Café em Manila recebe os autistas de braços abertos

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Guiado por uma terapeuta e cartões explicativos, Jose Canoy retirou com cuidado um waffle da grelha, desligou a máquina de waffles e pediu um prato ao pessoal da cozinha. Ele trabalha no Puzzle Cafe (Café Quebra-Cabeças), em Manila. A decoração do seu lugar de trabalho tem cores alegres e se inspira em um quebra-cabeças. Cada um dos movimentos seguintes de Canoy, foi estabelecido da mesma maneira: através de cartões com ilustrações. Há cartões específicos com orientações sobre como cumprimentar os clientes, oferecer-lhes o cardápio, servir a comida e, finalmente, entregar a conta.

Nesta foto de 7 de abril de 2015, Jose Antonio Canoy chega no Puzzle Cafe, copropriedade de sua família, no subúrbio de Quezon, norte de Manila, Filipinas. O irmão mais velho de Canoy, 20 anos, está entre os outros aprendizes com autismo no pequeno Café, local cujo objetivo, é inserir os funcionários especiais na sociedade, melhorar suas habilidades e aumentar o nível de consciência das pessoas sobre esta desordem. A OMS calcula que 1 entre 160 crianças ao redor do mundo são consideradas autistas. (AP Foto/Aaron Favilla).

Canoy tem 20 anos e está entre os sete funcionários que trabalham no Café — todos eles são portadores de autismo. O Café foi aberto com o objetivo de proporcionar aos seus trabalhadores um lugar para integrar-se à sociedade, melhorar suas habilidades sociais e despertar mais consciência sobre esse transtorno do qual pouco se sabe atualmente. Segundo as estimativas da Organização Mundial da Saúde, ele afeta uma criança em cada 160, em todo o mundo.

Nesta foto de 7 de abril de 2015, um aprendiz com autismo, à esquerda, faz um sanduíche, como parte de seu treinamento, no Puzzle Cafe, no subúrbio de Quezon, norte de Manila, Filipinas. Sete aprendizes com autismo trabalham no pequeno Café, cujo objetivo é inserir os funcionários especiais na sociedade, melhorar suas habilidades e aumentar o nível de consciência das pessoas sobre esta desordem. A OMS calcula que 1 entre 160 crianças ao redor do mundo são consideradas autistas. (AP Foto/Aaron Favilla)

O irmão mais velho de Canoy e coproprietário do Café, Jose Antonio, disse que sua família decidiu abrir o negócio para ajudar seu irmão mais novo a se tornar produtivo e poder garantir o seu futuro. A família também quer despertar mais consciência sobre o autismo e treinar outras pessoas como Jose. Sua meta é ajudá-las a encontrar empregos permanentes e livrá-las do ostracismo do qual geralmente são vítimas. Dois de seus aprendizes têm síndrome de Down, e a maioria dos estagiários têm mais de 20 anos.

“Nós estamos aqui para mostrar às pessoas que ser diferente não é ruim,” disse Jose Antonio Canoy. “Você pode viver com isso.”

O Café é um lugar onde os autistas se sentem bem-vindos. Sua decoração inclui brinquedos do trem Thomas e muitas imagens de quebra-cabeças em suas prateleiras. Ele foi inaugurado em novembro e realizou uma grande cerimônia de abertura em 11 de abril, bem a tempo para o mês da consciência sobre o autismo. O símbolo internacional do autismo é uma peça de quebra-cabeças.

Nesta foto de 7 de abril de 2015, Jose Canoy, à esquerda, um aprendiz com autismo, prepara um waffle, enquanto sua irmã, à direita, observa, durante seu treino no Puzzle Cafe, no subúrbio de Quezon, norte de Manila, Filipinas. Sete aprendizes com autismo trabalham no pequeno Café, local cujo objetivo é inserir os funcionários especiais na sociedade, melhorar suas habilidades e aumentar o nível de consciência das pessoas sobre esta desordem. A OMS calcula que 1 entre 160 crianças ao redor do mundo são consideradas autistas. (AP Foto/Aaron Favilla)

O Café ainda comercializa cartões e peças de artesanato feitas por jovens com autismo. Ali, as mesas, de formas criativas, combinam com cadeiras de cores alegres e brilhantes. Uma mesa em formato de folha traz a seguinte inscrição, pintada nas cores preta e vermelha: “Se você pensa que eu sou difícil de entender, imagine como é o mundo para mim.”

A doutora Anna Treichler, pediatra de desenvolvimento comportamental residente em Manila, disse que trabalhar no Café ajuda as pessoas com autismo porque isso permite que elas desenvolvam suas habilidades de interação social.

“Nós as tiramos de casa e as levamos para a terapia, para a escola e para a comunidade em geral, porque o objetivo é chegar à assimilação completa, ou ao grau de assimilação máxima que cada indivíduo possa alcançar,” diz ela.

O Café tem três chefs pagos — um deles tem autismo, porém é altamente funcional — e um caixa assalariado. Os nove estagiários com autismo e síndrome de Down ainda não podem trabalhar de forma independente, eles não recebem salários, disseram os proprietários. Quanto a Jose, ele recebe uma mesada de seus pais, pelo seu trabalho no Café.

De acordo com a OMS, os transtornos relacionados com o autismo são distúrbios complexos no desenvolvimento do cérebro, caracterizados por dificuldades na interação social e na comunicação e também por um conjunto restrito e repetitivo de interesses e atividades. As pessoas com autismo muitas vezes sofrem de estigma e discriminação.

