isso faz parte de sua história e sua existência'", relembra.

Uma marca permanente na vida

A artista trabalha junto aos povos nativos da América Latina e da Ásia há mais de duas décadas e começou a se dedicar ao povo tupi-guarani há cerca de 15 anos. Ela relata que o início deste percurso não foi simples e marcou sua vida de forma permanente.

"Alguns antropólogos estavam procurando um fotógrafo para arquivar as pesquisas deles na Amazônia. E eu era muito jovem e não sabia exatamente o que era a Amazônia. Queria ser repórter de guerra e ir em busca da verdade para transmiti-la. Mas disse sim a esse trabalho e descobri o Brasil por acaso, através da Amazônia, onde os primeiros dias e semanas foram traumatizantes. Eu saí de uma periferia urbana para chegar nesse mundo maravilhoso, uma experiência que eu chamo de traumatismo positivo."

Para ela, essa vivência foi primordial não apenas à sua carreira, mas à sua evolução pessoal. A artista define esse trabalho como "um engajamento para a vida inteira".

"Isso abriu uma parte do meu espírito e desde então eu soube que minha vida estaria para sempre conectada aos povos nativos. Passei alguns meses no Acre, foi transformador. Voltei para a França quando essa missão terminou, com um outro olhar sobre o mundo. Depois, a cada ano, quando eu podia, organizava meu trabalho e projetos voltados ao Brasil", relembra.

"Continuei a investir na defesa dos direitos dos indígenas e a ajudá-los a desenvolver projetos que eles desejassem. Anos depois, fui batizada como 'Padju' pelo povo Guarani Mbya e hoje é como estar em família. Essa imersão para mim é importante no meu trabalho como artista, mas também como membro desta família por quem fui adotada", reitera.

Uma luta em família

O engajamento de Delphine resultou na união com o cacique Darci Tupã Nunes de Oliveira, da etnia Guarani Mbya, e na chegada do bebê Vera Xunu, hoje com sete meses. Tupã contou à RFI sobre como ocorreu sua vinda à França.

"Acredito que na nossa vida haja encontros sagrados e foi o que ocorreu com a 'Padju', a Delphine, há três anos. Ano passado, a convite dela, resolvi embarcar nessa aventura muito mágica. Vim para cá com esperança de fortalecer a luta pelo meu povo guarani, já que no Brasil nossos governantes não são a favor dos povos indígenas. Por isso, nossa batalha hoje é pela demarcação de nossas terras", salienta.

O cacique também descreveu como foi sua adaptação em Grenoble, onde chegou a ser recebido pelo prefeito da cidade, o ecologista Éric Piolle. Tupã afirma que foi acolhido com respeito e carinho na França, um comportamento que raramente percebeu junto aos brasileiros.

"No Brasil há muitos preconceitos não só em relação às nossas lutas, mas quando as pessoas veem o índio pintado, com seu cocar, ele não é valorizado. Quando eu cheguei aqui na França com os meus cocares, com os meus colares sagrados, em busca de um apoio melhor para o meu povo, fui recebido como um rei. O olhar dos franceses sobre a nossa cultura é magnífico. O índio, para eles, é o ser mais incrível da terra", afirma.

No segundo semestre deste ano, Delphine e Darci Tupã organizam um ciclo de conferências entre a França, a Itália e a Espanha, participam de um projeto de canto guarani nas escolas de Grenoble, e lideram um trabalho de colaboração para os futuros jogos indígenas dos povos das Américas, em dezembro, no Brasil. No ano que vem, o casal pretende realizar uma caminhada durante meses, saindo do Brasil em direção à América Central, passando por várias aldeias latino-americanas, em homenagem aos caminhos nômades realizados pelos povos indígenas.

O casal também promove uma série de videoconferências sobre a defesa do povo Guarani Mbya. O próximo encontro está previsto para ser realizado em 18 de julho, sob a mediação de Leslie Cloud, responsável pelo escritório dos povos nativos da ONG Normandy Chair For Peace. O evento pode ser acessado através da página da organização no Facebook.

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