'Caixa de Pandora está aberta': superbactérias já causam nova pandemia, alertam cientistas

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Foto: Getty Images
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  • Bactérias resistentes a antibióticos poderão causar até 10 milhões de mortes ao ano

  • Uso desenfreado destes medicamentos durante crise da covid aumentou resistência

  • OMS já organiza grupo de especialistas para combater problema

Cientistas e pesquisadores estão alertando ao planeta para o fato de que a próxima pandemia global já começou - em muito acelerada pela própria crise sanitária gerada pela covid-19. Nesta quinta-feira (18), começou a Semana Mundial de Conscientização sobre o Uso dos Antimicrobianos, na qual autoridades alertam para o perigo iminente para a população mundial causada pelo uso descontrolado de antibióticos.

A co-diretora do Plano Nacional frente à Resistência dos Antibióticos da Espanha, Cristina Muñoz, explica que os medicamentos contra bactérias estão deixando de funcionar em uma velocidade acelerada pelo consumo excessivo e incorreto das medicações durante a pandemia de covid.

A cientista, em conversa com o jornal El País, explica que sem antibióticos que funcionem não seria possível realizar cirurgias, incluindo cesáreas e transplante de órgãos. A quimioterapia, que favorece as infecções microbianas em pacientes com câncer ao baixar suas defesas imunológicas, se tornaria uma prática de alto risco.

“Seria um passo atrás de quase cem anos nos avanços médicos”, afirma. “Aconteceriam coisas que nem conseguimos pensar, como se uma criança cair e abrir o joelho, ao ser levado para o hospital o médico diria que não há nada que fazer e que sente muito”.

A cientista explica que o problema não será apenas para os humanos. “Deixaríamos de curar as pessoas, mas também os animais. Não poderíamos produzir alimentos saudáveis”.

Um informe para o governo britânico alertava, já em 2016, que os micróbios resistentes a fármacos já matavam 700 mil pessoas por ano em todo o mundo e que este número poderia chegar rapidamente a 10 milhões em 2050, superando a mortalidade do câncer.

Sobre esse tema, o microbiólogo Bruno González Zorn alerta que a covid piorou a pandemia silenciosa das superbactérias. “Pode ser que as 10 milhões de mortes já não ocorram em 2050, mas sim em 2040 ou 2030”, declarou ao El País.

González explica que a questão é ainda mais preocupante quando lembramos que aquelas bactérias com resistência a antibióticos podem transmitir esse escudo a bactérias próximas, incluindo de outras famílias. Quanto mais medicamentos deste tipo são usados, mais resistentes esses microrganismos ficam.

Segundo o pesquisador, se forma uma “tormenta perfeita”, revelada por dados dos hospitais espanhóis durante a primeira onda de covid-19. Entre fevereiro e março de 2020, cresceu em 400% o uso de azitromicina, um antibiótico sem eficácia comprovada contra o vírus e que foi incluído muitas vezes no “kit covid” e no tratamento precoce, defendido pelo presidente brasileiro Jair Bolsonaro. Apesar dos níveis de uso do medicamento terem se normalizado na Espanha, segue em alta em países da América Latina, onde foi amplamente difundido por governos.

O cientista integra um grupo de 15 cientistas da Organização Mundial da Saúde (OMS) para identificar quais antibióticos são essenciais para a saúde humana, com o objetivo de blindar seu uso para que sigam funcionando. Segundo González, estes medicamentos são o “último recurso” e, sem eles, a saúde humana fica desamparada.

O grupo europeu da OMS divulgou um alerta em fevereiro: “Não devemos permitir que a crise de covid se converta em uma catástrofe de resistência dos antimicrobianos”. Avisos similares foram feitos por governos e autoridades de países europeus, dos Estados Unidos, da Índia e do México, segundo o El País.

A microbióloga Ana Maria de Roda Husman, da Nova Zelândia, adverte que os mecanismos de resistência, em princípio, só têm que aparecer uma vez. “Então a caixa de Pandora já está aberta".

Segundo ela, os próprios laboratórios representam um problema. “Os próprios fabricantes de antibióticos podem ser um problema, especialmente em regiões onde não existem leis de resíduos”, alerta De Roda Husman.

Atualmente, as autoridades europeias calculam que as superbactérias já matam 33 mil pessoas todos os anos no continente.

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