Nesta foto de 7 de abril de 2015, um aprendiz com autismo lê as instruções dos cartões durante seu treinamento, no Puzzle Cafe, no subúrbio de Quezon, norte de Manila, Filipinas. Sete aprendizes com autismo trabalham no pequeno Café, local cujo objetivo é inserir os funcionários especiais à sociedade, melhorar suas habilidades e aumentar o nível de consciência das pessoas sobre esta desordem. A OMS calcula que 1 entre 160 crianças ao redor do mundo são consideradas autistas. (AP Foto/Aaron Favilla)

Josephine de Jesus, terapeuta da fala residente em Manila, trabalha no Café ajudando a treinar os estagiários. Ela diz que os membros autistas da equipe de trabalho tiveram que receber um empurrãzinho para trabalhar, alguns deles também se sentiram perturbados com as mudanças feitas em sua rotina. Ela preparou cartões com scripts para eles, para que pudessem iniciar conversas com os clientes.

“À medida que prosseguíamos com esse processo, fomos percebendo que eles podiam criar seus próprios diálogos baseando-se nos scripts que usamos no treinamento,” disse ela. “E eu achei isso fantástico; eles estão se tornando mais espontâneos.”

Nesta foto de 7 de abril de 2015, à direita, Jose Canoy, 20 anos, brinca com seus irmãos Jose Antonio à esquerda, e Isabella, no Puzzle Cafe, copropriedade de sua família, no subúrbio de Quezon, norte de Manila, Filipinas. O Café é um local que recepciona muito bem os autistas, oferece espaço tanto para autistas como para outros funcionários especiais e famílias com crianças autistas. (AP Foto/Aaron Favilla)

O projeto de inclusão da Unilab Foundation, uma fundação que patrocina o Puzzle Cafe, faz parceria com escolas e organizações para pesquisar e promover o emprego de pessoas com algum tipo de deficiência. A fundação da empresa farmacêutica Unilab fez um estudo mostrando os benefícios da contratação de pessoas com deficiência, e está desenvolvendo um manual de recursos humanos para equipar as empresas dispostas a contratá-las.

O líder do projeto, Grant Javier disse que a própria fundação contratou três funcionários autistas. Um deles é um artista gráfico que possui outro talento especial: ele consegue processar pilhas enormes de recibos de reembolso, e fazer a conciliação de um grande volume de cheques, com muita agilidade e eficiência.

Mona Magno Veluz, presidente nacional da Sociedade de Autismo das Filipinas, disse que não existem estudos específicos sobre a prevalência do autismo em seu país. Mas ela observa que os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos afirmam que estudos realizados na Ásia, Europa e América do Norte revelaram que cerca de 1 por cento da população sofre de autismo.

Isso indica que nas Filipinas, um país de quase 100 milhões de habitantes, existem cerca de um milhão de pessoas com autismo. No entanto, Veluz afirmou que devido à enorme escassez de especialistas e profissionais treinados, apenas 100.000 Filipinos foram diagnosticados formalmente, e somente a metade deles recebeu alguma intervenção como terapia ou educação especial. O país tem apenas cerca de 50 pediatras que atuam na área do desenvolvimento e menos de mil terapeutas ocupacionais e fonoaudiólogos, acrescentou ela.

Nesta foto de 7 de abril de 2015, Josephine de Jesus, terapeuta da fala, segunda à direita, conduz alguns exercícios com os funcionários do Puzzle Cafe, no subúrbio de Quezon, norte de Manila, Filipinas. Sete aprendizes com autismo trabalham no pequeno Café, local cujo objetivo é inserir os funcionários especiais à sociedade, melhorar suas habilidades e aumentar o nível de consciência das pessoas sobre esta desordem. A OMS calcula que 1 entre 160 crianças ao redor do mundo são consideradas autistas. (AP Foto/Aaron Favilla)

O filho de Veluz, Carl, também trabalha no Puzzle Cafe. Ela diz que o lugar fez da relação amigável com o autismo o ponto de destaque de sua estratégia de vendas, além de ter criado um modelo que pode ser seguido por outros estabelecimentos.

“Eu me sinto identificada com o lugar,” disse Rina de la Paz. Ela frequenta o Café junto com seu marido e seus dois filhos; um deles tem sete anos e é autista. Rina diz que se sente reconfortada ao saber que existe um lugar aonde ela e sua família podem ir e conversar com outras famílias que convivem com o autismo, sem sentir-se incomodada com os olhares curiosos ou a reação de outras pessoas.

O letreiro da porta do Café tem as seguintes palavras em inglês: “We’re A-OK”, elas deixam claro que ali, todos os autistas são bem-vindos.

Nesta foto de 7 de abril de 2015, um aprendiz com autismo, à esquerda, aprende como fazer um sanduíche, na cozinha do Puzzle Cafe, no subúrbio de Quezon, norte de Manila, Filipinas. Sete aprendizes com autismo trabalham no pequeno Café, local cujo objetivo é inserir os funcionários especiais à sociedade, melhorar suas habilidades e aumentar o nível de consciência das pessoas sobre esta desordem. A OMS calcula que 1 entre 160 crianças ao redor do mundo são consideradas autistas. (AP Foto/Aaron Favilla)

Teresa Cerojano
Associated Press