Cai a média de tempo no cargo de técnicos estrangeiros no futebol brasileiro

O Brasileiro de 2022 já pode ser considerado um marco na onda de treinadores estrangeiros no país. Até agora, dez nomes diferentes passaram ou seguem no comando de alguma das 20 equipes da elite. Um número recorde. Embora seja consenso de que o convívio com eles provoca impacto, ainda é cedo para identificar um possível legado. O caminho inverso, contudo, já é visível. Por serem tantos, os técnicos de fora já foram sugados pelo círculo vicioso das demissões. A queixa de que ter uma nacionalidade diferente dá mais respaldo a um trabalho — tão repetida por profissionais locais — não se sustenta mais.

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Em 2019, o sucesso fora da curva de Jorge Jesus no Flamengo e a boa campanha do Santos de Jorge Sampaoli no Brasileiro deram a impressão de que treinadores estrangeiros sempre emplacariam trabalhos duradouros. Hoje, não há mais porque pensar assim. As passagens deles retornaram à média de duração dos anos anteriores à vinda do português e do argentino.

O ano de 2014 pode ser considerado o início da era que preparou o terreno para a enxurrada dos gringos. Antes, suas aparições eram muito mais pontuais. Nas duas temporadas anteriores, por exemplo, nenhum foi contratado. Do ano da Copa no Brasil até 2018, houve ao menos um por temporada. Neste intervalo, a média de permanência foi de 4 meses e meio — a mesma de 2022, se não consideradas as passagens que ainda estão em vigor. Alexander Medina comandou o Inter por quatro meses. Já Paulo Sousa durou cinco no Flamengo.

Trata-se de uma média provisória, já que estamos em junho e os trabalhos em andamento podem fazer esta marca crescer. Mas serve para mostrar como a longevidade de nomes como Jesus, Sampaoli e, principalmente, Abel Ferreira (há 20 meses no Palmeiras e que não entra na conta justamente por ser uma passagem em curso) são exceções. Não a regra.

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Os dois treinadores contratados em 2019 tiveram uma média de 12 meses e meio no posto. No ano seguinte, este número desabou. Os oito profissionais contratados em 2020 contabilizaram uma marca de cinco meses cada.

Naquele ano, situações tão esdrúxulas quanto as vividas pelos técnicos nacionais deixaram claro que ser de outro país não é escudo por aqui. No Botafogo, Ramon Díaz foi contratado e demitido sem ter dirigido a equipe. A passagem durou 18 dias. Neste tempo, enquanto ele se recuperava da retirada de um tumor, seu filho e auxiliar Emiliano comandou o time em três jogos.

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Na mesma temporada, o português Augusto Inácio deixou o Avaí após dois meses com a pior das impressões. Acusou a comissão permanente do clube de boicotá-lo e reclamou da falta de tempo para implementar um trabalho.

— Não querem um treinador que seja português ou brasileiro. Querem um milagreiro, e milagres eu não faço — disparou na ocasião.

No ano passado, foram sete chegadas e partidas de gringos. A duração média voltou a cair: 4,8 meses. Gustavo Morínigo (há 17 meses no Coritiba) e Juan Pablo Vojvoda (há 13 no Fortaleza) não entram nesta conta.

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Assim como na temporada anterior, a cidadania estrangeira não impediu que o Bahia demitisse o argentino Diego Dabove após seis partidas e nem que o Internacional mandasse Miguel Ángel Ramirez embora depois de três meses. Já o também argentino Ariel Holan não esperou sua vez chegar e se demitiu dois meses depois de chegar ao Santos insatisfeito com o que encontrara por lá.

Pressionados

Dos sete contratados em 2022, cinco seguem em seus postos. Mas longe de poderem se considerar estáveis. A semana do Atlético-MG começou com o diretor de futebol Rodrigo Caetano afirmando em coletiva de imprensa que o clube não pensa em demitir o argentino “Turco” Mohammed, há cinco meses no cargo. Hoje, a equipe visita o Ceará com o técnico pressionado por não vencer há três jogos e pela oscilação nas atuações.

Após a quarta derrota seguida do Botafogo, o português Luís Castro foi vaiado.

— Se já estávamos pressionados, agora estamos mais — disse o treinador alvinegro.

De 2014 até hoje, 30 trabalhos com estrangeiros à frente foram iniciados e terminados nos principais clubes do país. Somado o tempo de duração de todos eles, a média é de 5,2 meses para cada. É la rueda girando como sempre.

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