Caminho oposto: ele deixou o Brasil e voltou para casa em meio à guerra civil

Arquivo pessoal

Refugiado no Brasil por um ano, Rami Rashid decidiu tomar uma decisão nada usual e  retornar com a família à Síria, afundada em uma guerra civil

Por Rosana Pinheiro, da Agência PLANO

“Pai, que barulho é esse?”. Com 5 anos, Rayan nem imagina que, a alguns quilômetros de sua casa, na cidade de Sweida, sudoeste da Síria, rebeldes e forças do governo disputam território em uma guerra civil que já deixou 400 mil mortos. “Eu respondo que são fogos de artifício para comemorar algum casamento. Não tenho coragem de falar para os meus filhos que as pessoas estão morrendo todos os dias”, conta o empresário de turismo Rami Rashid, de 31 anos. Depois de viver por pouco mais de um ano como refugiado em São Paulo, Rami tomou uma decisão incomum: retornou ao país devastado pelo conflito.

Rami desembarcou com a esposa e os dois filhos pequenos no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, no dia 14 de junho de 2014. “Era Copa do Mundo, a cidade estava em festa e nós fomos muito bem recebidos”. No bairro do Brás, se hospedaram em um hotel e viveram como turistas por um mês. A estratégia era se adaptar a cidade e planejar o futuro da família. Desde 2012 os Rashid já não estavam na Síria – passaram por Dubai, Líbano e Malásia. “O Brasil foi o único país que nos deu status de refúgio. O difícil é que depois disso você não recebe mais nenhum apoio do governo brasileiro. Tem que se virar”, relata Rami, que começou a ter problemas logo depois que saiu do hotel e decidiu alugar um apartamento também no Brás.

“Eu fui assaltado a mão armada duas vezes. Em uma delas levaram meu celular e 2 mil dólares que eram para as despesas do mês”. A experiência no Brás durou poucas semanas e Rami decidiu alugar um apartamento no Itaim Bibi, bairro de classe média alta. “É muito grande a diferença. Na mesma cidade você vê um bairro tão rico como o Itaim e outro tão abandonado como o Brás”. Para arcar com as despesas, que dobraram com a mudança, Rami e sua esposa, Dima, engenheira agrônoma, começaram a busca por emprego. “Eu conversava muito com as pessoas, na rua mesmo, porque queria aprender português e conseguir trabalhar”.

Como muitos outros sírios refugiados no Brasil, ele frustrou-se com as oportunidades. “O máximo que eu encontrava eram vagas em restaurantes, de garçom, ou ajudante, com salário muito baixo”, diz Rami, que em Sweida, na Síria, era dono de uma agência de turismo. “Antes da guerra a gente fazia muito dinheiro, a economia estava crescendo, as pessoas viajavam muito”, relembra saudoso de um tempo que não sabe se irá voltar. Hoje a agência de turismo está fechada: “ninguém mais sai de casa, ninguém viaja na Síria”. O gasto médio da família morando no Itaim Bibi era de US$ 2.500 por mês. Sem nenhuma fonte de renda, Rami começou a pensar em retornar à sua cidade natal. “A gente pensava ‘amanhã vai ser diferente, vamos encontrar algum trabalho’, mas nada mudava e chegamos em um ponto em que todos os dias eram muito difíceis para nós”, diz.

Arquivo pessoal

Rami tampouco encontrou ajuda na comunidade dos refugiados sírios em São Paulo. “Eu fui duas ou três vezes na mesquita para conhecer as pessoas, mas eles apoiam a revolução e os terroristas”, explica. Diferente da maioria dos sírios que veio ao Brasil, os Rashid são drusos, comunidade religiosa de origem abraâmica que não é muçulmana. Na Síria, a maioria dos drusos, cristãos e muçulmanos alauítas, etnia da família de Bashar al-Assad, defendem a atuação do exército contra os rebeldes. Postura contrária dos muçulmanos sírios sunitas que vieram ao Brasil como refugiados e apoiam a queda do ditador.

“Antes da guerra, o governo dava arroz, açúcar, os hospitais eram públicos, assim como as escolas. Ainda hoje no meio do conflito, temos acesso a todos esses serviços”, explica Rami ao justificar seu apoio à família Assad, no poder desde 1971. “Nos países árabes, é normal que os presidentes fiquem por décadas no poder, não é exclusividade da Síria”. Para Rami, o conflito começou em 2009, quando Assad começou a traçar um plano ousado para distribuir uma das maiores riquezas do país: o gás natural. As negociações para a construção de um gasoduto que envolveu Qatar, Arábia Saudita, Jordânia e Turquia, hoje todos inimigos de Assad, não evoluiu, e ele iniciou conversas com Irã, Iraque e a Rússia, despertando o ódio dos antigos aliados. “Os Estados Unidos têm motivo para apoiar a revolução e dar armas para os terroristas que se dizem revolucionários”.

Com todos os reveses que sofreram em São Paulo e sem perspectiva, a família Rashid retornou à Síria em 6 de setembro de 2015. “O povo brasileiro é maravilhoso, nós nos divertimos muito, mas não tinha mais como manter a minha família de forma confortável no Brasil”, lamenta. Da capital ficaram as lembranças registradas com a câmera do smartphone: passeios na avenida paulista, pelo centro antigo e pela região da Vila Mariana, “bairro tranquilo”, onde frequentavam restaurantes e cafés. Na Síria, encontraram uma Sweida diferente e perigosa “as pessoas mostram suas piores faces durante a guerra. Não é seguro andar na rua a noite por causa dos sequestros”. Rami relata que vítimas estão sendo mortas por gangues que traficam órgãos humanos. Mesmo assim, garante que não se arrepende de voltar: “não temo o meu destino. Essa é a minha casa”.

No início de 2017, Rami tentou retornar ao Brasil como refugiado, desta vez sozinho. “Com a minha família é mais caro e arriscado, mas sozinho conseguiria mais oportunidades”. Ao visitar a embaixada do Brasil no Líbano, porém, teve o status de refugiado negado. “Eles não deram nenhuma satisfação, apenas negaram o meu visto”. Sem poder sair de casa, Rami passa os dias na internet fazendo pesquisas e avaliando oportunidades fora da Síria. “Os dias aqui são sempre iguais. Ontem é igual hoje e assim por diante”.