'Calma, não precisa ficar nervosa' e outras frases que as mulheres não deveriam mais ouvir na CPI da Covid

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O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, prolongou na noite de quarta-feira (14) o prazo da CPI da Covid-19 por mais 90 dias. Inicialmente instalada no dia 27 de abril, a comissão parlamentar de inquérito deveria ser encerrada no dia 7 de agosto, mas os trabalhos seguirão até outubro.

Como não há mulheres entre os indicados pelos partidos para as 18 vagas (titulares e suplentes), a bancada feminina conseguiu um acordo para que duas senadoras sejam sempre ouvidas nas sessões. Mas, nos primeiros três meses de CPI, o que se viu foi um show de machismo, sobretudo da parte dos senadores titulares e suplentes.

Senadoras têm sido constantemente interrompidas em suas falas, num verdadeiro show de manterrupting. Essas interrupções, pesquisadoras da violência política de gênero afirmam, são estratégias para desequilibrar as mulheres emocionalmente e fazer com que se calem e até desistam permanentemente de participar da vida pública. As senadoras têm reagido enfaticamente ao machismo de seus colegas.

Enquanto questionava o ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, a senadora Kátia Abreu (PP-TO) foi interrompida pelo senador Eduardo Girão (Podemos-CE), que se queixou que ela tinha ultrapassado o limite de tempo. Kátia olhou para trás, por cima do ombro, e indagou: "O senhor está gostando da minha fala?" e seguiu com os questionamentos.

Já a líder da bancada feminina, a senadora Simone Tebet (MDB-MS) não foi interrompida por um colega, mas justamente por quem ela questionava. Depois de ser interrompida diversas vezes pelo ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, Tebet afirmou: "Eu gostaria que o senhor não me interrompesse porque é uma linha de raciocínio; quando eu tiver que perguntar, me dirijo a Vossa Excelência."

Abaixo seguem outros momentos dos primeiros três meses da CPI da Covid em que as senadoras foram interrompidas e tratadas com ofensas machistas, que, felizmente, nenhuma delas deixou sem resposta.

1 - 'Se a bancada feminina quer assento nesta comissão, para agir como titular, pegue o bloco e forme um partido político e terão assento nesta comissão como membros titulares'

No segundo dia da CPI, o Senador Marcos Rogério (DEM-RO) tentou impedir a senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA), representante da bancada feminina, de questionar o ex-ministro da Saúde Nelson Teich antes dos membros titulares, o que tinha sido acordado pelo presidente da CPI, senador Omaz Aziz, no dia anterior.

Marcos Rogério não ficou sem resposta. A senadora Simone Tebet (MDB-MS) explicou a diferença entre prerrogativa e privilégio: "Privilégio é inadmissível em um Estado de direito, e as mulheres nesta casa nunca vão pleitear. Nós pedimos ao plenário para termos uma fala na lista dos titulares, na lista dos suplentes", rebateu.

2 - 'Calma, não precisa ficar nervosa'

Ao questionar o ex-secretário de Comunicação do governo Bolsonaro, Fábio Wajngarten, a senadora Leila Barros (PSB-DF) foi interrompida pelo senador Marcos Rogério. Ao tentar retormar a fala, coisa que fez mais de uma vez, ela ouviu o colega lhe pedir calma.

Leila não deixou Marcos Rogério sem resposta: "Nervosa? Todo mundo aqui é afetado, né? Só vocês que não", disse ela, apontando a estratégia de silenciamento machista do colega.

3 - 'Eu queria que vossa excelência pontuasse, mas sem agressão'

No depoimento do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, a senadora Eliziane Gama afirmou que o general estava mentindo à CPI. Mas, antes de conseguir fazê-lo, Eliziane foi interrompida diversas vezes, o que a fez elevar o tom da voz. Foi então que o senador Omar Aziz, presidente da CPI, disse, em tom paternalista: "Eu queria que vossa excelência pontuasse, mas sem agressão".

Eliziane então explicou que sempre que uma mulher é enfática ou mostra determinação ela é chamada de "agressiva". Curiosamente, o mesmo não acontece com os homens. "Presidente, eu não sou agressiva. Vossa Excelência sabe que eu não sou agressiva, estou sendo enfática apenas", disse a senadora.

4 - 'Eu estou pedindo a palavra pela ordem, palavra pela ordem não é um minuto'

Quando a senadora Eliziane Gama presidia interinamente a CPI, o senador Marcos Rogério pediu a palavra pela ordem. Quando Eliziane pediu a ele que fosse breve, o senador não gostou e subiu o tom da voz, retrucando a decisão da presidente da comissão naquele momento.

Eliziane Gama se manteve firme e respondeu à altura: "Deixa eu falar uma coisa para o senhor, não venha gritar aqui não. Não grite porque aqui todo mundo sabe gritar. Tenha a tranquilidade de fazer o pedido pela ordem e não fazer sua imposição. Quem está presidindo essa sessão sou eu. Baixe seu tom de voz."

5 - 'Sem um centavo de dinheiro público. Muito interessante isso, muito interessante...'

O que parece uma fala normal, na verdade foi uma interrupção grosseira do senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) à senadora Simone Tebet, que, no momento, se dirigia a Emanuela Medrades, diretora da Precisa Medicamentos. Tebet não aceitou a interrupção: "Não estou me referindo a Vossa Excelência. Vossa Excelência só usará o microfone quando o presidente desta comissão determinar. Peço que respeite uma senadora da República", disse.

Em seguida, começou uma discussão entre diversos senadores, o que impediu Tebet de continuar seu questionamento. Depois de mais uma fala de Flávio Bolsonaro, esta inaudível porque os microfones haviam sido desligados para que a ordem na CPI fosse restabelecida, Simone Tebet ameaçou ir ao Conselho de Ética: "O senhor me respeita! Repita o que o senhor disse para mim, repita! Senhor presidente, peço a palavra pela ordem. Se esse senador novamente repetir o que disse para mim agora, eu vou reportá-lo ao Conselho de Ética", afirmou Tebet.

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