Exército de civis armados supera o de militares oficiais. E isso deveria te preocupar

Handgun store shelves. A handgun for sale in the store.
Foto: Getty Images

O Comitê Olímpico Brasileiro (COB) realizou um evento na terça-feira (26/7) para anunciar o planejamento para os Jogos que começam daqui a exatos dois anos, em Paris.

Quem acompanhou o evento deve ter se perguntado onde estavam escondidas as projeções de medalhas e os atletas que prometem transformar o país em uma potência olímpica em uma modalidade sem muita tradição, até outro dia, por aqui: o tiro olímpico.

No Brasil, o número de atiradores registrados cresceu 474% desde 2018 e chegou, em 1º de julho, a um exército particular de 673.818 pessoas.

Em alta, os chamados CACs já superam o efetivo de policiais militares da ativa (406 mil) e das Forças Armadas (360 mil), segundo levantamento do jornal O Estado de S.Paulo.

O certificado engloba, além de atiradores desportivos, colecionadores e caçadores. Estes últimos também têm se espalhado em um país onde quase 85% da população vivem em áreas urbanas.

Basta um giro nos jornais e portais de notícias para entender que a caçada humana se desenrola nas ruas e nas casas das melhores famílias. Em muitos casos, revólveres e pistolas são os dispositivos encontrados por ex-namorados e ex-maridos para mostrar sua indignação com o término do relacionamento.

Na narrativa oficial, as armas adquiridas por civis (ou atletas de fim de semana de tiro esportivo) serviriam para desarmar os impulsos criminosos de quem acessa arsenais particulares no mercado paralelo e lança o terror nas áreas urbanas.

Na prática, conforme mostrou o Estadão, até criminosos com ligação com o PCC encontraram nas portarias de flexibilização ao porte e posse de armas assinadas por Jair Bolsonaro um tapete vermelho para adquirir legalmente seu depósito particular.

Uma investigação recente da Polícia Federal apontou que só um integrante da organização criminosa comprou duas carabinas, um fuzil, duas pistolas, uma espingarda e um revólver após conseguir do Exército Brasileiro o registro de CAC em junho de 2021.

O promotor de Justiça Lincoln Gakiya explica por que isso acontece. Se antes um integrante do PCC pagava de R$ 35 mil até R$ 59 mil num fuzil no mercado paralelo, agora consegue o mesmo equipamento por até R$ 15 mil e nota fiscal.

Vai chegar um tempo em que clientes de lojas do tipo poderão sair do shopping e manter reféns na joalheria ao lado sem precisar andar muito.

Na terça-feira (26/7), ex-ministros do Supremo Tribunal Federal, empresários, banqueiros e artistas assinaram uma carta em defesa da democracia e do processo eleitoral após a renovação de ataques ensaiados pelo presidente Jair Bolsonaro em um país tomado pelo rancor e armado até os dentes.

Na mesma semana, o ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira, indicou que assinará uma declaração conjunta, junto de seus pares das Américas, com o compromisso de respeitar a democracia em seu país.

O esboço da declaração tem em seu primeiro item a reafirmação do "compromisso de respeitar plenamente a “Carta da Organização dos Estados Americanos (OEA), assim como a Carta Democrática Interamericana e seus valores, princípios e mecanismos”.

A iniciativa foi celebrada por opositores de Jair Bolsonaro e todos os que se preocupam com o que pode acontecer com o país se forem reprisadas por aqui as cenas registradas no Capitólio, sede do Parlamento nos EUA, quando apoiadores de Donald Trump se armaram para evitar à força a posse de Joe Biden como presidente, em 2021.

Não é por menos. Lá, as Forças Armadas americanas serviram como breque aos impulsos golpistas incentivados pelo presidente derrotado.

Aqui um dos candidatos chama para si o papel de chefe dos militares e juiz do processo eleitoral. A dúvida é se os subordinados irão ou não brecar sua rebelião ensaiada em caso de derrota.

O aceno do ministro da Defesa aos democratas do continente serve como alívio, mas pode ser tarde demais.

As tropas oficiais são só alguns dos muitos contingentes armados dos quais se espera apenas bom senso caso seus desejos, inclusive eleitorais, não sejam atendidos e queiram registrar sua revolta na bala.

Unidos, os civis detentores de arsenais particulares já podem fazer frente aos agentes da chamada violência legítima do Estado, hoje incapazes de controlar e monitorar o destino de revólveres, pistolas e fuzis legalizados e espalhados pelo país. Isso deveria ser preocupante. Inclusive para os agentes de segurança oficiais.

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