Camila Sosa Villada e Luciany Aparecida desconstroem patriarcado em mesa animada

A última mesa do segundo dia da 20ª Flip, "A festa das irmãs perigosas", reuniu a argentina Camila Sosa Villada e a baiana Luciany Aparecida, escritoras que desorganizam gêneros literários canônicos a partir das questões de gênero.

A mediadora Nanni Rios abriu a mesa lembrando que a única vez que a Flip havia recebido uma autora travesti fora em 2010, com Laerte. Agora, em 2022, a festa tem duas escritoras travestis, Amora Moira e Sosa Villada.

Na mesa animada, com muitos aplausos e risadas, o primeiro assunto foi a mudança de nome como uma "composição de si", uma "elaboração filosófica" na resistência do patriarcado, como lembrou Aparecida, que já assinou livros com a assinatura Ruth Decaso. Perguntada sobre a violência de suas obras, Sosa lembrou da sua experiência como trabalhadora sexual.

- Considero que a primeira violencia é a da linguagem - disse a argentina. - É algo muito violento que nos impõe e que recebemos sem termos pedido. A partir daí tudo que é escrito e falado se torna uma coisa herdara a partir da violência. Falo daquilo que conheço, que vejo e sinto. Como trabalhadora sexual aprendi muita coisa que não é ensinada em nenhuma família ou universidade ou religião, e que tem a ver com o perigo que os outros significam, o perigo que é se ligar com alguém. É viver tendo a consciência de que o outro é sempre uma possibilidade de violência. Não posso evitar escrever sobre isso.

Aparecida lembrou da "tradição da violência" na sociedade e na literatura brasileira e citou a experiência que fez no livro de contos Contos ordinários de melancolia.

- Minha intenção nesse livro era alterar o lugar de quem está produzindo violeência - disse. - Convivemos com índices de violência e convivemos bem com isso, mas o que aconteceria se for as mulheres que torturam e assassinam os homens?