Caminhoneiro brasileiro relata pânico em meio a nevasca nos Andes e diz que não sentia os pés

SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - Um caminhoneiro que ficou preso em meio a nevasca que castigou a fronteira entre Argentina e Chile contou os momentos de terror que viveu durante as mais de 24 horas sem socorro ou mantimentos, enfrentando o frio de até - 18°C registrado na região.

Juarez de Lima, que fazia o trajeto ligando os dois países, na Cordilheira dos Andes, contou que deixou de sentir os pés e já não respirava bem quando conseguiu socorro, no domingo (10).

"Ficamos sábado a noite inteira [presos dentro dos caminhões], domingo o dia inteiro, e quando foi domingo de tarde já comecei a me sentir 'ruim' por causa do ar. Começou a ressecar, já não tinha mais água para tomar, daí fui pedir socorro. Eles falaram que uma hora da manhã eles iam vir nos buscar. Cheguei ao alojamento eram seis horas da manhã. Eu já não sentia meus pés, as mãos, as unhas estavam pretas", detalhou o caminhoneiro ao "Fantástico", da TV Globo, exibido na noite deste domingo (17).

Desde então, Juarez está alojado em uma escola transformada em abrigo na cidade chilena de Los Andes.

"Deram comida, colchão para a gente dormir, na sala em que eu estou tem 16 pessoas, muito brasileiro, muito argentino com a família", comentou.

Algumas horas antes dele, outro caminhoneiro brasileiro foi resgatado. Ivonei Grolli ainda voltou a região, atingida pela nevasca em 9 de julho, para ajudar na operação de socorro a colegas que não conseguiram deixar os veículos.

"Eu fiquei dentro do carro até o domingo, umas duas horas da tarde. O caminhão estava ligado, o ar quente estava ligado, e bastante cobertor e roupa para se proteger, porque não dava nem para descer da cabina. É muito vento forte e muita neve, então foi complicado", lembrou ele.

Nas primeiras 72 horas após a nevasca, 639 pessoas foram resgatadas, o equivalente a três aviões, informou o tenente-coronel Felipe Cerda, comandante Escuela de Montaña Ejército de Chile, em entrevista à emissora carioca.

A autoridade afirmou ainda que a queda intensa de neve acontecem, em média, a cada cinco anos.

CAMINHONEIROS PRESOS

Cerca de 3.500 caminhoneiros que atuam transportando mercadorias entre os países do Mercosul foram pegos de surpresa pela nevasca nos Andes. Sem acesso a fontes de água potável e banheiros, os motoristas, entre eles muitos brasileiros, tiveram que improvisar para sobreviver às baixas temperaturas, em condições precárias.

Os caminhões ficaram retidos em estradas, postos de gasolina e pátios improvisados de Uspallata a Desaguadero, na fronteira com San Luis, na Argentina, esperando para cruzar a fronteira com o Chile. Eles não puderam avançar por conta da enorme quantidade de neve que cai nos Andes e a persistência das nevascas, que fecharam os postos de imigração e a aduana entre os dois países.

Em Mendoza, um comitê de crise, formado pela Gendarmaria Nacional, o Exército, a Polícia e a prefeitura do município de Las Heras autorizou uma patrulha de resgate a evacuar as pessoas retidas e liberar a rota internacional.

Os caminhoneiros que lotavam as estradas foram levados até uma região onde funciona uma refinaria de petróleo, onde estacionaram seus veículos num grande terreno usado praticamente todos os anos como um pátio improvisado, quando as condições climáticas impedem que sigam viagem.

DEPUTADO COBRA ITAMARATY

O deputado Nereu Crispim (PSD), presidente da Frente Parlamentar Mista em Defesa do Caminhoneiro Autônomo e Celetista, encaminhou na manhã de sexta-feira (15) diversos documentos ao Ministério das Relações Exteriores, com cópia para a Embaixada Brasileira na Argentina e a Embaixada Argentina em Brasília, relatando a necessidade de averiguar a situação de emergência sanitária e alimentar dos brasileiros retidos.

"Cerca de 500 caminhões com transportadores brasileiros estão atualmente retidos e no entorno da região afetada pela nevasca com previsão de piora climática", alertou o deputado no documento. "Há efetiva necessidade de atuação célere e conjunta do governo brasileiro no atendimento local, por razões humanitárias e econômicas".

Crispim disse ao UOL que decidiu acionar o Itamaraty após ter recebido muitas ligações e mensagens de motoristas, enviando vídeos e relatando a precariedade e o risco da situação vivida por eles. Em algumas imagens, os brasileiros demonstram que tentam manter o bom humor, tomando chimarrão em cadeiras de praia, vestindo bermuda, ou resfriando garrafas de vinho na neve.

"Esse é um problema recorrente. Os governos deveriam ter um monitoramento mais preciso do clima, inclusive evitando com antecedência que os motoristas se dirigissem a essas áreas. Nunca é tarde para se tomar providências com o objetivo de se evitar uma futura tragédia".

O UOL entrou em contato com o Ministério das Relações Exteriores, para se certificar das providências a serem tomadas pelo corpo diplomático do Itamaraty, mas não teve resposta até a publicação desta reportagem. Ela será atualizada caso haja posicionamento.

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