Cais do Valongo: vistoria constata abandono mais uma vez

RIO — Considerado pela Unesco “sítio histórico sensível”, o Cais do Valongo continua maltratado e esquecido quase cinco anos após ser declarado patrimônio mundial. Diante da situação, que coloca em risco o título recebido, representantes do Ministério Público Federal (MPF) e da Defensoria Pública da União (DPU) estiveram ontem no Porto para uma visita técnica, que incluiu também o prédio Docas Pedro II.

O local guarda relíquias encontradas nas escavações feitas na região, mas até hoje inacessíveis ao público. A defensora pública federal Rita Cristina de Oliveira diz ter constatado no Cais do Valongo, o mais importante vestígio do tráfico negreiro em todo continente, um “processo consolidado de descaso”.

— A gente viu que não tem sinalização, não tem limpeza adequada, não tem o monitoramento que deveria. Não há nenhum tipo de projeto conceitual que faça com que as pessoas que passam por aqui enxerguem essa região como patrimônio da humanidade — ressaltou a defensora, citando compromissos firmados com a Unesco em 2017, mas que não saíram do papel.

O Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) — alvo desde o ano passado, junto com a União, de uma ação civil pública do MPF e da DPU — enviou representante à visita. O estado do local deverá ser incluído nos autos do processo.

A expectativa é que uma nova audiência pública seja solicitada pela Justiça Federal, na tentativa de um acordo. Entre as medidas que até hoje não foram implementadas, está a criação do centro de acolhimento turístico e do Memorial da Celebração da Herança Africana no imóvel Docas Pedro II.

Pesquisador da história escravista do Brasil, Rogério Jordão também visitou o sítio arqueológico e o antigo galpão, onde estão armazenados itens pessoais de africanos escravizados, fragmentos de cerâmica e argila, âncoras de navios, eixos de trens, entre outras peças encontradas na região.

— Essas peças nos ajudam a contar a história do comércio transatlântico de escravizados para o Brasil. É um lugar de memória com quase 200 anos de apagamento — destaca o pesquisador.

Docas Pedro II abriga mais de mil caixas com materiais das escavações no Porto, sendo 243 com peças do Cais do Valongo. O imóvel, segundo a DPU, precisa de reforma.

—A estrutura do prédio está, em alguma medida, comprometida. E ele guarda um acervo riquíssimo para a pesquisa acadêmica e ao qual o público não tem acesso. O material está guardado em caixas, sem nenhum tipo de identificação, em condições precárias, com poeira, umidade, sem iluminação — afirma Rita Cristina de Oliveira.

Pelo menos, garante a arquiteta e urbanista do Iphan Cláudia Ardions, o prédio não apresenta instabilidades:

—Precisamos olhar o prédio daqui para frente, para evitar que patologias identificadas aumentem.

Giovani Scarmella, arqueólogo e diretor da Grifo, contratada pela prefeitura para fazer a conservação do material, disse que o Laboratório Aberto de Arqueologia Urbana (LAAU) ainda funciona de modo provisório.

— Estão sendo feitos esforços para conservação desse material — disse ele. — O projeto existe, e estar aqui é um passo importante.

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